AMBULÂNCIA DO POVÃO

15 fevereiro, 2013 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

Uma história do automobilismo na região. A chegada de uma ambulância – projetada e apropriada – para o transporte de doentes de certo município de nossa região. Não sei se foi a primeira da região, sei mesmo é que causou um alvoroço danado na cidade; teve impacto social muito grande.

A novidade abalou a pacata cidade. Ao ser anunciada a sua compra por parte do gestor municipal, o povo festejou de alegria. O transporte de doentes, até então, era precário e com condições desumanas. E olhe que a ambulância adquirida nem era tão boa, nem era lá essas coisas; existiam alguns problemas: pequena, apertada, o teto baixo e sem ar condicionado. Mas tinha um aparelho toca-fita na cabine; rolava só Amado Batista.

Na chegada da ambulância à cidade ocorreu uma grande festa. Grande multidão. As pessoas quando moram num lugar isolado alegram-se com qualquer adjunta (reunião de gente). Até mesmo com um enterro (sepulto de uma pessoa). O fato, é que a ambulância, assim como tudo nessa vida, tinha seus elogiadores e seus críticos. Muitos a viam como um avanço significativo no socorro às pessoas doentes; já outros como um retrocesso, um transporte ruim, pior do que o pau de arara. Dona Maroca sentenciava:“Eu mesmo não, que não viajo nessa porqueira (a ambulância). Prefiro a C-10 do Joãozinho. Todo mundo que viaja nela falta é morrer de vomitar”.Essa adorava uma picuinha. Já Seu Zezinho da Lagoa das Emas, bajulador do prefeito, fazia propaganda do novo transporte: “Ave Maria, um carro deste é bom demais! Uma maravilha. Só gente besta que fala mal. Tem gente pra tudo nessa vida”.

Só pelo simples fato de ser na sombra o transporte de doentes, o povo já comemorou. Antes a ambulância era um pau de arara, na maioria das vezes uma C-10 (da Chevrolet) ou uma F-75 (da Willys); sendo que o primeiro transporte utilizado pra tudo foi o Jeep (da Willys). O fato, é que só em ser adesivada com o nome “Ambulância” já era o suficiente para caracterizar um transporte apropriado para os doentes.

A novidade foi pra boca do povo. Pau de arara nem pensar. Era a pedida da moda no posto de saúde, não havia hospital na cidade. Viagens e mais viagens. Não parava de rodar. “Tanto que quando voltava de uma viagem, a poeira da ida não havia baixado ainda”, contou-me seu Dudu; na época, o Secretário de Saúde. A bem da verdade, o povo foi sempre socorrido pela nova ambulância. Um motorista exclusivo para a função, de nome Constantino. Um sujeito baixinho. Gente boa. Mas muito agitado. Além de fofoqueiro, pois era o informante do prefeito (fuxiqueiro todo). Tanto que inventaram uma estória com ele.

Fala-se que certa ocasião, em 1979, estava levando uma pessoa doente para Teresina (Piauí), e ao chegar a Canto do Buriti (Piauí) avistou uma multidão. Havia acontecido um acidente à beira da rodovia. Ele, muito curioso (normalmente fofoqueiro é curioso demais), queria ver rapidamente, pois teria que continuar sua urgente viagem. Mas não conseguia, pois era baixinho e as pessoas não abriam espaço pra ele ir até o local (no meio da multidão). Foi quando teve uma brilhante ideia, e gritou: “Saiam da frente, que chegou o irmão do morto. Preciso vê-lo!” Nisso todos abriram passagem para ele aproximar-se do morto. Deparou-se com um jumento que havia sido atropelado por um caminhão (carreta). Curiosidade demais atrapalha.

Tinha o pé pesado ao dirigir. Corria demais. Cá pra nós, matou muito animal nas estradas, com suas carreiras. E não faltava carne na sua casa. Nunca matou um jumento, era só bode ou ovelha; menino esperto. As pessoas reclamavam muito, diziam que ficavam tontas na viagem. Na verdade, ninguém viajava mais do que um1 kmnela, na parte de trás, sem vomitar. Pelo fato de não ter ar condicionado não podia fechar os vidros; e abertos, entrava uma poeira danada.

Um fato inusitado. Numa viagem para Remanso (Bahia), o paciente (o doente) não dispunha de acompanhante. Mas pela gentileza e solidariedade do povo do interior, seu vizinho Pedrinho do Jó se prontificou a ir. Justificou que além de servir ao amigo, queria conhecer a cidade baiana. Nunca havia ido a lugar nenhum; só conhecia o seu município. Forama viagem. O motorista botou uma fita do Amado Batista e largou o pé na estrada. Logo nos primeiros quilômetros o acompanhante do paciente dava com a mão para parar. O motorista não via, não olhava no retrovisor. O carro dava cada pinote. Quase os dois morrem de vomitar na estrada. A ambulância era branca, mas chegou marrom (dos vômitos) a Remanso (Bahia).

Chegado lá, socorro imediato. A enfermeira perguntou para o motorista: “Quem é o doente?” Pedrinho do Jó (o acompanhante), se antecipou e disse: “Quando saímos de lá era só ele (apontou para o doente). Mas agora é ele e eu. Quero que a senhora interne nós dois.” Assim aconteceu, os dois foram internados. E a princípio, Pedrinho do Jó estava bem. Mas pelas condições da viagem ficou pior de saúde do que seu amigo. Voltou muito depois. Ambulância na volta? Nem pensar. Mandou um recado para seu filho ir com um burro buscar-lhe. E turrava: “Deus me livre de andar naquele troço! Quero é distância. Aquilo é transporte de gente!”

Outro fato, a morte de Zezão em São Raimundo Nonato (Piauí). Um sujeito grande e nojento. Era intrigado do povo quase todo do município, inclusive do Constantino, o motorista da ambulância. Foi pra lá se consultar, mas no carro da feira. E teve que ficar internado. Dias depois acabara falecendo. A ambulância estava lá, e o motorista foi comunicado (recebeu a ordem) que teria de trazer o defunto. Constantino, que andava só, xingou muito ao saber da missão. O defunto também estava só. “Tão ruim que nem acompanhante tem”, disse o motorista. Somente os dois viriam. Procurou uma pessoa para trazer como companhia (contra alma), rodou a cidade toda (pra cima e pra baixo) e não encontrou. E dizia chateado: “Isso só pode ser castigo”.Logo escureceu.

Foi pegar o defunto no hospital, que já estava todo arrumadinho (no caixão e com roupa nova). Colocou o caixão na ambulância, que não o comportou. Ficou sem poder fechar a porta; oZezão era um homem grande e a ambulância, curtinha. Teve que amarrar o caixão, com a porta praticamente aberta. Fechou os vidros da cabine, travou as portas, botou a fita do Amado Batista, e partiu rumo a sua cidade. Carreira medonha, com medo da alma do defunto (seu intrigado). Pense num medo, num arrocho… Situação complicada para Constantino.

Olha só o que aconteceu: o caixão caiu na estrada. O motorista não ouviu, mas sentiu o impacto do peso de sua queda, e parou na frente. Pegou a lanterna pra olhar, mas cadê a coragem? Até que se atreveu a conferir. Não é que o defunto havia caído… Num lugar muito isolado, longe de casas. Constantino disse desesperadamente: “Não é possível um negócio desse acontecer. E agora? Como vou pegar este caixão?” Matutou por alguns minutos o que faria. Pensou em tudo, depois em nada. Até que partiu de pé na estrada, de volta, com a lanterna, para ver se encontrava o caixão. Estava lá o caixão aberto e Zezão estirado no chão, todo arrumadinho. Na queda, o caixão abriu-se e o defunto caiu fora.

O motorista ficou num dilema. “E agora? Nem tenho coragem de pegar este cretino, e nem posso chegar lá sem ele”. Seus familiares estavam aguardando na cidade a sua chegada. Pense num arrocho… Chamou por todos os Santos que pôde lembrar. Ficou ali, imaginando a vida e o episódio. Até que deu um grito enorme (de raiva, impaciência e revolta), igual ao do Tarzan, chega tremeu o pé da serra (próxima ao local). Saiu na carreira, rumo ao defunto, e num tempo recorde, numa rapidez inacreditável, açoitou o defunto no caixão e fechou. “Não deu tempo nem de ver o rosto do desgraçado”, disse mais tarde a um amigo. O medo maior dele seria ver o Zezão. Deu uma respirada, aliviado, e gritou: “Esse dia foi de lascar!” Abraçou o caixão, colocou-o de volta no carro, e seguiu viagem.

Por muito tempo somente ele sabia dessa história. Certa época contou o acontecimento a um amigo, que espalhou para um monte de gente, inclusive para Gilberto Dias, que me contou. Hoje é assunto de uma de minhas crônicas. O fato, é que o povo ficou bom, e Dudu (o Secretário de Saúde) foi quem adoeceu. De tanta demanda e responsabilidade.

A aposentadoria da “ambulância do povão” ocorreu com a chegada das ambulâncias do SAMU. Hoje temos um grande desafio na saúde do nosso Piauí: a sua regionalização. Implica isso em organização e administração regional. Uma estrutura regional, em São Raimundo Nonato, para servir de suporte aos municípios traria mais conforto para as pessoas. Diminuiria distâncias e o sofrimento de nossa gente. Saúde mais eficiente e mais próxima. Muito já foi feito nesse sentido.

Por fim, dizer que esta crônica é também um tributo ao Constantino (já falecido), pelo seu trabalho essencial à sociedade e muito presente na memória coletiva, como o motorista da ambulância. Foi meu amigo, o conheci anos depois, através de Gilberto Dias. Não era mais motorista da ambulância, e sim de um caminhão. Guardo sua lembrança na minha mente. Das nossas conversas.

Marcos Damasceno

(escritor)

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Coronel José Dias, sertanejo obstinado

4 janeiro, 2013 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

Há exatos 134 anos nascia Cel. José Dias. Sua vinda ao mundo (ou melhor: à nossa terra) causaria impacto na convivência social e nas questões sociais.Afilhado do meu tetravô materno major Alexandrino, fazendeiro que tinha a patente da Guarda Nacional. Gosto de escrever pela via da pessoalidade; passa vínculo e envolvimento. Ficamos íntimos da história a ser contada.E dessa forma, fazer um tributo à sociedade. Através destas linhas rabiscadas, venho relatar sobre uma das mais importantes personalidades de nossa região: José Dias de Souza.

 

Sou testemunha do orgulho que nossa gente tem por sua memória. De fato, ele foi um homem do povo. Sertanejo obstinado. Autêntico sertanejo. Sempre viveu no sertão. Filho de agricultores humildes. Seu primeiro trabalho foi na roça, como lavrador. Sua infância foi difícil – de difícil sobrevivência. Nesse ambiente de grandes sofrimentos, passou os primeiros anos de sua vida. Isso certamente marcou sua personalidade profundamente. Cresceu observando a labuta diária do povo de nossa terra.

Pela sua notável inteligência e perseverança tornou-se prefeito (intendente) de São Raimundo Nonato-PI e, mais tarde, deputado estadual.Dessa forma, cometia uma heresia aos olhos das elites da época. Um homem corajoso e justo. De retidão moral. Suas palavras eram diretas. De acordo com o livro “São Raimundo Nonato, de Distrito-Freguesia a Vila”, de autoria de William Palha Dias:

- José Dias de Souza nasceu no dia 24 de abril de 1878 e faleceu a 07 de setembro de 1962. Era filho de Mariano Dias de Souza e de Ana Maria da Silveira.

Muitos causam confusão. Confundem Cel. José Dias de Souza com o Capitão-do-matoJosé Dias Soares. Provavelmente o primeiro seja descendente do segundo, mas não é a mesma pessoa. São de épocas diferentes. A saber:

- Segundo o escritor William Palha Dias, no seu livro “Caracol na História do Piauí” o comandante José Dias Soares é seu tetravô. Ele era da fazenda Endoema, berço dos Dias, hoje município de Remanso-BA (cidade nova). Em 1785 teve um namoro (proibido pela sua família) com uma jovem do povo. Por sinal, uma moça muito bonita. Os pais do jovem, fidalgos orgulhosos e soberbos, usaram da prepotência para separá-los. Enviaram-no para Oeiras-PI, antiga capital, para a casa do Visconde Manoel de Sousa Martins. Era então brigadeiro.

- Mais tarde, precisando o governo da Capitania estender conquistas ao extremo Sul do Piauí, José Dias Soares, que recebera a patente de capitão-do-mato, foi escolhido para liderar a Bandeira do médio e alto rio Piauí. Era habitado pelos índios Pimenteiras, pertencentes à tribo dos valentes Tapuias. Por volta de julho de 1807. Foram três bandeiras, sendo que a Grande Bandeira ocorreu em 1808, conquistando a lagoa de Bonsucesso. Depois chamada de Formiga e, mais tarde, do Caracol.

- Em 1912, Aureliano Augusto Dias consegue elevar Caracol a município. Sendo ele bisneto do comandante. Era filho de João Dias, neto de Domingos Dias Soares. Aureliano Dias era ainda avô do escritor William Palha Dias.

Voltando à história do coronel. Em 20 de janeiro de 1910, por decreto do hoje extinto “Ministério da Justiça e Negócios Interiores”, José Dias de Souza é nomeado Tenente-Coronel da Guarda Nacional à frente do 153º Batalhão de Infantaria da Comarca de São Raimundo Nonato (Piauí). Ainda Vila. Dotado de grande erudição e capacidade de realização, fez história na nossa terra como autodidata. De vastos conhecimentos. Foi ainda advogado rábula e promotor público.

Em 1928 disputou a prefeitura de São Raimundo Nonato-PI com o jovem Bitoso Silva. Bitoso ganha a eleição. Em 1930 veio o golpe da revolução, patronado por Getúlio Vargas. Cel. José Dias torna-se prefeito provisório no mesmo ano. Sua passagem pela prefeitura foi provisória, pois sua gestão estava atrelada ao governo de Humberto de Arêa Leão, governador do Piauí.

(Cel. José Dias reúne sua família em visita de Dom Inocêncio) Fonte: Castro Júnior

(Cel. José Dias reúne sua família em visita de Dom Inocêncio) Fonte: Castro Júnior

Casou-se duas vezes. Primeiro em 1897, com Maria Martins. Teve nove filhos no primeiro casamento. Segundo em 1911, com Ana da Silva Dias (mãe Dié). Teve treze filhos no segundo casamento. Como escreveu o saudoso William Palha Dias, ‘Cel. José Dias é considerado o pró-homem da família Dias’.

