MIGUEL RAMOS, VAQUEIRO DE TRADIÇÃO

19 julho, 2013 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

Ser vaqueiro é tarefa difícil. O cotidiano de vaqueiro é duro e corrido; perigoso, até. Sacrificante, cansativo. Tem que ser destemido, antes de qualquer coisa. Coragem para enfrentar os perigos da caatinga. A indumentária de couro (gibão, parapeito, chapéu, sandálias, luvas, perneira etc.) é desconfortável, mas necessária para sua proteção.

No livro monumental do professor doutorando Jonas Moraes, meu irmão camarada, intitulado “SONS DO SERTÃO: Luiz Gonzaga, música e identidade”, há um estudo bem profundo do nosso herói da caatinga e a contribuição do rei do Baião ao segmento. A valorização e atenção dele é algo patriótico. Comecemos pelo gibão. Foi divulgado por Luiz Gonzaga, ao fazer uso dele como traje nas apresentações, e ainda com a música “Gibão de couro” (Luiz Gonzaga, 1958). O rei do Baião prestou homenagem também ao cavalo, fiel companheiro e necessário parceiro do vaqueiro. Para tanto, compôs a música “Cavalo crioulo” (Janduhy Finizola e Luiz Gonzaga, 1973).

Ainda a toada mais célebre, “A morte do vaqueiro” (Luiz Gonzaga e Nelson Barbalho, 1963). Uma homenagem ao seu primo, o vaqueiro Raimundo Jacó; o protótipo dos vaqueiros. A toada tornou-se o hino dos vaqueiros. E para caracterizar os heróis, muitas vezes esquecidos, Luiz Gonzaga gravou a toada “Vaqueiro véio” (João Silva e J. B. de Aquino, 1972). Uma homenagem aos vaqueiros velhos, já cansados e necessitando continuar na labuta; por prazer, motivação de vida e até necessidade no labor. Reporto aqui um trecho dela: “A velhice é tão mesquinha/Não é tua, não é minha/Para todos vai chegar”.

O cenário é o Sertão, com secas danosas, sol escaldante, paisagens tristes de doer o coração enfim. Sem hora certa para beber água, tomar café, almoçar, jantar; sem hora certa para dormir e para acordar. O vaqueiro vira escravo da rotina, da labuta rotineira, sem poder arredar os pés um só instante. O aboio é a cultura acústica do vaqueiro, sonoridade presente nos momentos de tocar a boiada. Para encontrar e pegar uma rês ele precisa ter estratégia, e sabedoria; a experiência conta muito. Além de ter que conciliar paciência com perseverança. E um toque – por que não? – de brutalidade. São esses os traços de um bom vaqueiro.

Eis aqui os traços marcantes de Miguel Félix Ramos, um bom vaqueiro da caatinga e um vaqueiro de tradição nas festividades do segmento. Ele está há 60 anos – aproximadamente – nessa labuta de vaqueiro. Nasceu no dia 28 de agosto de 1936, na Fazenda Jatobá dos Ferros, então município de Caracol – Piauí.  Filho de Genésio Félix Ramos e Percília Maria Ramos. São cinco filhos do casal; além de Miguel, outros quatro irmãos: Teonília, Agostinho, Mariano e Raimundo.

Desde jovem é vaqueiro, profissão difícil que exerce – com orgulho e missão – até hoje; com 77 anos de idade. Além da labuta com o gado, e os cuidados que a lida exige, os vaqueiros do Sertão eram responsáveis pelo transporte de boiadas para as feiras de gado; notadamente na Bahia e no Pernambuco. Destaque para as cidades de Feira de Santana-BA e Arcoverde-PE (na época Distrito de Rio Branco). Dias antes da viagem, os vaqueiros reuniam todo o gado disperso pela caatinga, a ser vendido nas feiras. O sistema de criação era o extensivo. Escolhia-se a boiada, comumente tarefa do fazendeiro, e tocava-se o gado escolhido na rodagem. Eram muitos dias de viagem. Seu Miguel Ramos conta que fez várias viagens dessas. Os alforjes eram cheios de farofa, carne seca e rapadura.