Citarei aqui alguns de seus descendentes: Seu filho Manoel da Silva Dias foi prefeito de São Raimundo Nonato-PI, deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa, e senador da República. Seu neto José Dias de Castrofoi vereador e prefeito de São Raimundo Nonato-PI, e deputado estadual. Seu neto João Batista de Castro Dias foi deputado estadual. Seu bisneto Marcelo Costa e Castro tem doutorado em Psiquiatria, foi deputado estadual e é deputado federal. Seu neto Cid de Castro Dias é engenheiro civil renomado e escritor. Claudete Maria Miranda Dias, sua descendente tem pós-doutorado em História e é uma historiadora conceituada. Dentre outros.

Comprou a fazenda Boa Vista, onde produziu cana-de-açúcar e algodão. Produzia rapadura, naquele engenho puxado por boi. Sua fazenda era sua paixão e seu retiro espiritual.Fala-se que tinha uma relação de grande amizade com seus vaqueiros. Construiu uma imagem digna do respeito de todos. Sua relação com o povo era de respeito, proximidade e compromisso.

Muito sonhador para a época. Mas não era um utópico, era um idealista prático. Ele ajudou a construir uma nova região. Suas ações elevaram um homem que nasceu nos confins do Estado do Piauí. Tinha aquele estilo sertanejo de acolher as pessoas. Reunia sempre sua (enorme) família. Notadamente quando recebia visitas; queria mostrar toda a sua descendência. Cito aqui as vezes em que Dom Inocêncio López Santamaría visitava sua residência, em São Raimundo Nonato-PI.

Cel. José Dias era extremamente educado, falava sempre com a razão. De estatura moral digna. Ele comungava daquele bordão da época: O importante nessa vida é mobilidade. A independência vem a reboque”.Recordo aqui uma passagem de sua vida.Ele gostava de dialogar com meu tio Alvino Soares; este era filho adotivo do major Alexandrino.Praticamente eram amigos de infância. E contemporâneos – Alvino nasceu em 1880. Na ocasião em que foi apeado do poder municipal, Cel.José Dias ouviu o conselho do amigo:

- Não se desestimule com as dificuldades. A evolução nem sempre é rápida. Não importa quão lenta seja a evolução. O importante é existir evolução. Quando a vida fecha uma porta, Deus abre outra. Acredite em dias melhores.

Alguns anos depois deu a volta por cima, sendo eleito deputado estadual. E deixando um legado político, com vários descendentes políticos. Como supracitado. Tinha raízes no Distrito de Várzea Grande, pertencente ao município de São Raimundo Nonato-PI. Hoje município de Coronel José Dias-PI. Foi emancipado em 29 de abril de 1992, tendo o nome em sua homenagem.

A morte de Cel. José Dias causou um enorme alvoroço na região. De fato, a morte de um homem público muito conhecido e querido. Parecia a morte de um governador de estado. Ou de um artista famoso. Muita gente presente. E uma comoção sem igual. Faleceu deixando uma larga folha de serviços prestados à sua comunidade.

Sempre agiu com grandeza Cel. José Dias tem seu nome guardado com muito carinho e zelo pela população de nossa região. Devemos celebrar sua memória como homem público, mas também como um cidadão honrado que sempre foi. 

Marcos Damasceno

(escritor)

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DITO E FEITO

14 dezembro, 2012 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

O sonho de “Pifanim” (Epifânio) e “Tiburcim” (Tibúrcio), dois primos, era morrerem bêbados. Curral Novo era o lugar. O primeiro era um homem integralmente puro em suas intenções, verdadeiro em suas palavras e sincero em tudo quanto fazia. Já o segundo, desmantelado. Carga torta. Mau elemento. O primeiro era um homem grande, forte. O segundo era um homenzinho mirrado. Dizia o povo que ‘não cresceu de ruim’. O primeiro teve 5 filhos; o segundo teve 22 filhos – os que se sabe.

Pifanim era educado. Gostava de beber, mas não tinha efeitos (da bebida) no seu comportamento que tirasse sua civilidade. Já Tiburcim era desaforado, nojento e encrenqueiro. Mas nunca bateu em ninguém, só apanhava. Os críticos diziam que ele não dormia sem brigar, ou melhor, sem apanhar. E gostava de mentir, fazer os outros de besta. Dessa feita, certa noite queria tomar uma pinga, e seu irmão Honorato, dono da bodega (a mais sortida do povoado), só abria seu comércio nesse horário em caso de doença. Veio então a grande ideia: “Pifanim, tu vai lá e diz pra ele (Honorato) que estou doente. Aí ele abrirá a bodega. Depois de pedir o remédio, peça a pinga” – disse Tiburcim. Respondeu Pifanim: “Está bem, Tiburcim. É o único jeito de a gente beber hoje”. Assim ocorreu. O comerciante foi importunado: “Seu Honorato, Tiburcim está doente. Vim aqui para o senhor vender-me um remédio para ele”. O dono da bodega saiu às pressas. Ao entregar o remédio para Pifanim, ouviu dele: “Já que o senhor abriu a bodega, me dá aí uma meiota de pinga”.

Pifanim era engraçado e inteligente. Tinha o raciocínio rápido. Já Tiburcim falava as coisas sem pensar – ou pensava apenas em besteira. Este dava resposta no povo, de lascar. Nenhum dos dois queria ceder ao processo migratório da época e sair do seu pacato povoado. Quando alguém os perguntava se não iriam para o Estado de São Paulo, eles respondiam: “Só vamos conhecer São Paulo se ele vier até aqui (interior do Piauí)”.

Deu uma seca braba, em 1951. Os dois eram jovens na época. Tiveram que passar por cima do carrancismo e ir trabalhar na terra da garoa. Chegando lá, logo arrumaram um emprego. Mais rápido ainda, descobriram um bar perto de casa. Eles moravam perto da renomada Praça da Sé, especificamente na Rua Brigadeiro Luiz Antônio. Indagavam tanto, que foram expulsos do bar (próximo). Tiveram que ir beber em bares mais distantes, correndo o risco de se perderem. Foi o que aconteceu.

Certo dia beberam todas. Eles haviam recebido o salário. Começaram à tarde, na sexta-feira. Foram parar no sábado, no mesmo horário. Como só bebiam pinga, o dinheiro deu para muitas doses. O agravante foi só um: não sabiam voltar para casa. Também não sabiam o nome da rua em que moravam. Entraram em desespero. Danaram a chorar. Até que Tiburcim virou para Pifanim e disse: “Meu irmão, tu que pensa mais tenta lembrar aí pelo menos o nome da rua…”. O segundo gritou: “Lembrei!” Viraram para um senhor que estava na calçada ao lado e perguntaram: “Moço, tu sabes onde fica a rua que o Luiz brigou com o Antônio?”. O nome da rua era Brigadeiro Luiz Antônio. Foi ensinado o endereço, mesmo sendo perguntado errado. A rua é muito conhecida.

Dois anos depois voltaram para a terra natal. Os dois arrasavam no meio da mulherada. Curral Novo também foi terra da boemia. Eles vieram com muito luxo da terra da garoa. A fala deles, Deus me livre! Era uma chiadeira doida. Chegaram bem nos festejos do povoado. Foi proposital, eles calcularam isso, planejaram chegar em tal ocasião. O padre era de São Raimundo Nonato-PI, espanhol, da Desobriga-missão. Na hora de carregar o Santo, os dois avançaram o andor. A oportunidade era única, eles iriam passar pelo meio de todo o povo e poderiam se exibir. A empolgação era tamanha que não perceberam que o Santo estava de costa para o altar, no rumo em que estavam indo. A confusão foi grande.

O padre, espanhol, com sua fala um pouco complicada de se compreender, gritava de lá: “Vira o Santo!” Para virar e ficar de frente para lá. Eles respondiam de cá: “Viva, viva, viva!” Os dois bêbados entendiam diferente – “Viva o Santo!”. Até que o padre viu que não tinha jeito, pediu para outras pessoas tomarem o andor deles dois. Ficaram com uma raiva danada. Deixaram até a igreja, no meio da missa. Imagine para onde eles foram… Bar.

No sertão ainda não existia geladeira – naquela época. Só nas regiões mais desenvolvidas do país. No Estado de São Paulo, por exemplo, já existia. Eles dois estiveram lá. De maneira, que Tiburcim sumiu por uns dias do povoado. Estava pelas redondezas no interior, no sítio de seu pai, passando uns dias. Ficaram sem se ver esses tempos. O reencontro foi sensacional. Pifanim gritou de longe, ao avistar o sumido colega: “É uma miragem. Olha o que vejo… Tiburcim. O homem apareceu. Apareceu infiteca!”. Este respondeu de lá: “Sentiu saudade de mim, seu porra?!” A alegria se completou. O primeiro disse: “Rapaz, tu está mais difícil do que geladeira preta”. O segundo justificou: “Estava dando uma trabalhada”. Só lorota, estava mesmo era dando trabalho.

Dias depois, foram a uma festa no interior. Boa toda. Salão apertado. Estava tão cheio que nem se podia mexer muito. Emendaram direto – foram dois dias de festa. No momento em que parou a festa, o povo começou a sair. De repente, um senhor cai. Gritaram: “Chega que morreu um ali agora!” Que nada. Tinha morrido no primeiro dia de festa. Mas estava tão cheio o salão que não achou espaço pra cair, e ficou em pé (morto). Deus do céu, que tragédia.

Na volta, na picape do Afonso – o único carro das redondezas -, outra tragédia. A morte de Pifanim. Isso mesmo. Este vinha sentado na grade do carro, juntamente com Tiburcim, se escorando um no outro, com aquela camaradagem clássica de bebum. Num salabanco, Pifanim caiu de costas. Tiburcim pulou imediatamente do carro para socorrê-lo. A posição em que descambou do carro foi fatal. Antes do último suspiro, o pedido: “Tiburcim, não fuja de nossa sina (morrer bêbado). Faço aqui minha parte”. O outro, em desespero (muito abalado), jura de pé junto cumprir o combinado. Ô acordo muito louco.

Levaram Pifanim para ser velado em casa. Morreu de tanto beber cachaça. Depois de muitas horas de velório, um amigo se aproxima de Tiburcim e comenta: “Puxa, como a cara do Pifanim está horrível!” Diz o outro: “Também pudera! Já faz algumas horas que ele não bebe!” Seguiram para o cemitério, para o sepulto. Os dois continuam a conversa. Estavam lamentando a sua morte. Até que Tiburcim teve uma ideia brilhante e falou: “A gente podia abrir um bar neste cemitério pra despedir dos amigos como se deve!” O outro indagou: “E como é que ia se chamar o bar?”

A resposta do primeiro: “A saideira”.

Tiburcim acunhou bebendo, a partir daquele dia. Até conseguir chegar ao final desejado. A tristeza pela falta do seu primo e amigo de infância (também de cachaça) era tamanha. Facilmente se notava seu semblante triste. Dizia: “A morte que nos separou, há de nos juntar. Preciso morrer para me encontrar com o Pifanim – seja no céu ou no inferno”.

Oportunizado por uma cachaçada doida, de vários dias seguidos, somando-se a algumas horas de sol escaldante, morreu abraçado ao litro. Caído no meio do sol. E assim ocorreu. Dito e feito. Os dois morreram bêbados.

Marcos Damasceno
(escritor)

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CARVALHO FILHO, UM ÍCONE DA COMUNICAÇÃO

10 novembro, 2012 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

*Foi o primeiro a pronunciar as palavras de apresentação no microfone da importante emissora Rádio Serra da Capivara AM.

Este artigo procura resgatar as contribuições de Carvalho Filho para a comunicação regional.Ele é conhecido popularmente como radialista. A maior parte de sua vida foi marcada por horas e horas diante de um microfone. Dono de uma voz imponente, e grande capacidade intelectiva e profissional. Sempre numa perspectiva de construção de uma sociedade mais informada, cidadã e avançada. Como diz ele próprio: “Acredito, meu caro Marcos, que com todos os avanços tecnológicos o rádio sempre terá o seu espaço na informação e construção da cidadania. Sou um amante do rádio”.

Seu nome completo é Francisco Luiz de Carvalho Filho. Nasceu no dia 25 de junho de 1957. Natural de Caracol-PI, terra de intelectuais renomados como o escritor William Palha Dias. Filho de Francisco Luiz de Carvalho e Carmelita Macedo de Carvalho, ambos de saudosa memória. Casou-se três vezes. Atualmente é casado com a professora Edivete Rodrigues de Alencar. Dos três casamentos, os filhos: MakenaSued, Alain Patrick, Raphael, Beatriz e Nonatinho(in memoriam).

Irreverente, simples e prestativo. Sua história, por si só, é um testemunho fecundo da construção midiática e da radiodifusão. Caminho com o qual sonhou e para o qual viveu e lutou. É um autodidata – sua escola foi a vida, e sua vida é uma escola.Somos todos nós testemunhas de que Carvalho Filhofoi um artífice da necessária estrutura midiática e de radiodifusão como projeto de desenvolvimento para a região. Ele dedicou uma vida inteira à tarefa da comunicação. Até os dias atuais continua firme em tal missão.

Carvalho Filhoé um herói. Se o herói é aquele que sacrifica sua vida a serviço de uma causa popular, certamente ele figura na galeria dos grandes heróis regionais. Já naqueles tempos sua palavra mostrava força, coragem e compromisso. Sempre foi assim… Ele é uma bandeira. Uma lenda. De tal modo, que não é nem pra ser comparado com outros. Encontramos muitas portas abertas, que ele e sua geração abriram no passado. Reconhecemos a própria história da comunicação na sua trajetória de vida. Fazer “Jornalismo” e “Comunicação Social” naqueles tempos – com recursos tecnológicos precários – era um “deus nos acuda”. Necessitava de muita coragem, criatividade, vocação e compromisso social.

E foi dessa maneira que ele ajudou a construir um rumo – não existia nenhum – para a estrutura midiática e de comunicação. A partir daí, ficou mais fácil. Quem não se lembra da sua voz imponente nas ondas sonoras da Rádio Serra da Capivara?! Lá no começo da comunicação social da região. Ele tem importância histórica, experiência profissional e um legado de contribuição. Quanta história… Quanta superação profissional… Quanta construção… Seu exemplo é, sim, para ser seguido. Sua referência serve como espelho. Um exemplo de vida. Como profissional e cidadão.

Um giro pela sua trajetória de vida. Órfão de pai e mãe, no ano de 1973 foi para o Estado de São Paulo. Ingressou no Mosteiro de São Bernardo, da Ordem Cisterciense, na cidade de São José do Rio Pardo-SP. Segundo ele próprio, aprendeu muito a ser gente, a respeitar o próximo e ser cidadão. Conta ainda sobre a honra e o privilégio de ser contemporâneo de Dom Orani João Tempesta(hoje é arcebispo da arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro-RJ), figura superinteligente e de bondosa alma, que muito contribuiu na sua formação cristã. No Seminário aprendeu as primeiras lições de cidadania. Mas desistiu da missão de ser padre. Sua justificativa: “Senti que ser padre não era minha missão estabelecida por Deus, e aí trilhei os caminhos da comunicação.Essa é minha missão”.

O primeiro microfone que teve contato foi na Rádio Difusora de Jataí- GO, quando no ano de 1976 apresentou o programa radiofônico do grupo de jovens católicos daquela importante cidade do Sudoeste goiano.Em 1982, ainda em fase experimental, no mês de junho, foi o primeiro a pronunciar aspalavras de apresentação no microfone da importante emissora Rádio Serra da Capivara AM. Na época, Pedro Cláudio de Moura Reis – figura ilustre – fez um teste seletivo com diversos jovens em São Raimundo Nonato-PI. A História reconhece que os históricos radialistas e comunicadores vieram dos quadros dessa histórica emissora de rádio. Como diz o próprio Carvalho Filho: “O rádio é a escola da comunicação”.Essa gloriosa rádio foi, e ainda o é, um celeiro de grandes profissionais que levam o nome de nossa terra ao mundo. Hoje temos a ferramenta da internet, que em vez de prejudicar o rádio fez foi contribuir como instrumento de trabalho e mecanismo de expansão.

Num estúdio improvisado em sua residência, na Rua Virgílio Deusdará, o mestre Pedro Cláudio entregou-lhe um microfone e um jornal com notícias grifadas e pediu-lhe que o lesse. Ao terminar a leitura ele disse ao jovem Carvalho Filho: “Está empregado, meu rapaz.Tu és de onde?”Respondeu o jovem: “Sou de Caracol”. Olhou de novo dentro dos seus olhos e disse: “Está empregado”. A partir daí, iniciou sua trajetória ao lado de nomes como Pedro Cláudio, Lucílio Avelino e Arias Filho. E o famoso sonoplasta apelidado “Manteiga”. Uma curiosidade: naquela época ele era o “rádio escuta” e redator. Era muito difícil captar as notícias. O “rádio escuta” gravava os noticiários de rádios do Sudeste e Sul do país, e depois peneirava o que interessava à região.Adaptando as notícias. Tinha, por exemplo, muita dificuldade de se informar sobre os acontecimentos em Teresina, a capital do próprio Estado.

Nessa emissora apresentou o programa “Comunicativo Interiorano”, o “Jornal Factorama” e “Tarde Colorida”. No “Factorama”, juntamente com Lucílio Avelino, informava e formava opinião, além de polemizar sobre diferentes temas daquela época.No ano de 1985 teve uma rápida passagem, juntamente com Lucílio Avelino, na Rádio Cultura do Gurgueia, que depois veio a fechar. Lá apresentavam o “Jornal da Cultura”, que ia ao ar ao meio dia. Audiência total.

De volta a São Raimundo Nonato-PI recomeça no “Factorama” e “Tarde Colorida”. No ano de 1988afastou-se do rádio para ingressar na política. Foi eleito vereador de Caracol-PI, sendo o mais votado na ocasião. Presidiu o Poder Legislativo.Creio que por ser um homem devotado às causas populares. Suas ações o agigantavam. A certeza de que o radialista deveria juntar-se ao povo, com maior vínculo ainda, o levou a aceitar a missão política.

No ano de 1989 teve uma rápida volta a Rádio Serra da Capivara, tendo como diretor o seu amigo Reges Nogueira. Passou uns meses trabalhando e fez uma parada. No ano de 2006 trabalhou um bom período na Rádio Tribuna Cantoense, que hoje se encontra inativa. Atualmente apresenta o programa semanal “Cultivar”, uma iniciativa de responsabilidade social da Galvani Fertilizantes. Vai ao ar toda terça-feira na Rádio Serra da Capivara. O programa é veiculado nos povoados Peixe, Baixãozinho,Baixão e Angico dos Dias – todos domunicípio de CampoAlegre de Lourdes-BA. Utiliza-se um sistema de som automotivo apelidado de “moto som do Cultivar”. Ele próprio é o redator do programa. E apresenta o conteúdo com sua poderosa voz.

Ele dignifica a comunicação regional. O compromisso por ele pactuado jamais conheceu qualquer vacilação ou sofreu algum desalento. Esse é seu maior legado – ser competente e criativo diante de tantos, e tais, desafios; e mediante tamanhas dificuldades estruturais e inúmeros momentos dramáticos. De fato, tal provação profissional ofereceu às futuras gerações o suporte necessário para a comunicação regional, tendo contribuições não apenas nos rumos da Rádio Serra da Capivara, mas na própria profissão ou ofício da Comunicação Social. Se hoje temos uma comunicação consolidada, eficiente e estruturada, muito devemos ao pioneirismo de Carvalho Filho e aos que empenharam a vida na sua construção.

Sua grandeza humana é para tal. Modelo de cidadão, ele transmite qualidades morais raras, vindas de uma sólida formação ética e moral. Conversar com ele é edificante. Evocar sua figura traz ainda a memória do ato fundante e evolutivo da comunicação da região. Sendo ele uma grande plataforma dessa história. Diga-se de passagem, estrela de primeira grandeza. E nós temos aqui o propósito de firmamento da valorização dessa história. E quem viveu tantas, e tais, lições de vida tem experiência para sempre legitimar a confiança na missão que lhe devotar.

Ele sempre irradia simplicidade e intelectualidade. E mantém essas características ao longo da vida e diante de seu ideal. Seu exemplo de vida e sua índole são um retrato vivo de que ainda existem pessoas a quem possamos nos inspirar. Viva Caracol-PI! Viva Carvalho Filho! Viva seus familiares, amigos, fãs e discípulos que existem por aí!

Não se esqueça: eu sou uma daquelas crianças que ouviam seu vozeirão nas ondas sonoras da Rádio Serra da Capivara, naqueles tempos. E que continua a admirar e respeitar o seu trabalho. E estamos aqui, nessa missão honrosa e gratificante. É o mínimo que devemos fazer por você, que fez tanto por nós. Pela comunidade.

Meu amigo-mestre, como ensina a nossa tradição respeitosa sertaneja, nosso código de conduta moral: pra você eu tiro o meu chapéu!

Marcos Damasceno

(escritor)

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Ajude a si mesmo

17 outubro, 2012 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

Não estou aqui defendendo um comportamento egoísta; pensar somente em si e ficar alheio à vida do próximo; esquecer-se dos outros. Imaginar que o mundo é somente seu, e que de ninguém você precisa. Precisamos ajudar ao próximo, e receber ajuda. Temos duas mãos, uma para dar e outra pra receber. O cuidado deve ser no sentido de não se esquecer de você mesmo.

Quero sim, levantar um debate sobre o mundo de hoje. Corrido. Muito agitado.É corriqueiro nos sentirmos sobrecarregados, com muita coisa pra fazer ao mesmo tempo. E com prazos curtos. Vivemos sob pressão. Numa situação assim, o estresse mental é algo certo. O preço (na saúde) a pagar por todo esse estresse é enorme.O preocupante é que essa tirania da urgência consome nossa saúde, e até nossa vida. O mundo vive em ritmo frenético. Muito intenso, agitado, barulhento e exigente cada vez mais.

Muitos ainda somam isso tudo à ambição. Tornam-se obcecados pelo desejo em conquistar algo. A pressão aumenta, pela natureza da competitividade. O estresse passa a ser contínuo, seu “amigo” inseparável na vida cotidiana. A pessoa ambiciosa nunca está satisfeita com suas conquistas, a ambição só aumenta. A correria do mundo é motivada pela ganância de muitos seres humanos. Nos tempos atuais o ser humano – em regra – mudou. Como também a convivência social mudou. Algo para melhor e algo para pior. Muitos se sentem desamparados. Isso é fato.

Surgem algumas demandas. A principal: jamais tire Deus de sua vida. A segurança interior vem Dele. Nosso juízo – crítico – pode gerar problemas inexistentes ou piorar os existentes. Equilíbrio emocional é indispensável. Necessitamos de Deus. Sua palavra afasta a angústia existencial e o vazio de espírito. Só a relação com Ele resolve. Também evite a tirania da urgência. Para isso, é preciso se colocar o que é essencial no centro de suas atividades. Além de estabelecer limites, simplificar sua vida, amenizar a agitação e buscar um ritmo menos fatigante. Não precisamos correr demais, basta que não fiquemos parados. Caminhar sempre, mas sem pressa e ambição fora do controle.Durma bem. Quando deitar-se evite pensar nas preocupações e nos acontecimentos transcorridos durante o dia, como também evite antecipar os problemas do dia seguinte.

Metas exequíveis. Devemos ter sempre a capacidade de separar o desejável do possível. Na vida temos inúmeras dificuldades e possibilidades. O desafio é equacionar isso.Vejamos os lares. Antes o lar era lugar de aconchego, refúgio, proteção e segurança. Em regra. A família era o porto seguro do indivíduo. No decorrer dos tempos,o lar passou por mudanças significativas. Surgiram hábitos novos. Os valores fundamentais perderam importância. Outros foram impostos pelo mundo. A sintonia do modo de pensar e de agir sofreu influência e modificação. Os valores de atitude, os valores criativos e os valores vivenciais podem ajudar. Tenha atitude diante de tais influências externas. Seja criativo, e crie alternativas boas. Vivencie emoções agradáveis, como orar/rezar ou ouvir música. As pessoas se comportam de acordo com seus sentimentos. Precisamos ter autoconhecimento. Conhecer a nós mesmos. Isso ajudaria a resolver os conflitos – internos e externos. A origem deles está na natureza humana.

A maioria das pessoas – no mundo globalizado – desaprendeu a viver em sociedade. E os que nasceram em tal época não aprenderam sequer. Para muitos o dinheiro é o deus deles. As coisas do mundo são passageiras. Mas as coisas de Deus são eternas. Isso é bíblico. O povo vive mal espiritualmente. Muita depressão. Autoestima baixa. Muito contato virtual e pouco contato real. Faça sempre uma avaliação espiritual, e esteja sempre preparado para o que der e vier. É preciso você aprender a querer-se. E quando alguém te criticar, saiba que nem todo mundo precisa aprovar-te. Nem Jesus Cristo agradou a todos, por questão de valores da humanidade. Não precisamos agradar a todos, nem devemos esperar pela aprovação de todos.

O fato, é que há pessoas que querem o mundo ao seu gosto. Não estando dispostas a cumprir regras de convivência ou fazer algum sacrifício social. E chegam a investir na destruição das coisas, caso não consigam com que elas fiquem do jeito que desejam. As pessoas boas e as ruins estão entrelaçadas. Tudo junto e misturado. Mas existe uma linha divisória dentro do coração de cada uma delas, separando o bem do mal.Devemos tomar cuidado para limitar – ou até filtrar – as influências emocionais provocadas pelos problemas da vida. “Não leve a vida muito a sério”, disse-me um senhor de 92 anos de idade. Desvie de determinados problemas, principalmente de problemas imaginários. Tais problemas acabam com a saúde da gente.

Fale sempre. Todo e qualquer silêncio é um ato errôneo. Uma história: um amigo meu sentia-se desiludido com a vida. Deprimido. Para ele viver ou morrer era a mesma coisa. No seu modo de pensar, sua vida não tinha mais sentido. Pensava em suicidar-se, confessou-me isso. Faltava-lhe assistência espiritual. Lamentava-se que ninguém gostava dele ou dava-lhe importância. Ele reagiu quando disse-lhe: “Cuidado com esse ‘ninguém’. É perigoso. Como tem certeza que ninguém gosta de você? Eu mesmo tenho você como espelho de vida. Um amigo-mestre. O que você não pode é silenciar-se, jamais. Converse mais com as pessoas (ele era muito recatado – agora não é mais).” O fato, é que ele mudou de atitude; consequentemente, mudou de vida.Em outra ocasião, precisei de um conselho dele. Eu estava tenso e estressado. Ele disse-me: “O remédio é focar sua vida em algo importante e ocupar-se sempre numa tarefa ou missão.”

Padre Antônio, meu professor de Filosofia, disse-me várias vezes que ‘quando nos encontramos com nós mesmos, vivemos de forma melhor. A nossa consciência encontra-se com o sentido da vida’.Temos que fazer escolhas. Aceitar umas coisas e renunciar a outras. Uma atitude gera uma ação. Se não podemos mudar as coisas ao nosso gosto, podemos ao menos mudar nossa atitude diante delas. Se você não estiver preparado para isso,está vulnerável a solidão, depressão, rebeldia etc. Você tem que se sentir bem consigo mesmo. Com fé e humildade enfrentamos os desafios da vida.

Ainda existe esperança. Enrique Chaij, escritor e palestrante, autor do livro “Ainda existe esperança”, profetiza:

- Uma pessoa sem esperança é alguém sem sonhos, sem ideais, sem otimismo, sem futuro. Quando não há esperança, o desespero toma conta da vida. Aparece então o pensamento derrotista e surge o fracasso.A pessoa com esperança tem uma mente positiva e otimista. Crê no trunfo do bem sobre o mal. Não desanima na luta, levanta-se quando cai, confia na direção divina e conserva a alegria de viver. (…). A esperança é a grande força criativa e sustentadora da vida. É mais do que uma atitude mental positiva. É o olhar confiante que possibilita ver além da realidade visível.

Honre com sua existência. Encontre na vida um sentido para sua própria vida. Sinta-se motivado para enfrentar os problemas e dê passos decisivos para melhorar sua vida.