Ele tem grandeza humana. Modelo de cidadão íntegro, com qualidades morais exemplares e com sólida formação ética. Um forte entre nós viventes. Um senhor lúcido; carregado de memórias da labuta no Sertão e das lembranças de suas campeadas atrás de uma rês, notadamente de um barbatão (boi que escapa ao cerco e cria a fama de mandingueiro). O boi fica célebre, por ser difícil de capturá-lo, e o vaqueiro que consegue pegá-lo fica com o nome honrado e com fama. O desafio é também uma oportunidade única de inscrever o nome no rol dos renomados vaqueiros; tornando-se referência para os demais vaqueiros, notadamente para os mais jovens. Seu Miguel Ramos tem a pega de vários barbatões no seu currículo.

Tornou-se, rapaz novo, vaqueiro do Senhor Manoel Dias de Sousa, vulgo Capitãozinho. Evoco, aqui, seu ato fundante e emancipatório da comunidade Caldeirãozinho, município de Jurema-Piauí. A grande plataforma de sua história. O homem do lugar. Miguel Ramos torna-se o vaqueiro da sua confiança; tornando-se, mais tarde, seu genro. Fato inusitado, o vaqueiro casou-se com a filha do fazendeiro. Ele carrega a responsabilidade e o compromisso de representar a comunidade, ser a figura central. Cá pra nós, faz isso com a maior honra do mundo e muito zelo. Uma figura agradável e uma amizade cuidadosa. Ele preserva o legado do sogro; no começo com a ajuda dos cunhados João e José Bola. Organiza a cavalgada, juntamente com a programação dos Festejos do Senhor Bom Jesus da Lapa, padroeiro da comunidade.

Casou-se com Dona Eliza Dias, a 24 de junho de 1956. Um casal autêntico do Sertão. Eles nunca se afastaram das raízes, tomando sempre partido das coisas da comunidade. Por isso, que nunca se perderam pelos caminhos da vida e jamais vacilaram. Em terras sertanejas formaram o seu caráter. Sempre tiveram uma convivência de proximidade, amizade e compromisso com as pessoas. Sempre legaram a seu povo o modelo de pessoas civilizadas e decentes. É difícil falar sobre eles dois com ponderação, imparcialidade e distanciamento. Gosto de escrever pela via da pessoalidade, pois passa vínculo e intimidade. Eles tratam-me como um amigo-neto. Esse sentimento é recíproco. Reconheço neles amigos-avós. Eles têm aquele jeito sertanejo de acolher as pessoas. E assim, seus filhos e seus netos.

Seu Miguel Ramos e Dona Eliza tiveram treze filhos: Ildemar (Kari), Francisco, José Iremar, Cicilene, Cecileide (in memoriam), Genésio Neto, Valdemar, Ana Maria Neta, Manoel Neto, Miguel Filho, Ildemano, Everlando, Iremagno. E dezenove netos e duas bisnetas. O casal divide a responsabilidade das tradições da comunidade. Ele é um vaqueiro tradicional, uma forte bandeira regional da tradição da vaqueirama e uma incontestável influência para os amantes da cultura do vaqueiro. O objetivo de defender os vaqueiros e celebrar a tradição da vaqueirama é uma missão sagrada para ele. Grande incentivador na realização de eventos do segmento. Dona Eliza Dias celebra as tradições religiosas da Igreja Católica. Católica tradicional ensinou aos filhos a devoção, a fé e a importância de ter Deus presente em suas vidas. Dizia para eles que Deus é presença afetiva e efetiva. Ela é uma mãe-mestra nas lições de vida.

O casal tem uma habilidade significativa em se relacionar bem com todos, e a capacidade de reunir tanta gente na comunidade. Eles são, além de anfitriões, estrelas de primeira grandeza. Seu Miguel Ramos tem um dizer interesse, coisa da sua experiência de vida: “Quem visita é visitado”. Isso porque, ele associa a grande presença de vaqueiros e populares na comunidade ao fato de ele marcar presença em todas as missas de vaqueiros pelas redondezas, pela região. Os filhos foram, todos, envolvidos nas tradições da comunidade; na missão familiar. Os netos da mesma forma.