Cuide-se. Ajude-se. Vigie-se. Seja seu próprio psicólogo. Tua vida tem sentido. Ajude a si mesmo.

Marcos Damasceno

(Escritor)

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SINHÔ PEREIRA EM PASSAGEM POR CARACOL-PI

6 junho, 2012 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

(Sinhô Pereira/Já em Goiás, idoso, em 1975) Fonte: livro “Sinhô Pereira: o comandante de Lampião”

De acordo com a maioria dos autores sobre o tema, a expressão “cangaço” deriva-se de “canga”, peça de madeira colocada sobre o pescoço dos bois de carga. Os cangaceiros usavam verdadeiras cangas no pescoço para o transporte de utensílios pessoais.

O cangaço ocorreu em vários momentos da história nordestina. Primeiro com o valente José Gomes, de alcunha “Cabeleira”. Este aterrorizava as terras do Estado do Pernambuco, por volta de 1775. Anos depois, o cangaço foi protagonizado por Jesuíno Alves de Melo Calado, apelidado de “Jesuíno Brilhante”. Nasceu em 1844 e faleceu em 1879. Era natural do Estado do Rio Grande do Norte. Este saqueava os comboios do governo, roubava alimentos e distribuía entre a população pobre das redondezas. Depois foi a vez de Antônio Silvino. Nasceu em 1875 e faleceu em 1944. Tinha o apelido de “Rifle de Ouro”. Era pernambucano.

Iniciou-se o cangaço como volante. Em 1914. O mentor e líder era Sebastião Pereira da Silva, conhecido como Sinhô Pereira. Foi o comandante de Lampião. Nasceu em Serra Talhada-PE, a 20 de janeiro de 1896. Apelidado “Demônio do Sertão” pelos populares, por ser um rei nas estratégias de guerrilhas pela caatinga. Por várias vezes foi cercado pela polícia, e conseguia escapar. Era um homem do bem, embora justiceiro popular, pela via da violência. A época era assim, a justiça era feita pelas próprias mãos.

Era sobrinho neto do coronel Andrelino Pereira da Silva, o Barão do Pajeú, primeiro intendente (prefeito) da Vila Bela (Estado do Pernambuco). Também sobrinho do Padre Pereira e filho de Manuel Pereira da Silva. A tradicional família “Pereira”. A entrada do jovem Sebastião para o cangaço teve início em rixas e mortes entre “Os Pereiras” e “Os Carvalhos”. No livro “Sinhô Pereira: o comandante de Lampião”, de autoria de Nertan Macedo, publicado em 1980, a descrição:

- Manoel Pereira da Silva era irmão do Barão do Pajeú, e pai de outro Manoel – Manoel Pereira da Silva Jacobina (Padre Pereira). Manoel (pai) sempre sonhou em ver o filho padre. Mandou-o, como era de uso no tempo, estudar no Seminário de Olinda. Manoel permaneceu algum tempo de batina, derramado sobre o seu latim, mas terminou voltando para o Sertão, sem ser ordenado. Restou a Manoel o apelido de Padre Pereira.

Padre Pereira era do bem, mas por assumir a liderança política “dos Pereiras” passou a ser o mais odiado “pelos Carvalhos” (família rival). Aos 72 anos de idade, foi vítima de uma emboscada e atingido por um tiro do jagunço Luís de França, a mando da família rival.Seu filho Luís Pereira da Silva Jacobina, apelidado Luís Padre, tinha 17 anos de idade na ocasião da morte do seu pai. A esposa do Padre Pereira, Dona Chiquinha, exigiu (por questão de honra) a vingança da morte do marido. Luís Padre muito novo, não estava preparado para a missão. Pediu ajuda ao primo Né Pereira (ou Né Dadu), irmão de Sinhô Pereira. Foram escolhidos Joaquim Nogueira de Carvalho e Eustáquio Bernardino de Carvalho para serem assassinados. Assim ocorreu.

Dias depois, Né Pereira foi assassinado “pelos Carvalhos”. Aí entra na história Sinhô Pereira, que se juntou ao primo Luís Padre, no desejo de vingar a morte do seu irmão e do seu tio.  Logo os dois jovens (Luís Padre com 24 anos e Sinhô Pereira com 20 anos), mataram Luís de França, assassino de Padre Pereira. E com espírito de guerra, formaram um grupo de jagunços que passou a ser volante, andando com cangas para levar utensílios. Daí o apelido cangaceiros. Guerrearam por muitos anos.

Em 1918, Sinhô Pereira e Luís Padre resolveram recomeçar a vida e deixaram o cangaço. Alguns historiadores afirmam que eles haviam atendido a um pedido de Padre Cícero, enviado numa carta endereçada ao Sinhô Pereira, em que o sacerdote pedia que os primos deixassem a região, que vivia em clima de guerra e de medo. O sacerdote cearense ao receber a resposta favorável, enviou outra carta para Padre Castro, no município de Pedro II (Estado do Piauí), pedindo ao vigário que recebesse os dois jovens e encaminhasse-os para o Maranhão, para as terras do Barão de Santa Filomena (Estado do Piauí) e do Marquês de Paranaguá (Estado do Piauí).Mas os primos escolheram o Estado de Goiás. Do município de José do Belmonte-PE vieram em direção ao Estado do Piauí. Em Simões-PI, a caminho de Pedro II-PI, foram perseguidos e mudaram de rumo. Por questões de estratégia militar se separaram. Montados a cavalos, acompanhados de seis cangaceiros.

Luís Padre ficou com dois cangaceiros e rumou Uruçuí-PI (hoje município). Já Sinhô Pereira ficou com quatro cangaceiros (“Cacheado”, “Coqueiro”, “Raimundo Morais” e “Gato”), rumou Corrente-PI. Passou por São Raimundo Nonato-PI e chegou a Caracol – PI. O próximo destino seria Parnaguá-PI. Mas foi cercado pela polícia do Piauí, em Caracol – PI. Isso em dezembro de 1918. A força policial era comandada pelo tenente Zeca Rubens. Um contingente de 20 soldados, e ainda mais de 40 populares. Sinhô Pereira, tido por alguns como “arquiduque do sertão”, e por outros o rei das guerrilhas na caatinga, mesmo com um grupo de cinco pessoas conseguiu escapar. Suas táticas de guerrilha funcionaram.

Retornou para sua terra (no Pernambuco). Desistiu da viagem para o Estado de Goiás. Alegava que eles teriam um longo trecho pelo Estado do Piauí até chegar o destino final. Com pouca munição, com alguns dias de fome e de sede, era melhor retornar. Próximo a Remanso – BA encontraram abrigo, água e comida. Seguiu o futuro comandante de Lampião para sua terra. Chegou por lá em março de 1920. Em passagem por Serra Talhada-PE esteve com Lampião e seus irmãos Antônio eLivino. Mais tarde, outro irmão entrou para o cangaço: Ezequiel. Muitas ligações entre Lampião e Sinhô Pereira: eram vizinhos; a mãe de Lampião era afilhada do pai de Sinhô Pereira; o pai de Lampião era afilhado do Padre Pereira, tio de Sinhô Pereira; as famílias eram amigas; e com comuns inimigos: “Os Saturninos” e José Lucena.

Em Gilbués-PI (hoje município), vindo de Uruçuí-PI, Luís Padre soube do ataque ao primo. Mas seguiu pelo cerrado piauiense rumo ao Estado de Goiás. Passou em Santa Filomena-PI (hoje município). Já havia adotado um nome fajuto: José Piauí. Anos depois, já em Goiás, Luís Padre comunicou ao Sinhô Pereira o lugar onde estava. Seguro e sossegado. O cangaço na região Nordeste estava cada vez mais difícil. Sinhô Pereira resolveu ir onde estava seu primo, e comunicou ao grupo. Lampião disse que ficaria. Muitos cangaceiros ficaram com o futuro rei do cangaço, que assumiu o comando do grupo. Ao despedir-se de Lampião, disse-lhe: “Vou deixar umas brasas acesas por aí. Trate de apagá-las”.

Sinhô Pereira deixou o cangaço (definitivamente) a 08 de agosto de 1922, e foi para Minas Gerais. Anos depois se mudou para Goiás. Deu suas justificativas ao Nertan Macedo, autor do livro “Sinhô Pereira: o comandante de Lampião”, que esteve na sua casa em Minas Gerais, em 1975:

- Depois que houve outro combate na fazenda Tabuleiro, de Neco Alves, na Paraíba, fronteira com Pernambuco. De longe avistamos uns homens. Pensamos que fossem nossos companheiros. Lampião ia à frente, com Livino e “Meia Noite” (cangaceiro). Os soldados atiraram. Lampião perdeu o chapéu, ao pular para se livrar das balas. Ao voltar para apanhá-lo tomou dois tiros, um na virilha e outro acima do peito. Na hora ele saiu andando, mas não aguentou e caiu. Livino e “Meia Noite” (cangaceiro) o arrastaram até um lugar seguro.Mandei chamar o Dr. Mota, amigo da minha família, para examinar Lampião. Disse: “Nunca vi tanta sorte. Por um triz a bala pegava a bexiga e a espinha.” Fizemos um rancho, onde ficamos até Lampião poder andar.Depois do combate em que Lampião saiu ferido eu resolvi me retirar daquela vida. Saí mais por causa do reumatismo, que me atacava tanto. Tinha dia que eu não conseguia nem caminhar. Isso por causa das longas noites passadas ao relento, na friagem do sertão.

Décadas depois, Sinhô Pereira foi descoberto em Lagoa Grande, povoado de Presidente Olegário-MG, sendo dono de uma farmácia. Com nome fajuto de Chico Maranhão. O coronel Farnesi Dias Maciel foi quem deu abrigo e proteção ao ex-cangaceiro, naqueles confins de Minas Gerais. Era irmão do falecido Presidente Olegário (ex-governador mineiro), homenageado com o nome do município.Maura Eustáquia de Oliveira escreve no Jornal “O Globo” sobre Sinhô Pereira, nos anos 70:

- De Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, até Lagoa Grande, no sertão de Minas Gerais, há mais de mil quilômetros de distância. Mas uma distância muito maior separa o cangaceiro Sebastião Pereira, que Serra Talhada temeu em torno de 1916, do farmacêutico Chico Maranhão, que Lagoa Grande respeita e venera desde 1923. Sebastião Pereira, ou Sinhô Pereira como era conhecido no cangaço, é sobrinho do Barão do Pajeú, um dos mais influentes políticos pernambucanos do início do século. Aderiu ao cangaço para vingar a morte de um irmão na rixa entre as famílias do sertão e “para levar justiça a um povo que só conhecia a lei da força”. Um dia recebeu entre seus homens o jovem Virgulino Ferreira – que mais tarde seria o temido Lampião – a quem ensinou todos os segredos da guerrilha da caatinga e depois fez ele seu lugar-tenente. Quando resolveu abandonar a vida de cangaceiro, convidou seu compadre para sair junto. Mas Lampião preferiu a caatinga.

Ao escritor Nertan Macedo o ex-cangaceirodisse em 1975, ao recebê-lo em sua casa, sobre a vida no cangaço:

- Era um tempo ruim. Não tinha sossego. Era só desgraça, seca e miséria. Raro o dia, na caatinga, que podíamos nos dar ao luxo de uma xícara de café. Tinha vez de nós rompermos até 12 léguas (72 km) num dia. Um estirão danado. Nessas ocasiões, a gente mal parava pra comer e descansar. Travessias fortes, perambulando de um lado para outro. Enfrentava inimigos fortes e poderosos, ainda sofria dias e dias de fome e sede. Eis a vida no cangaço. Quase todos do grupo tinham menos de 25 anos (de idade).

Em 1920, mês de junho, Virgulino Ferreira, vulgo Lampião, entra para o cangaço a convite de Sinhô Pereira. Foi seu comandante. Segundo ele próprio, sua entrada foi motivada pelo desejo de vingar a morte do seu pai. O líder Sinhô Pereira admirava-o pela sua valentia e por suas técnicas de guerras (era bom nisso). E Lampião, sempre que necessário, demonstrava idolatria ao comandante e até depois de sua saída fez tributo ao seu mestre, dizendo da sua admiração por ele. O mestre-comandante de Lampião, conta sua vida no livro “Sinhô Pereira: o comandante de Lampião”, de autoria de Nertan Macedo:

- Lampião era de uma família humilde. Ele nasceu a umas três léguas (18 km) de São Francisco, onde eu morava e seu pai fazia a feira e batizava os filhos. Conheci Lampião desde menino. Ele e seus irmãos eram independentes e muito trabalhadores.A questão dele foi de terra. Saturnino, pai de Zé Saturnino, queria tomar um pedaço de terra da fazenda Serra Vermelha, de Zé Ferreira, pai de Lampião. Houve uns tiros entre eles. Morreu um dos jagunços de Zé Saturnino, e Zé Ferreira saiu ferido. Aí “Os Ferreiras” se retiraram para Matinha de Água Branca, em Alagoas, onde ficaram sob a proteção do coronel Ulisses Lunas, em 1917.Eles estavam até destituídos de questão, quietos, trabalhando, quando em 1920 foram procurados por Antônio Matilde, casado com uma parenta deles, para juntos perseguirem Zé Saturnino. Antônio Matilde tinha um grupo de homens. Houve algumas lutas, morreu um sobrinho de Antônio Matilde e Casimiro Honório, tio de Zé Saturnino. Depois disso, Antônio Matilde desapareceu, deixando “Os Ferreiras” encrencados também com a polícia. Essa encrenca foi que provocou a morte de Zé Ferreira, pai de Lampião.

- Depois da morte de Casimiro Honório, o tenente José Lucena saiu em perseguição a Antônio Matilde. Soube que Zé Ferreira estava na casa de um “Fragoso”, foi lá e matou o velho. Antes havia matado Luís Fragoso, filho do dono da casa. Dona Maria José, mãe de Lampião, morreu 19 dias depois de desgosto.Depois da morte de Zé Ferreira, Lampião e irmãos juntaram-se com os irmãos Porcino, Antônio, Manuel e Pedro. Mas foi por poucos dias. Então, saíram atrás de José Lucena. Tiveram um encontro com um policial num lugar por nome Espírito Santo, fronteira de Pernambuco com Alagoas. Morreu gente de parte a parte. O cabo (policial) foi confundido com José Lucena e recebeu 12 tiros. A força (policial) era muito grande. Eles não eram nem a metade. Aí eles fugiram, achando que tinham matado José Lucena.

Pegando o gancho, farei aqui uma leitura do cangaço; numa visão social. Lampião fez história no cangaço tornando-se numa lenda. Seu nome está memorizado na memória coletiva e no panteão da imortalidade. Segundo fontes bibliográficas, os três brasileiros mais biografados – todos com mais de 3000 livros escritos sobre eles – são: Padre Cícero, Lampião e Luiz Gonzaga. Todos nordestinos. Lampião, no caso aqui, foi a referência de mobilização para todos esses grandes líderes existentes da arena da justiça social. Certa vez, o então deputado federal Francisco Julião, representante das Ligas Camponesas e militante político pela reforma agrária, declarou: “Lampião foi o primeiro homem do Nordeste a batalhar contra o latifúndio e a arbitrariedade”.Assim como muitos outros personagens da História, foi injustiçado pela visão elitista.Os fatos históricos perderam lugar para as lendas.

O fato, é que Lampião era um jovem normal e tranquilo que trabalhava para Delmiro Gouveia, grande empresário da época. Sua revolta deu início a partir do dia em que seu pai (José Ferreira) foi assassinado (em 1920) pelo sargento de polícia José Lucena, por causa de um litígio com o vizinho José Saturnino. Naquela época a honra andava lado a lado com a vingança. Recorrer a quem? À justiça dos homens, muitas vezes manipulada pelo próprio coronelismo político? Não existia democracia. Nem diplomacia. Agir pela via da violência não era um erro de causa, era o meio mais sensato para o fim da dignidade moral.

Lampião foi um idealista, um revolucionário primitivo, insurgente contra a opressão do latifúndio e a injustiça do sertão nordestino. Um “Robin Hood”. Um justiceiro popular. Ele sempre foi um homem justo, que comungava de valores de respeito e de relacionamento social. Seu problema não era com o povo, nunca o perseguiu. E sim, com os coronéis rurais (posseiros das terras), líderes políticos e comerciantes que exploravam o povo com a carestia. Protestou contra todas as mazelas sociais existentes na região Nordeste. Ensinou o povo a se indignar, a mobilizar-se; ensinou-nos a importância da luta.

Sua imagem revolucionária começou a se desenhar em 1935, ainda vivo, quando a Aliança Nacional Libertadora – ANL citou-o como um de seus inspiradores políticos. Já nos anos 20 era a referência para essa linha de atuação pela justiça social. E provavelmente nos anos 10 o cangaço já representava o principal exemplo de mobilização social. Existiram erros de causa por parte do cangaço. Isso é inegável. Mas diante da grande obra da causa cívica e do mérito da história desses brasileiros cangaceiros, são insignificantes.

Sobre a referência social de Lampião, o historiador norte-americano Billy Jayner Chandler escreveu:

- Os ingleses vibram com os feitos de Robin Hood. Os norte-americanos contam as aventuras de Jesse James. Os mexicanos, as façanhas de Pancho Villa. E os brasileiros, as de Lampião.

O cangaçofoi importante e notório na luta pela liberdade e dignidade do povo sertanejo do Brasil. Deu significativa contribuição para um país mais desenvolvido e menos desigual socialmente. Vamos nos situar na região. Imagine a população sem renda que lhe oferecesse as mínimas condições de sobrevivência… Um povo que fazia parte apenas da estatística nacional brasileira como integrante da população. A exclusão social era total. Esses atores sociais foram ardentes defensores da causa da justiça, e os principais intérpretes das aspirações das massas. Foram líderes sociais. Heróis do povo brasileiro.

Marcos Oliveira Damasceno, 30 anos, escritor. Natural de Dom Inocêncio – PI. Doutorado em Filosofia Política. Diretor-Presidente da Produtora Sertão.

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Bitoso Silva, o prefeito do povo

25 abril, 2012 | Postado por admin - Comente: (2 Comentarios)

(Bitoso Silva)

Este foi um homem público que praticou a política com “P” maiúsculo; política com grandeza; política com ideal humano, pensamento comunitário e justiça social. A grandeza do pensamento coletivo foi cultuada por ele; aquela dinâmica política de representar o bem comum, o bem-estar social da sociedade. É oportuno lembrarmo-nos daquele que muito fez pela nossa terra. O nome dessa figura ilustre é Francisco Antônio da Silva, vulgo Bitoso Silva. Filho de Raimundo José da Silva e Benemerência de Macedo Silva. Casou-se duas vezes, a primeira vez com Dona Maria Rosa Macêdo, e a segunda com Dona Amena Macêdo. Teve 13 filhos, seis no primeiro casamento e sete no segundo casamento.Raimundo, fundador da Rádio Serra da Capivara AM, o empresário Antônio Macêdo, a ex-vereadora Socorro Macêdo e a escritora prof. Amenália Macêdosão seus filhos.

Prometi (pra mim mesmo) que durante este ano de 2012 iria escrever, neste espaço midiático, apenas sobre histórias e pessoas da nossa região. O motivo é simples e honroso: o centenário de São Raimundo Nonato-PI. Nessa empreitada venho retratar sobre os princípios e ações de um homem que praticou uma postura correta, que deixou o exemplo de que o ideal político é uma missão nobre para um cidadão. Quero aqui dizer das suas posições e ações, intransigentes até, que mudaram muitos conceitos na região. Ele foi uma reserva moral da política. Seus pilares foram: coragem, senso de justiça e amor telúrico.

É uma grande honra falar sobre Bitoso Silva, ícone da política da região. Fazer constar na memória coletiva um capítulo importante da história de São Raimundo Nonato-PI, e região: “Bitoso Silva, prefeito do povo”. A personalidade dele muito honra nossa terra. Sua trajetória de lutas e glórias. Ele é digno de estar na galeria dos personagens mais distintos da nossa terra. Eis, pois, alguns traços marcantes da sua personalidade. Havia nele uma profusão de qualidades. Muitas vezes escondidas pelo seu jeito sério, pelo seu olhar penetrante enfim. Antes de tudo, exemplo de vida. De cidadania. De amigo e familiar. Totalmente do bem. Vocacionado para o trabalho. De conduta ilibada. Digno, pessoa amiga, cidadão de caráter. Um homem de valor moral. Íntegro e ético. Tinha hábitos modestos. Muito civilizado. Homem da concórdia, do diálogo, do bem e da justiça. Amigo de todos. Valorizava os amigos. Tinha amor e respeito pelas pessoas.

Os depoimentos das pessoas, testemunhas oculares da sua história, revelam seu perfil humano. A bondade dominava seu pensamento. A ética esteve sempre à frente dos seus atos, sejam pessoais ou políticos. Jamais se ouviu falar de algum ato que denegrisse sua imagem ou sua conduta. Toda, e qualquer, pessoa tem respeito pela sua história. Nada equivale ao valor histórico dele para nós. Aqui na Terra ele foi exemplo de muita coisa boa. E com desprendimento. Homem de grandes virtudes. Altruísta sempre. Existem várias formas de agradar na política. A menos usual é através da seriedade. A longo prazo, é a que consolida melhor a imagem de um político. Bitoso Silva era destes políticos que agradam pela seriedade. Tinha uma personalidade forte e era muito sério. Muito compromissado com o povo. Além do mais, era justo. Seus governos eram notadamente voltados para a população humilde. Tinha esse ideal político e humano de fazer justiça social.  Dispunha de altos índices de popularidade.

Cito trechos mencionados no livro “São Raimundo Nonato, de Distrito-Freguesia a Vila”, sobre Bitoso Silva, de autoria do escritor caracolense e magistrado aposentado William Palha Dias, de saudosa memória:

- Era um homem simples, identificado com o povo e de coração magnífico. Nasceu no dia 10 de maio de 1895 e aos 22 anos de idade ingressou na política ao lado de seu tio Newton Rubem de Macedo e de outros políticos da época. Foi eleito prefeito de São Raimundo Nonato – PI pela primeira vez em 1928, disputando o cargo com o Cel. José Dias. (…). Nesse longo período sempre atendeu as necessidades do povo, sem jamais se prevalecer do poder. A prefeitura e sua residência estavam sempre abertas ao povo, principalmente aos pobres. Enfrentou muitas crises e secas, procurando dar trabalho a cada pai de família e ajudando-os em suas necessidades, por isso muitos lhe chamavam de “pai”.

- Em 1952 foi eleito pela segunda vez, disputando a prefeitura com outra figura muito simpática e popular, o Sr. Manoel Agostinho de Castro. Enfrentando os desafios de administrar uma prefeitura quando ainda não havia o FPM nem recursos dos impostos arrecadados nos dias de hoje, construiu alguns prédios escolares no município e nomeou professores para diversas localidades; perfurou poços tubulares movidos a bomba manual, procurando amenizar o problema de água; construiu um grande mercado municipal (posteriormente demolido para a construção de um hospital); iniciou o calçamento no centro da cidade e construiu a praça do “o” (hoje profº Júlio Paixão).

Quando Bitoso Silva assumiu pela primeira vez o governo municipal, era uma época difícil. De instabilidade jurídica, até. O gestor muitas vezes “dormia” no cargo, e “acordava” apeado dele. Por várias vezes, ele próprio se arriscou em situações perigosas para defender a cidade de forças coronelistas que queriam ocupar o cargo no tapetão e dominar o imenso município de acordo com seus princípios políticos e familiares. Vivia-se o tempo do poder decisório nas mãos dos coronéis ou dos seus descendentes. Eram possuidores de tudo, e o povo de praticamente nada, nem de sua vida (se quer saber).Eles tentavam controlar os lugares e até as pessoas. Lutavam para que tudo fosse propriedade deles. Eram os “manda-chuva” do lugar. Não vem ao caso citar os nomes desses coronéis. O fato, é queo jovem prefeito era um médio comerciante, de ideais republicanos. Almejava um município de todos e para todos.

Notável homem destemido. Ninguém o emparedava ou intimidava-o. Sua rebeldia foi uma necessária transição no romper das velhas prisões das ordens sociais e na busca de liberdade. Mostrou que podemos criar uma realidade a partir dos nossos pensamentos. Lutar para termos também poder nessa vida. O poder é uma emoção humana. Poder correto. Poder deriva do latim potere (ser capaz). Agir para ser mais. As reações também são emocionais. Nesse contexto cada um tem um conceito diferente do vocábulo poder. Isso é pessoal. As motivações sempre visam um resultado. Sem muito estudo, Bitoso Silvafoi audacioso. Emblemático. Quebrou paradigmas. Provocou a revolução dos humildes. Enfrentou uma luta pela possibilidade de ser alguém na vida. De alguma maneira, ajudou o lugar onde nasceu.

Palavras do meu tio-avô Zeca Damasceno (José Rodrigues Damasceno), escritor:

- Bitoso (Silva) era revoltado com o que chamava de “males de origem”. Privilégios de umas classes sociais, diante da exclusão de parcela significativa da sociedade brasileira. Esses vícios vinham desde a colonização do país. Apesar de terem esse caráter político, as mudanças desejadas por ele objetivavam um caráter social. Ideais e ideias nortearam a vida dele. Muito sonhador para a época. Seu pensamento formador envolvia as pessoas, e sua postura de líder popular moldava de certa forma os costumes arcaicos, advindos da Monarquia. Ele ajudou a construir uma nova região. (Escritos de Zeca Damasceno).

De igual modo dizia meu tio Janjão (João de Sousa Rodrigues), ex-vereador de São Raimundo Nonato-PI e subdelegado no Distrito de Curral Novo (hoje Dom Inocêncio-PI):

- As ações de Bitoso Silva elevam um homem que nasceu nos confins do Estado do Piauí. Sempre o vi sonhando com dias melhores para o povo, e liderando aqueles que acreditavam na liberdade e na democracia. Sua trajetória de vida foi marcada por uma luta permanente em defesa dos mais pobres. (Escritos de Zeca Damasceno).

Celerino Antônio de Sousa, meu tio-avô, foi seu grande amigo também. Dentista prático e político. Suas palavras:

- Bitoso (Silva) foi um homem muito importante para o povo. De uma bondade inesgotável e espontânea. Tinha aquele estilo sertanejo de acolher as pessoas. Assumiu a pauta das questões sociais do nosso povo. E o povo seguiu um homem que quase de maneira obsessiva só pensava nesse povo. Ele atendeu, dentro do possível, os reclamos do povo. (Escritos de Zeca Damasceno).

Bitoso Silva foi prático na Medicina. “Ortopedista” de mão cheia. Deixou o ofício depois que seu genro formou-se médico em Salvador-BA, o renomado Raul Antunes de Macêdo. Este foi o primeiro médico formado da região. Tem uma larga história de serviços prestados. Outro fato importante, é que o prefeito do povo criava literalmente muitas famílias. Explico. Naquela época existiam muitas viúvas, os maridos morriam cedo e deixavam muitos filhos.Bitoso Silva e sua esposa (ambas eram assim) adotavam todas essas famílias e ajudavam a criar os filhos.

Bitoso Silva e João Rodrigues Damasceno (meu bisavô) eram amigos desde 1928. Levantaram a bandeira do Socialismo na região. Eles nem sabiam ao certo o que era isto. A busca era por justiça social. Tal bandeira ganhou força com a chegada de Dom Inocêncio López Santamaría, em 1931. Para a época era algo audacioso. A repressão era algo certo.

Logo após a Revolução de 30, Getúlio Vargas, então presidente da República Federativa do Brasil, resolve apear do poder e perseguir todos aqueles que tinham atitudes comunistas ou fossem forças coronelistas. Dessa forma, Bitoso Silva foi acusado ora de comunista, ora de coronel político. Dois extremos da época. Para esclarecimento, ele não foi nem uma coisa nem outra. Acabou sendo derrubado pela Ditadura Vargas do cargo de prefeito, sem direito de defesa. E durante anos, foi perseguido. Mas nunca arredou os pés da cidade, ele era muito valente e corajoso. Esse fato apenas o agigantou politicamente. Ao povo dizia em praça pública:

- São Raimundo Nonato é nossaterra amada. Embora meu coração esteja feliz aqui (no meio do povo), fica sempre batendo de preocupação com o futuro do nosso lugar. (Escritos de Zeca Damasceno).