Seu Miguel Ramos fala que é um compromisso selado há décadas, sem esmorecer-se jamais, diante de uma infindável luta pela preservação do legado da comunidade. Homem de hábitos simples, muito apegado à origem, não delega a ninguém a responsabilidade de representar e defender suas tradições. O seu maior prazer da vida é estar no meio dos vaqueiros. Tem um respeito profundo por eles, ao tempo em que é respeitado e querido por todos eles. Ele é de uma cordialidade singular; nunca se viu inimigo dele. Construtor de amigos; muitos amigos. Ele cativa as pessoas, de forma paternal.

Os hábitos sertanejos têm mudado muito. Tem surgido o vaqueiro moderno, com mudanças preocupantes; até o cavalo está sendo substituído pela moto. Diante de uma globalização avassaladora, em que tenta ignorar – e até dizimar – o regionalismo, se faz necessário a figura de pessoas como Seu Miguel Ramos e eventos que celebrem as tradições sertanejas. É um grande desafio. A globalização, na sua essência, tende a nos aproximar de quem está longe e nos afastar de quem está perto; tende nos aproximar das coisas dos outros e nos afastar de nossas coisas. Uma observação: nossas coisas têm valor, e deve ser sempre prioridade. Devemos, sim, viajar para dentro; em vez de viajar para fora. Antigamente o vaqueiro era ator da economia. Hoje é ator da cultura. Somos todos vaqueiros, de alma ou profissão.

 

 

(Miguel Ramos, Kari Ramos – seu filho, Marcos Damasceno e Oscar Barros,

no programa de TV “NOSSA TERRA, NOSSA GENTE” – 2011)

Crédito: TV Meio Norte

 

Firmar uma proposta de valorização da história e tradição do vaqueiro é missão de pessoas como Seu Miguel Ramos. Ele que viveu tantas e tais experiências, procura legitimar a confiança que lhe foi devotada e cumprir a missão. Junto com isso, homenagear os guerreiros e heróis do Sertão, homenagem que se estende aos familiares. Reconhecimento da luta deles e da contribuição histórica de todos eles para o progresso do País.

Um dos dias mais marcantes e memoráveis de minha vida foi quando o conheci, através de seu filho Kari Ramos, meu grande amigo. Este é um dos poucos embaixadores dos vaqueiros do Brasil; no significado pleno da representação e da ação. Ele é um encanto da linguagem sertaneja. Senti facilmente o seu pulsar forte na defesa de nossas coisas. Pude constatar seu amor telúrico. Percebi a riqueza de conhecimentos que possui. Uma forte bandeira. Seu pensar é muito abrangente. Ele é representativo; isso é incontestável. Uma expressão da inteligência sertaneja, expressão humana do povo sertanejo. Ele é um sol que brilha em Jurema-PI e região, fazendo brilhar junto com ele as coisas do Sertão.

Seu Miguel Ramos tem vocação para o trabalho. Exemplaridade acima de tudo – como pai, marido, avô, bisavô, tio, familiar, cidadão, amigo enfim. Sempre firme e verdadeiro. Sua personalidade eleva um menino do Sertão, hoje expressão regional. Ele luta incansavelmente para honrar com as tradições sertanejas; é questão de honra. Sua vida foi sempre assim, marcada por uma luta permanente. Temos nele um caminho consolidado nessa missão. Encontramos muitas portas abertas, e que foram abertas por ele em sua pioneira caminhada. Devemos aprender com seu exemplo. Representa para todos nós uma bandeira, um exemplo de vida. Um caminho e uma maneira de caminhar. O grande cinturão dessa tradição.

Unamo-nos, pois, os nossos esforços em favor da valorização da maior tradição sertaneja.  Este deve ser o nosso código de honra e o nosso compromisso maior, selados pelos vaqueiros de tradição. Sigamos, então, o exemplo deles; colaborando sempre para o engrandecimento do segmento.