Ele não tinha cabos eleitorais, tinha amigos; não tinha eleitores, tinha devotos. Isso porque, a solução dos problemas, sua atuação, era sempre depositada em ações que participassem diretamente o povo, contemplando-o dos desígnios municipais. A relação dele com o povo sempre foi direta, aberta, próxima, verdadeira e com notável vínculo. O povo era sagradamente pensado como sujeito e colocado em primeiro lugar, jamais relegado para segundo plano. As pessoas eram respeitadas, até porque se davam ao respeito. Ele enxergou muito além do seu próprio ser, criou bem-estar geral a longo prazo. Sua preocupação mestra era esta: como fazer um povo, em sua totalidade, efetivamente participado do governo e emancipado socialmente. Na medida do possível. Ele foi um notável municipalista, convenhamos. Teve sempre uma visão holística.

Em 1952 é eleito novamente prefeito. A mobilidade popular foi enorme. Teve uma votação expressiva. Naquela época já era símbolo de resistência popular. Logo que assumiu o cargo enfrentou uma grave seca. Criou frentes de serviços e construiu importantes estradas. Existiam apenas precárias rodagens, caminhos estreitos. Destaco aqui quatro: para Caracol-PI, para São João do Piauí-PI, para Remanso-BA, e para a distante e histórica localidade de Ponta da Serra, passando pelo Curral Novo (hoje sede de Dom Inocêncio-PI). O então jovem José de Castro (anos depois prefeito de São Raimundo Nonato-PI e deputado estadual) foi o encarregado de todas elas.

(Construção da estrada para São João do Piauí-PI)(Construção da estrada para Caracol-PI) Detalhe: Bitoso Silva junto com os trabalhadoresDetalhe: Bitoso Silva junto com os trabalhadores Fonte: Antônio MacêdoFonte: Antônio Macêdo

Bitoso Silva teve também uma notável obra social: a construção de vários cartórios na região, para o registro de terras e de pessoas. Foi uma força-tarefa chamada “Liberdade e Propriedade”. O projeto era patronado por Dom Inocêncio López Santamaría. João Damasceno, como juiz de Direito, deu suporte jurídico.

(Bitoso Silva e Dom Inocêncio)

O poder correto é a missão de um cidadão. Poder de ação e reação diante dos fatos da vida; poder de relação para consigo mesmo e para com o próximo.  Agir corretamente é missão de alguém que queira gozar de cidadania. Sua vida era simples. Foi um homem realmente amado e respeitado por todos que o conheceram. Tinha a capacidade de encontrar as maiores e mais constantes alegrias nas coisas comuns da vida. Adquiriu, primeiro, o hábito de começar bem o dia. Isso durante toda a sua vida.

Eu acredito plenamente na conotação positiva do poder. Aqui mesmo neste portal, eu vejo a importância do poder da comunicação e da informação. Da transformação cultural. Poder a serviço da comunidade e do bem-estar das pessoas. Como ato de sabedoria. Poder compartilhado. Oportunidade de exercermos nossa condição humana, num mundo (em regra) desumano. A energia positiva de externarmos nossas opiniões e marcarmos nossas posições. Conquistar poder. Mais ainda, saber utilizá-lo. Para a finalidade do bem. Senão, levaremos uma rasteira do destino. Didaticamente a vida nos dar as normas para isso.

Quando sonhamos (principalmente sonhos grandes), muitos caçoam da gente. Mas nossa autoestima positiva nos faz persistir. A fé em nós mesmos e a confiança nos sonhos. Tenho em mente que o valor ou o mérito está em quem realiza. No entanto, os mesmos incrédulos, depois do sonho realizado, devotam valor ao ato realizado; mérito à obra. Esquecem-se da luta do autor. Muitas vezes, isso é proposital. Bitoso Silva passou por tudo isso. Sempre se deparou com pessoas críticas ou hostis. Diante disso, ele passava a perceber que o problema era pessoal. Como responsável que era nunca usou o poder para perseguir ninguém. Nesse caso, seu sentimento não era a raiva; era de pesar, lamentar a situação.

Uma questão que admiro muito na sua trajetória de vida: sua humildade. Sempre reivindicou o direito de errar. Nossas qualidades nos distinguem e nossas limitações nos definem. O fato, é que nossa história é medida pelas nossas obras. Realize obras, sejam pequenas ou grandes. Lute pelos seus sonhos, todo sonho é realizável. Não existe sonho impossível; existe apenas uma dificuldade para realizá-lo.

Palavras de William Palha Dias:

- Bitoso Silva faleceu a 16 de março de 1960, antes de completar 65 anos de idade. Deixou como patrimônio para seus filhos e esposa o exemplo de cidadão honesto e o respeito de todos que o conheceram. Nos dias de hoje, a falta de um homem público com o caráter do Bitoso traz gravíssimas consequências para a política local.

Bitoso Silva nos deixou o exemplo e o ensinamento de que, ao tratar de política, nós devemos nos concentrar na análise lógica. Pois ela se abre num foco em que a nossa decisão conta, em que as pequenas alianças fazem uma diferença, em que os indivíduos e os grupos pequenos ganham significação. Porque é somente a partir de pessoas concretas que a política é transformadora. A política é uma missão nobre do cidadão, possui um significado muito relevante para a sociedade. De forma, que não pode jamais ser descuidada ou ignorada. É preciso que cada cidadão se convença da necessidade de fazer política, participar, assumir responsabilidades. É uma atividade cívica.

Salve a memória de Bitoso Silva. Salve nosso sublime torrão, nossa histórica e amada São Raimundo Nonato-PI. Terra-mãe de todos nós da região.

Marcos Oliveira Damasceno, 30 anos, escritor. Autor de 15 livros publicados. Natural de Dom Inocêncio – PI. Doutorado em Filosofia Política. Fundador e proprietário da Produtora Sertão.

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EGÍDIO RAPOSO

13 março, 2012 | Postado por admin - Comente: (1 Comentario)

Homenagear Egídio Raposo. Fazer um tributo ao mestre sanfoneiro. É uma missão gratificante, misturando-se alegria e honra. Homenagem justa àquele que teve uma notória trajetória de empenho e de luta pela valorização e divulgação do forró.

(Egídio Raposo) Crédito: acervo da família

Egídio Manoel do Nascimento nasceu no dia 08 de outubro de 1924, no Povoado Macacos, município de São Raimundo Nonato-PI.  O pai Manoel Raposo era sanfoneiro, nos tempos da pé-de-bode (sanfona de 8 baixos). O menino Egídio aprendeu com o pai. Aprendeu de ouvido, como se diz na linguagem musical. O apelido “Raposo” veio de um costume da família de sanfoneiros, de sempre nas festas pedir junto ao cachê uma galinha para comer.

Vamos situar Egídio Raposo nas circunstâncias em que viveu. Era a época da família patriarcal: composta de homens autoritários, mulheres submissas e crianças escabreadas (eram educadas através do medo). Ele foi, sem sombra de dúvidas, o primeiro músico (notadamente sanfoneiro) da região a ter nível de excelência musical. Em especial, a entender de partitura. E tinha pouco estudo. Um autodidata notável. Era o tempo do amadorismo ou empirismo. Compreendendo esse momento da História, bem escreveu Josélia Ribeiro dos Passos:

  - Para fazer música, a única coisa que o indivíduo precisa é estar vivo. Não precisa saber ler, nem adquirir materiais e sequer sair de casa.

Casou-se em 1944 com Dona Teresinha Jesus do Nascimento. Tiveram seis filhos: Zildenita, João Bosco (faleceu em 1970), Hélio, Edson, Maria do Socorro e Nilva. Ele era um homem de poucas palavras. Olhar penetrante. Nas horas vagas adorava jogar baralho com os amigos. Simples cidadão corajoso e bom. Tudo que fez foi por livre exercício de cidadania e espontânea vontade humana.

Neste ano de 2012, memorável e histórico, pelo centenário de nascimento de Luiz Gonzaga, rei do Baião, e pelo centenário de São Raimundo Nonato-PI, faz-se necessário uma visitação à história do mestre sanfoneiro Egídio Raposo. Foi essencialmente dessa iniciativa histórica, com acréscimo prioritário do fator musical como instrumento de justiça social, que se originou o Baião. Compromisso estético e senso psicológico do povo brasileiro, excluído socialmente. Como fundamento de vida sofrida e possibilidade de prosperidade. A música como condição de ser alguém na vida e cantar sua aldeia. Descentralizar o Brasil do eixo Rio-São Paulo, referência aos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os mais desenvolvidos e mais beneficiados pelo processo de industrialização e desenvolvimento nacional.

Nosso grito aqui é para mostrar que o mestre sanfoneiro possui uma grande história. A grande lição dele foi ser humilde. Desse modo, viveu a grandeza da vida. Saiu de uma origem humilde. Ninguém se constrói sozinho. É uma regra básica da vida. E uma grande verdade. O povo do Sertão é solidário. Egídio Raposo, como sertanejo que foi, compreendia que a construção do indivíduo vem da carga genética, do meio social, e do ambiente educacional. Tudo isso se somando ao caráter pessoal, algo bem nosso.

A primeira coisa que percebemos na sua história, é que desde jovem deu um choque de lucidez na sua vida. Passou a encarar a realidade como ela se encontrava. E o melhor, lutou para mudá-la para melhor. Felizmente, ele não aprendeu a ser submisso. Ou então desaprendeu. O fato, é que ainda jovem provocou a desobediência civil, saindo daquela ordem social rotineira ou daquele destino sertanejo já traçado, sem perspectivas para os jovens da região. Criou asas e voou em busca de seus ideais. Rompeu o cárcere do medo e correu riscos. Sofreu emoções. Mas jamais esperou por milagres. A experiência dele nos deixa a certeza de que o pior equívoco é o indivíduo não viver sua própria natureza. O mestre sanfoneiro não cometeu tal equívoco. Gozou plenamente a alegria da vida. Ensinou-nos a sermos nós mesmos.

Jamais aceitou ser dominado por qualquer ordem social que afetasse seu bem-estar, seu prazer na vida; que destruísse aquilo que amava. Sempre reagia. Eis a grande questão! Foi sempre ator da sua própria história. Decidido sempre. E convicto. Nele ninguém viu sinal de frustração. Demonstrava ser realizado espiritualmente. Muitos vivem simplesmente porque estão vivos. Mas uma vida ociosa, sem objetivos e sonhos. Metas e ideais. A vida humana é belíssima, mas brevíssima. Cada ser humano vive num momento da História, num pequeno parêntese do tempo. Tão breve que de um instante para outro deixa de ser uma pessoa, para se tornar uma página da História.

O que fez Egídio Raposo? Construiu amigos (muitos amigos). Dos mais simples aos mestres Luiz Gonzaga e Sivuca. Correspondia da mesma forma, não tinha tratamento diferenciado. Enfrentou obstáculos. Sofreu derrotas. Bateu na porta da vida, e provou que não tinha medo de vivê-la. Percorreu pelo caminho da singeleza, assumindo ser um cidadão desprovido de orgulho. Era um apaixonado pela vida. Da forma mais simples possível. Nunca teve medo de falhar, nem tampouco se preocupava em ter sua imagem social diminuída por ser popular e andar no meio do povo; por ser simples na convivência social. Vivia sua vida, e pronto!

A cultura nada mais é do que o modo de viver de uma sociedade. O menino Egídio cresceu absorvendo a cultura simbólica que se manifestava ao seu redor. A partir daí, criou muita coisa também. Dedicado por completo. Obras e ações de grande relevância musical. E cultural. Fazendo uma viagem pelo tempo, visitando nossa história, iremos encontrar as árvores da música da nossa região. São muitos pioneiros. Desde os tempos de Júlio Dias, na década de 10, passando por Chico Cibely (pai de Tita Veiga), e chegando à geração de Egídio Raposo. Eis os amigos e parceiros do mestre sanfoneiro: João Santos (“Caraolho”), Antônio Alves do Nacimento (“Cupim”) e Hamilton Barreto. Existem muitos outros, quis aqui pegar as referências. Essa garotada foi revolucionária. Foi um movimento musical nos anos 40 e 50. Uma importante campanha.

Creio ter sido esses jovens (pelas pesquisas que tenho), naquele momento da nossa história, quem primeiro construiu a possibilidade de contemplação da cultura local. Tentaram (e conseguiram) reformar a então capenga e importada, em sua quase totalidade, “cultura dos outros”. Passaram a conhecer, compreender, valorizar e promover as tradições, o folclore e a realidade da vida cultural da nossa terra. Foi o começo de uma revolução. Muita coisa se seguiu a isso.

A primeira safra de músicos revolucionários da região, em que se tem notícia, foi essa. Aprendidas as lições, a mensagem e o exemplo foram gradativamente sendo consolidados e seguidos. Tivemos o segundo momento, com o protagonismo da geração de Tita Veiga, filho do mestre Chico Cibely, essa figura emblemática da musicalidade da região, que até hoje é um batalhador. A grande bandeira na atualidade. Deixamos, portanto, de rezar a cartilha cultural dos outros lugares. Descobrimos nossa cultura e estruturamo-la cada vez mais, dentro do nosso imenso espaço de tradições e riquezas culturais.

Isso demonstra que a situação da música popular na região não foi diferente da realidade de outras regiões. A partir de músicos como Egídio Raposo nossa música ganhou dignidade, respeito e notoriedade. Foi um dos pilares desse movimento sufragista. Época em que se inicia esse processo musical emancipacionista. Logo, algumas conquistas foram alcançadas. O mestre sanfoneiro incentivou e produziu grandes músicos e intérpretes. Muitos piauienses, e outros de Estados vizinhos.

Egídio Raposo foi para o Estado de São Paulo, nos anos 40. O grande sonho era comprar uma sanfona boa. O sonho foi realizado. Nesta oportunidade conheceu Luiz Gonzaga, de quem se tornou amigo. Retornou para sua terra. Nos anos 50 foi para Salvador-BA, estudar música. Ingressou na renomada, na época, hoje extinta, “Academia de Acordeom Regina”. Concluiu os estudos em 1955. Aluno de destaque. Foi convidado para ser professor. Convite feito, convite aceito. Recebia sempre a visita do amigo sanfoneiro Sivuca. Toda vez que estava no Brasil (naquela época morava no exterior), o renomado sanfoneiro paraibano ia a Salvador-BA só visitar o sanfoneiro piauiense. Trocavam experiências. Dele as palavras:

- Mestre Egídio é exemplo de humildade e de superação na vida. E excelência na música.