Esta é uma humilde homenagem, mas que representa um sentimento profundo de amizade, respeito, gratidão e reconhecimento. Em Caldeirãozinho, município de Jurema-Piauí, mora um grande vaqueiro; acima de tudo, um grande homem. O nome dele é Miguel Félix Ramos, um vaqueiro de tradição.

 

Marcos Damasceno

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A SOGRA DE EDUARDINHO

26 maio, 2013 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

Um amigo da região de São Raimundo Nonato-PI, contou-me (na verdade desabafou) o seu difícil relacionamento com sua sogra. Uma sogra daquelas… Bem venenosas. O nome dele é Eduardo, mas todos o chamam de “Eduardinho”. Menos a sogra, ela chamava-o de “esse troço”. Quando se casou, ela não queria que sua filha se casasse com ele. Chamava-o de “pé rapado”. Já o sogro adorava o genro.

Depois de um tempo, já casado, o sogro faleceu. O genro já estava bem de vida. Era comerciante na época; hoje está aposentado. Sendo sua esposa, filha única do casal. A maior herança que o sogro deixou para ele foi a sogra. Mas ele não queria nem saber dela morando na sua casa, e jogava um monte de coisa na cara dela; alegava tudo. Inclusive, recordava que ela foi contra o seu casamento. Já ela, sonhava morar no conforto da casa do genro.

De vez em quando, ela inventava até, que estava doente. Ficava uma semana por lá, até o genro desconfiar: “A senhora não quer ir logo embora? Percebo que está melhor”. A sogra ficava calada, para ser sempre vítima. Pensava: “Preciso ser meu próprio disfarce”. Sua esposa revidava: “Deixe de ser implicante. Não está vendo que a mamãe está doente…” Nessa confusão a sogra conseguia passar até meses por lá. Os dois, genro e sogra, só viviam às turras. Ele parafraseava os emboladores Jota,Jotinha eJotão: “Eu quero bem a minha sogra/Bem distante de mim”. Até que ela ia embora. Eduardinho analisava: “Sem aquela velha encrenqueira nessa casa, volta um clima de paz. Oh, Deus! Obrigado”.

Numa dessas passagens por sua casa, sua esposa fez um cartão de crédito para a mãe. Claro, para o genro pagar as faturas. Ele quase morre de raiva. A sogra comprava muito. E não é que ela foi assaltada… Levaram o cartão dela. Compraram tanto, tanta coisa… Eduardinho, tenso, a esperar a fatura. A expectativa (invertida) de um rombo era enorme… De uma despesa alta… No entanto, quando veio a fatura,logo viu que os assaltantes gastaram menos do que a sogra. O genro expulsou-a de casa, e quebrou o cartão.

Depois de uns dias, houve uma discussão entre ele e sua esposa. Normal de relacionamento. A filha resolve ligar para a mãe. A sogra adorou, e começou a fazer a cabeça dela: “Minha filha, esse seu marido não presta. Veja o que ele fez comigo…” Daí ela resolve ir embora para a casa da mãe. E diz: “Vou para aí, mamãe. Quero castigar meu marido”. A sogra, doida pra voltar para a vida boa da casa do genro, revidou logo: “Nem pensar! Se é para castigá-lo, eu é que vou para aí…” E foi. A sogra se enfiou na casa dele. Toda decisão ou confusão ela entrava no meio. Para aumentar, claro. Em casamento que sogra intromete, quando um não quer três não brigam. O genro não a tolerava mais.

Pior do que isso eram as omissões de conflitos, ou seja, sua esposa estava omitindo coisas para evitar conflitos entre sua mãe e seu marido. São frustrações da vida. É bom lembrar-se que todos nós passamos por isso. Aí está o salário mínimo que não me deixa mentir; não dá pra nada, nem pra passar dificuldade com dignidade.