O mestre sanfoneiro fez sucesso na Rádio Excelsius da Bahia, Rádio Sociedade da Bahia, Rádio Globo, dentre outras. Outro fato importante, é que foi ele o principal incentivador do Trio Nordestino. Formado em 1957 por Lindú, Cobrinha e Coroné. Trio baiano, o original. Existiram outros dois, que duraram apenas dois anos. Não tinham a patente para usar o nome, e deixaram de existir. Foram formados no Estado de São Paulo.

Egídio Raposo teve muitos alunos. Um aluno seu: o cantor, músico e compositor Gilberto Gil. Isso mesmo: Gilberto Gil. O mestre sanfoneiro foi seu professor. Há alguns anos o cantor baiano esteve em Teresina-PI, e mandou buscar de avião seu mestre em São Raimundo Nonato-PI. Publicamente apresentou-o como seu primeiro professor de música.

(Egídio Raposo e Gilberto Gil) Crédito: acervo da família


Esteve por uma temporada em Goiânia-GO. Depois foi para Juazeiro do Norte-CE. Fez muito sucesso na região. Sua presença era certa na Rádio Iracema. Nessa época, reecontrou-se com Luiz Gonzaga. O rei do Baião o convidou para ser professor de sanfona em Exu-PE, sua terra natal. Mestre Egídio não aceitou o convite, disse ter outros projetos que impossibilitavam essa causa.

Certa vez escrevi, no livro “Gigantes do Forró: perfis biográficos”, um de meus livros, que:

- O ensino da música, notadamente às crianças, é uma disseminação de cultura e cidadania. A música em si é um instrumento de construção, manutenção e fortalecimento dessa proposta social. A reboque vem a alegria, entretenimento e o desenvolvimento. Preenche também um vazio de fé e esperança nas pessoas. Mexe com nossas emoções, consolida nossos sentimentos e fortalece nossas amizades e paixões. Sou um defensor da música como um instrumento, e uma via, para a cidadania e para o desenvolvimento. É uma arma tanto defensiva quanto ofensiva nas lutas espirituais que sofremos, entre o caminho do mal e o caminho do bem. Ela salva as pessoas do caminho do mal. É uma porta para o caminho do bem.

O fortalecimento de uma determinada identidade se dá, primeiro, pela preservação do seu patrimônio cultural. Seja de forma física (estruturas físicas, monumentos etc.), ou através da memória coletiva. Especifiquemos aqui o quesito forró. O primeiro caso ainda é falho na nossa região. Pouquíssimos monumentos fazem tal preservação da memória forrozeira. Não há sequer um monumento que represente a grandeza da tradição centenária do forró, na nossa região. Em Dom Inocêncio-PI, minha terra natal, a “Terra dos Sanfoneiros”, temos uma luta pesada nesse sentido; construir o “Parque do Forró Sanfoneiro Gilberto Dias”. Essa missão está em andamento, já providenciamos muita coisa nesse sentido. Mas de maneira geral, estamos em dívida com nossa história.

Existe, de forma heróica, um esforço grandioso para preservação da identidade e memória do forró. Destaco a luta dos nossos músicos guerreiros. A história de cada um é relevante. E somando-se forças, temos uma história de peso, no cenário regional (região Nordeste) e no contexto nacional. Cito basicamente três sanfoneiros:

- Luís do Paulo, de Dom Inocêncio-PI, considerado um dos maiores sanfoneiros de pé-de-bode (8 baixos) do Brasil. Tocou com Luiz Gonzaga nos anos 40, de quem foi amigo;

- Egídio Raposo, professor de sanfona, tendo aluno do nível de Gilberto Gil; e

- Gilberto Dias, de Dom Inocêncio-PI, sanfoneiro danado de bom, expressivo e respeitado na nação forrozeira.

(Luís do Paulo, anos 40) Fonte: Adão de Sousa

Nessa empreitada de preservar a tradição forrozeira, existem ainda muitos eventos nos municípios. Festivais de sanfoneiros, onde destaco aqui dois:

- O tradicional Festival de Sanfoneiros de Dom Inocêncio-PI, onde centenas de sanfoneiros se reúnem; e

- O grandioso Festival de Sanfoneiros de São Raimundo Nonato-PI, idealizado no ano passado, capitaneado pelo professor Cineas Santos, figura lendária da nossa cultura, e promovido pela prefeitura municipal. Na gestão do Padre Herculano. Este evento reúne os sanfoneiros da região, surgindo uma grande confraternização e uma amostra do gigantismo do forró regional.

Quero destacar aqui, uma iniciativa importante: O “Toca do Forró”, programa de rádio, na grandona Rádio Serra da Capivara AM (grande difusora de música), idealizado pelo radialista Nilton Negreiros, embaixador dos músicos, e apadrinhado pelo sanfoneiro Gilberto Dias. Sua existência tem feito um trabalho relevante, no sentido de valorizar e divulgar os artistas da região. O encaminhamento é dado. Além desse, outros programas de rádio contemplam a simbologia sertaneja. Destaco aqui, o “Se liga, Sertão”, apresentado também por Nilton Negreiros, na Rádio Serra da Capivara AM. Existe há mais de 20 anos. O programa “Forronejo”, apresentado por Edvaldo Soares, e o programa “Voz Caipira”, apresentado por Bartolomeu Neto, ambos na Rádio Cultura FM. Dão sua contribuição.

Os monumentos que existem são literários. Escritores e historiadores que se orgulham do regionalismo, e contam a história cultural da nossa terra. Também é importante considerar-se que algumas pessoas, grupos ou entidades, foram importantes (e são) nesse processo identitário. Difundindo essa arte secular. De maneira, que essa tradição manteve-se viva na memória e nos costumes do povo. Isso é atemporal.

Destaco aqui, a contribuição musical de Tita Veiga. Um persistente da memória musical da região. Preservando-a por gerações. O mestre tem sido incansável nessa missão. Lutador histórico. Sempre intervém, quando sua interferência se faz necessária. Acho isso positivo. E é sua principal marca. Jamais foge ao debate. Não aceita o papel de subalterno.

Na atualidade, contamos com uma ferramenta importante: a internet. Os portais da região democratizaram a informação, romperam os limites da comunicação, e instituíram a chamada globalização.

Egídio Raposo cantou sua aldeia. Mesmo viajando muito para fora, viajou de verdade foi para dentro. Em vez de valorizar as coisas dos outros, valorizou as nossas coisas. Internalizou a simbologia do Sertão. Não “arredou o pé” dessa causa. Seu compromisso com a música, e a cultura de maneira geral, o fez entregar-se de corpo e alma. Nunca trocou sua responsabilidade social para com sua terra, pela fama ou retorno financeiro agradável. Isso era uma característica humana dele. Preferiu ficar aqui.

Ficando em sua terra, deixou um legado. Oportunizou um grande aprendizado de música, notadamente de sanfona. Talvez se tivesse sido famoso nacionalmente, não teria dado uma contribuição concreta para a musicalidade da região, como deu morando em São Raimundo Nonato-PI. Para mim, isso vale muito mais do que a fama que não quis. O mestre nos ensinou essencialmente a ter interesse pela nossa própria história. Essa sua atitude é o exemplo mais importante da sua história.

Ótima iniciativa. Josélia Ribeiro dos Passos apresenta em 2003 uma monografia relatando a biografia de Egídio Manoel do Nascimento, junto à Universidade Estadual do Piauí-UESPI, para a obtenção do Grau de Licenciatura Plena em História. Confira dois trechos (um sobre os tempos da geração do mestre sanfoneiro, e outro sobre o pouco culto à História):

- Um homem simples que conseguiu marcar a cultura musical de São Raimundo Nonato (Piauí). Nos anos 50 verificamos que aqui a cultura era voltada principalmente para os estudos nos internatos da Ordem Mercedária.

- A sociedade local, e em geral, tende a perder suas tradições com o passar dos tempos, principalmente quando não se tem um projeto em que essas tradições possam ser resgatadas e reconhecidas pelas gerações mais novas, pela vanguarda formadora de opinião.

Já um senhor, virou taxista. Aposentado, passou a desfrutar mais da relação familiar e dos amigos. Sua vitalidade manteve-se intacta, enquanto vida teve. Claro, com alguns abalos. Por exemplo, nos anos 60 o forró sofreu um processo de decadência. Na região e nacionalmente. Refiro-me ao forró pé de serra, composto pelos instrumentos sanfona, triângulo e zabumba. Surgiram os conjuntos musicais. Eram os tempos dos bailes nos clubes. O próprio Luiz Gonzaga chegou a cogitar a possibilidade de parar sua carreira musical. Dominguinhos, sanfoneiro, que andava com ele, confirma esse fato. Foi uma época difícil para o forró.

Egídio Raposo nunca se incomodou ou deixou-se abater quando alguns críticos musicais do eixo Rio-São Paulo diziam que suas músicas (críticos não sabem fazer nada, a não ser criticar a história dos outros), eram regionais. Isso aconteceu também com Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda, Trio Nordestino, dentre outros. O mestre sanfoneiro tinha consciência da missão de um artista ou homem público, que é conviver com muitas intemperanças; conviver, até, com o contraditório. Ser uma bandeira como ele foi mais ainda, pois exige postura de líder. Isso porque, passa a ser defensor de costumes e expressões impregnadas, por sinal, nele próprio.

O mestre sanfoneiro tinha espírito empreendedor. Sempre acreditou na prosperidade da nossa terra. Jamais se deixou aniquilar pela inarredável falta de perspectiva que foi submetida, durante décadas, nossa região. Buscou caminhos e alternativas de superação. Fez da música sua religião. Para ele a música foi um sacerdócio. Era de ensinar com o exemplo. Falava pouco. Sempre respeitador e elegante. Elogiava muito e pouco criticava, agradecia muito e pouco reclamava, vivia suavemente e pouco cobrava dos outros. Vivia na dele, como se diz no cotidiano.

Egídio Raposo nunca teve solidão. Tinha uma esposa companheira, filhos amáveis e cuidadosos com ele, amigos verdadeiros (e muitos amigos), e o carinho do povo. Ele tinha a atenção e o respeito de todos. Filosofando aqui, ele viajou pelas avenidas da vida. E o mais fantástico: nas suas experiências encontrou-se consigo mesmo. Muitos nunca se encontram com seu ser. Ele viveu plenamente o seu ser. Sem ser escravo de ideias fixas. Tinha encanto pela vida.

Uma passagem de sua história. Em 1970, com a morte do seu filho João Bosco, parou de tocar sanfona. Pelo menos publicamente. Nosso esforço é para que o mestre sanfoneiro não seja relegado ao rol dos anônimos e esquecidos pela sociedade atual. Respeitar sua história e tomá-la como referência é uma atitude necessária e correta.

Egídio Raposo faleceu no dia 19 de abril de 2002. De câncer. Como se diz aqui pelas nossas bandas do Sertão: “Ele foi muito nós, e somos muito ele”. Sua personalidade enriquece a história do Piauí, da nossa região. Viveu em forma extremamente simples, mas ao mesmo tempo fascinante e encantadora. Sua memória contempla nossa esperança. Palavras de Tita Veiga, sobre ele:

- Sem Egídio Raposo, São Raimundo Nonato-PI é uma festa com forró pé de serra sem sanfona. Musicalmente, perdemos a grande alma. O mestre.

Não nascem mais, na sociedade de hoje (ou melhor, não se formam) homens da grandeza dele. Jogar luz à sua história é fazer brilhar a nossa própria história. Será sempre apreciado por suas qualidades de mente e de coração. Somos matéria e espírito. Dessa forma, a morte não é o fim. Apenas a ausência da matéria. Espiritualmente, ele vive em cada um de nós. É imortal. Está por toda parte. Está nas apresentações musicais e culturais, nas salas de reboco, nos concertos musicais, na nossa memória, no dia a dia de nossas vidas. Está, principalmente, na nossa “veia”, por onde passa o “sangue” do forró.

Ficou sua história. Seu nome. Seu exemplo de vida. Zeca Damasceno, escritor e historiador autodidata, meu tio-avô, disse certa vez palavras bonitas e importantes sobre Egídio Raposo:

- Impossível esquecê-lo. Egídio Raposo: o professor de sanfona. O líder musical que descobriu o valor cultural da nossa terra. E por ela construiu uma mensagem de valorização. Derrubou ainda a mensagem idiota de uma cultura alienada às imposições de outras regiões ou de uma classe alta elitista. Sob sua influência valorizou-se a cultura popular da região, os costumes do povo humilde. Desbravaram-se as nossas tradições. Reformulou-se a temática de nossa música. Valorizaram-se as fontes da nossa sabedoria popular.

O mestre sanfoneiro será sempre lembrado. Isso porque, grande parte de nossa história musical se confunde com sua história. Fez parte de uma geração que se agigantou diante de uma realidade social cruel. Sua história é resultado de uma imensa luta, de infinitas ações, de inúmeras realizações, do seu heróico trabalho. É a força de tudo isso. Pela sua história e pela pessoa que foi, merece o nosso respeito. Um homem destemido, de inteira ação. Honrou-nos com sua existência. Seu nome está inscrito no panteão da imortalidade.

Para os inumeráveis conterrâneos, a história de Egídio Raposo é orgulho regional e patrimônio cultural. Aqui fica consignada a nossa homenagem ao mestre sanfoneiro, e a alegria incontida de ter podido fazê-la.

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Marcos Oliveira Damasceno, 30 anos, escritor. Autor de 15 livros publicados. Natural de Dom Inocêncio – PI. Doutorado em Filosofia Política. Fundador e proprietário da Produtora Sertão.

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DOM CÂNDIDO, AMADO BISPO

26 fevereiro, 2012 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)
(Dom Cândido Lorenzo González)

(Dom Cândido Lorenzo González)

Quero destacar, antes de tudo, que este artigo se apresenta sem a pretensão de ser o registro único da história de Dom Cândido, nem tão pouco atreve-se a querer ser sua biografia. Não vou esmiuçar aqui sua vida particular. Essencialmente, será falado sobre o trabalho do Amado Bispo. Ele é digno de estar na galeria dos personagens mais distintos da história da nossa região.

Breve histórico do Distrito Eclesiástico de São Raimundo Nonato, de acordo com o escritor William Palha Dias (1918-2012), nosso mestre, no seu livro monumental “São Raimundo Nonato, de Distrito-Freguesia a Vila”:

- O Distrito Eclesiástico de São Raimundo Nonato (santo) foi criado no dia 06 de julho de 1832, através de Decreto Regencial, com sede no lugarejo Confusões. Através de Lei Provincial nº 35, datada de 27 de agosto de 1836, sua sede foi mudada para o lugarejo Jenipapo. Na Confluência do Baixão Vereda, margem esquerda do rio Piauí. O que pesou na escolha do local foi a questão d’água. O local era mais farto de água. A imagem de São Raimundo Nonato foi trazida para o novo endereço da sede.

- O Distrito-Freguesia de São Raimundo Nonato foi consolidado. Através da Lei nº 257, de 12 de agosto de 1850, foi elevado à categoria de Vila, conservando o nome de São Raimundo Nonato. Em 1912, através da Lei Estadual nº 669, de 25 de junho, o município foi emancipado.

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, Regional Nordeste 4:

- No ano de 1832 foi criado o Distrito Eclesiástico de São Raimundo Nonato, com a sede no lugar Confusões. Em 1836 a sede do Distrito Eclesiástico foi mudado para o lugar Jenipapo, e a imagem de São Raimundo Nonato foi trazida para aqui em procissão. Em 1876 foi construída a Igreja Matriz de São Raimundo Nonato, com a participação de todo o povo do município, sob a orientação do Padre José Henrique Cavalcante, o “padre mestre”, como ficou conhecido. No mesmo ano de 1876 foi construído o Cemitério Nossa Senhora de Lourdes, um pouco abaixo da Vila. No dia 25 de junho de 1912 a Vila de São Raimundo Nonato foi elevada à cidade através da Lei Estadual nº 669. Em 18 de julho de 1920 foi criada a Prelazia de Bom Jesus do Gurgueia, através da Bula “ECCLESAE UNIVERSAE” do Papa Bento XV, incluindo a Paróquia de São Raimundo Nonato-PI.

(Igreja Matriz de São Raimundo Nonato-PI/Construída em 1876)

(Igreja Matriz de São Raimundo Nonato-PI/Construída em 1876)

O Padre José Henrique Cavalcante construiu, com a participação de todo o povo da região, a Igreja Matriz em 1876. Conhecido como Frei Henrique. Era cearense. Era a época dos sacerdotes forâneos. Seu itinerário no Piauí começou por Ponta da Serra. Construiu em 1870 a igreja de Ponta da Serra, onde já existia a capela feita de pedra; construída em 1685 por outro Frei Henrique, de uma Ordem de Jesuítas, de origem até então desconhecida. Provavelmente, veio de Portugal para a Bahia. Voltando à história. De lá, Frei José Henrique Cavalcante, por volta de 1872, partiu para a localidade Jiboia, município de Casa Nova-BA, onde ergueu uma igreja. Em seguida, por volta de 1874, construiu uma igreja em Remanso-BA (cidade antiga). Em 1876, construiu a Igreja Matriz de São Raimundo Nonato-PI. De lá, partiu para São João do Piauí-PI, onde construiu a Igreja Matriz do município. A partir daí, retornou para o Ceará. Sua terra natal. Depois chegou o Padre Sebastião Ribeiro Lima, que ficou até 1878. Em seguida, Padre Pedro Álvares de Araújo, que ficou até 1899. Foi a vez do Cônego Marcos Francisco de Carvalho, que residiu em São Raimundo Nonato-PI até 1922.

Histórico de Bispos da Prelazia de Bom Jesus do Gurgueia-PI, da Prelazia de São Raimundo Nonato-PI e da Diocese de São Raimundo Nonato-PI:

 

- Dom Pedro Pascoal Miguel Martinez foi o primeiro Bispo Prelado de Bom Jesus do Gurgueia-PI. Foi nomeado em 1924 e faleceu em 1926.

- Dom Ramón Vicente Hárrison Abello foi o segundo Bispo Prelado de Bom Jesus do Gurgueia-PI. Sagrado em 1927. Não chegou a conhecer a Prelazia. Retirou-se doente para o Chile.

- Dom Inocêncio López Santamaría foi o terceiro Bispo Prelado de Bom Jesus do Gurgueia-PI. Tomou posse em 1931. Dirigiu a Prelazia por 27 anos. Faleceu em 1958. Está sepultado no altar-mor da Igreja Matriz de São Raimundo Nonato-PI.

- Dom José Vásquez Diaz foi o quarto Bispo Prelado de Bom Jesus do Gurgueia-PI. Preferiu morar em Bom Jesus do Gurgueia-PI.

- Dom Amadeo González Ferreiros foi o primeiro Bispo Prelado de São Raimundo Nonato-PI. A Prelazia de São Raimundo Nonato-PI foi criada no dia 19 de dezembro de 1961. Tomou posse em 6 de maio de 1962, e renunciou em fevereiro de 1968.

- Dom Cândido Lorenzo González foi o segundo Bispo Prelado de São Raimundo Nonato-PI. Ordenado Bispo no dia 19 de março de 1970. Tomou posse em 05 de abril do mesmo ano. No dia 03 de outubro de 1981, a Prelazia foi elevada à Diocese. Dom Cândido tornou-se o primeiro Bispo Diocesano. Atualmente mora em São Raimundo Nonato-PI. É Bispo Emérito.

- Dom Pedro Brito Guimarães foi o segundo Bispo Diocesano. Consagrado Bispo em 14 de setembro de 2002. Elevado Arcebispo de Palmas – TO, em 2010.

- Dom João Santos Cardoso é o terceiro Bispo Diocesano. E o atual. Nomeado Bispo no dia 14 de dezembro de 2011, pelo Papa Bento XVI.

Dom Cândido Lorenzo González é natural de Santa Maria de Laroá – Ourense – Espanha. Nasceu no dia 23 de setembro de 1925. Sua chegada ao município de São Raimundo Nonato-PI foi marcante. Grande festa popular. Tomou posse em 05 de abril de 1970. O Amado Bispo tornou-se porta-voz da humanidade católica evoluída e civilizada do Piauí. Fecundíssimo e de sublime naturalidade. Luz de bondade.

(Chegada de Dom Cândido a São Raimundo Nonato-PI/1970)

(Chegada de Dom Cândido a São Raimundo Nonato-PI/1970)

Dom Cândido vive com decência, ética e santidade. Sua integridade moral não é mero enfeite trajado, mas algo construído petriamente em seu caráter. Muito sólida. Afável, cortês e de coração bondoso. Como Bispo, historicamente teve a crença de uma obrigação moral e ética de trabalhar promovendo o bem-estar do nosso povo. Exerceu o ofício com devoção e generosidade, tendo carinho com toda gente. Aprecio seu estilo de vida, por harmonizar autoridade e simplicidade. Não afasta os mais simples, porque é também simples para com todos. O Amado Bispo é amigável, conselheiro, atencioso, incentivador e preocupado com o bem-estar das pessoas. Tem um invulgar caráter. Uma bondade singular.

Construiu uma imagem digna do respeito de todos. Sua relação com o povo é de respeito, proximidade e compromisso. Sua retidão moral foi sempre emblemática. O ser humano solidário deve ser lembrado, que faz da sua vida um meio para servir ao próximo. Compreendeu a fundo a necessidade de despertar a consciência das pessoas. Sempre agiu com grandeza; com afabilidade, inteligência, bondade e nobreza de caráter. Fez da solidariedade sua bandeira, e sua maior convicção. Aliando simplicidade, humildade e brilho excepcional. Homem devotado às causas populares. Contagia-nos com seu exemplo pessoal.

As ações de Dom Cândido elevam um homem simples, que sempre sonhou com dias melhores. Para si e para o próximo. Sua trajetória de vida foi marcada por uma luta permanente em defesa dos mais humildes. Sedimentou uma grande obra da solidariedade, com sua voz incansável.

Após tornar-se Bispo Emérito de São Raimundo Nonato-PI, depois de 32 anos de amor e dedicação, segue para descanso em Salvador-BA. Deixou um vazio nos nossos corações. Vivemos um mundo onde os acontecimentos provocam enorme significação. O Amado Bispo percebeu, então, que longe de São Raimundo Nonato-PI sentir-se-ia triste. Resolveu retornar à terra amada, onde sempre o abraçou como filho. Prendeu-se de tal modo à terra amada, amando-a com tanto amor telúrico, que a ela se incorporou como filho notável. Organicamente emblemático.

Em janeiro de 2012 estive visitando Dom Cândido, na sua residência. Ao lado da sede da Diocese. Fui com Socorro Macêdo. Conversamos bastante com ele. Falamos do nosso livro sobre Dom Inocêncio López Santamaría.

(Dom Cândido e eu)

(Dom Cândido e eu)

O Amado Bispo, aos 86 anos de idade, disse estas palavras sobre Dom Inocêncio:

- A vida e obra de Dom Inocêncio têm dois aspectos fundamentais: seu ardente amor a Deus e seu espírito missionário. Tal espírito missionário continua, nos dias atuais, vivo e atuante na memória da Igreja. E da comunidade católica. Somos todos herdeiros do tesouro espiritual legado pelo Bispo.

 

- Este livro foi pensado e escrito para que tenhamos, como tesouro, a memória registrada da vida de Dom Inocêncio.

 

Atualmente, o Amado Bispo é um idoso em movimento. Não aceita, de forma alguma, o sedentarismo. Quase um nonagenário. Mais uma vez é uma das exceções. Pois hoje, na sociedade atual, em regra, o idoso é tratado como uma sucata humana. Alguém frágil, que só presta para dar trabalho e dificultar a vida dos outros. Isso é um valor maldito dos novos tempos, globalizados, em que valores essenciais foram destruídos. E muitos idosos ainda pagam pelas desgraças da modernidade, tais como: desemprego, falta de educação, intolerância, desrespeito aos mais velhos, desrespeito ao próximo, drogas etc.

Na tradição da humanidade, na convivência social, notadamente nos seios familiares, os idosos representam a experiência social. São pessoas que construíram no passado, o presente que desfrutamos. Por exemplo, nos lugares mais conservadores ainda existem esses valores. Os idosos são bem cuidados, respeitados e queridos. Até, chamados de “Senhor”.

Dessa forma, Dom Cândido deixa, porém, de forma inevitável, o seu exemplo de vida. Exemplo de um idoso bem cuidado; de um idoso respeitado e querido por todos; de um idoso em movimento, que não se entrega ao sedentarismo imposto pelas mudanças de hábitos por parte da modernidade. Ele se inquieta, e vive sua vida com qualidade. E contribui com sua experiência para a sociedade. Torna-se, de tal modo, um símbolo. Uma bandeira.

Sempre tive a convicção no seu exemplo de vida e na importância referencial que tem a história do Amado Bispo para a sociedade. Um Bispo dinâmico e de vasta experiência. Viveu muitas histórias.

Dom Cândido foi capaz de traduzir, com brilhantismo, em sua trajetória de vida, o verdadeiro significado do que é ser cidadão. E deixa-nos, aos 86 anos de idade, um exemplo de jovialidade; exemplo de como viver a vida com qualidade, e ter sempre uma terapia ocupacional. Essencialmente, deixa-nos um exemplo de vida.

Ao Amado Bispo, com minhas saudações católicas.

 


Marcos Oliveira Damasceno

Escritor (autor de 15 livros) e conferencista. Doutor em Filosofia Política. Fundador e proprietário da Produtora Sertão


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Vaqueiro João José, orgulho do Brasil

7 fevereiro, 2012 | Postado por admin - Comente: (1 Comentario)
João José

João José

O vaqueiro mais velho do Brasil é do Piauí! Agora é oficial.

João José Dias, vaqueiro de 109 anos, do município de Várzea Branca-PI, microrregião de São Raimundo Nonato-PI, é o vaqueiro mais velho do Brasil. Em setembro ele completará 110 anos.

(Vaqueiro João José)

(Vaqueiro João José)

O escritor Marcos Damasceno, depois que o conheceu e fez uma homenagem a ele, no seu livro sobre o vaqueiro Zé Grande, intensificou pesquisas no sentido de confirmar sobre o fato de ele ser o mais velho do Brasil. Até então, o vaqueiro considerado o mais velho era de Serrita-PE, com 96 anos de idade. O escritor contou com ajuda de algumas instituições e de alguns pesquisadores de diversos Estados brasileiros. Inclusive, o humorista João Cláudio Moreno se empenhou bastante por esse reconhecimento. Todos nós festejamos essa confirmação. E nos orgulhamos de João José.

(João José e o governador Wilson Martins)

(João José e o governador Wilson Martins)

 Palavras do governador Wilson Martins:

- João José é uma maravilha do Piauí. Exemplo de vida. E orgulho da nossa gente. Conhecer uma pessoa como ele, é uma grande satisfação.

(Senador Wellington Dias, João José e o escritor Marcos Damasceno)
(Senador Wellington Dias, João José e o escritor Marcos Damasceno)

Palavras do senador Wellington Dias:

- João José é filho do Piauí. Orgulho dos piauienses. Patrimônio do nosso povo. Damasceno fez uma grande iniciativa.

- Quando tomei conhecimento do vaqueiro João José fiquei logo contente, ao tempo em que fiquei também admirado: “Uma pessoa com essa idade?! E ainda um vaqueiro?!” João Melancia, seu neto, e prefeito, meu amigo, me mostrou muitas fotos dele e suas histórias. Logo vi a importância de divulgarmos esse ilustre brasileiro. O ‘Saoraimundo.com’ fez logo um registro. E passamos a buscar espaço para o reconhecimento dele. No meu livro, não soube a tempo se ele era realmente o mais velho do Brasil. Sabia que era o mais velho do Piauí. Disso eu tinha certeza. De maneira, que coloquei que era o mais velho do Piauí.

- Mas não me conformei, e fiquei durante meses pesquisando, entrando em contato com instituições e amigos. João Cláudio Moreno me ajudou muito nessa empreitada. Até que confirmamos: João José é o vaqueiro velho do Brasil. Mas tivemos que provar. Para tanto, ligamos para João Melancia e pedimos o Registro de Nascimento de João José. A partir daí, sim, ele passou a ser reconhecido oficialmente como o vaqueiro mais velho do Brasil. Só nos resta festejar, nos orgulhar de uma pessoa como João José. E o melhor, é filho do Sertão; é nosso irmão sertanejo.

Marcos Damasceno

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