O homem desmantelou-se. Passou a beber. De início, bebia socialmente. Depois se depravou. Com convicção, e sua filosofia de vida, dizia:

- O que leva um homem a não beber? Vi o que aconteceria comigo se eu continuasse não bebendo daquele jeito… Eu ia acabar matando aquela velha desgraçada. Aproveito mais a vida quando sou infeliz. Porque minha felicidade passa por aquela velha [a sogra]. Já a infelicidade não, é sem ela. De maneira, que prefiro ser infeliz sem ela a ser feliz com ela. Êta velha do satanás! Acabou com minha vida.

Nos primeiros dias Eduardinho tomava apenas cerveja. Depois passou a ser todo tipo de bebida. Até cachaça, das mais fortes. Logo no primeiro gole se sentiu outra pessoa. A primeira dose explodiu como as famosas tocadas de Beethoven: “Tchan-tchan-tchaaaaaannnnn…” Seguido de aplausos dos demais bêbados. Ele era quem bancava as cachaças deles. Inclusive, esse bar abre primeiro do que a padaria mais próxima. Até hoje existe. O genro pensou: “Devo evitar os excessos. Não demais. Está sendo maravilhoso viver sem aquela velha nojenta”.

Ele passava mais era fora de casa. Dormia na casa de amigos, da mãe, em hotel. Tudo pra ficar distante da sogra. Até que brigou com sua esposa e saiu de casa. “Pifanim” (Epifânio) disse-lhe: “Volte pra casa, Eduardinho…” Ele: “Aqui, ó! Nem pensar”. O amigo prosseguiu: “Você não está se alimentando bem”. Ele novamente: “Quando eu era criança e morava lá no Barreiro das Porcas ninguém lamentava por quaisquer doisdias de fome. Hoje é uma lamúria”.Disparou no choro. O amigo consolou-o: “Chore à vontade! É bom, a raiva passa”. Logo questionou: “Escuta, Eduardinho, você a aceitaria de volta?” Ele: “Aceito. Ela e, se for preciso, o diabo daquela velha [sogra]”.

A sogra pensava sempre: “Ô se ele morresse logo, eu passaria a viver tão bem [no conforto] com minha filha”. O casal não tinha filhos. Já o genro imaginava: “Deus, perdoai! Sou apenas um pobre sofredor, um genro sofrido. Necessitando se livrar da sogra. Tenho que matá-la, não tenho outra saída”. Ele se tornou num bem-intencionado mau caráter. Muitos não comem em casa para manter a forma física, já ele era para manter a paz.

Resolveu, então, criar problemas para sua insofrida sogra. Como sabe você, ela era “vítima” de notáveis índices de conforto e de boa vida. Pensou, ironizando: “Alguma coisa vai acontecer com ela. E logo. Alguma coisa precisa acontecer!” Contratou alguns amigos para um plano. De preferência, um sumiço – pra sempre – da sogra. Por coincidência, ela foi sequestrada. A filha entrou em desespero. Já ele adorou a notícia: “Tomara que não volte”.

No segundo dia, depois do acontecimento, o genro recebe uma ligação telefônica. Eram os sequestradores querendo negociar o resgate. Sua esposa deitada, a efeito de calmantes. Ele indaga: “Quem fala, por favor?” Do outro lado a voz: “Quero negociar a soltura de sua sogra. Por menos de R$ 10.000,00 (dez mil reais) não solto ela, de maneira alguma”.Os assaltantes sabiam que ele era rico, podia pagar uma quantia boa. De início, o genro comunicou-lhes que ela não valia muito para ele. Aliás, não valia meio litro de esgoto; ditado popular.

Depois veio a grande ideia. Olhou para um lado, e para o outro, só ele na sala. Entrou em ação: “Que dez mil que nada… Eu dou logo é quarenta mil (R$ 40.000,00) para vocês desterrarem com ela pra bem longe. Sumam com esse traste pra lá!” Assim ocorreu. O dinheiro foi levado até o local marcado, por um portador. Enquanto sua esposa chorava diuturnamente por causa do sumiço da mãe, ele ficou mais alegre. Chegava a assobiar, de alegria. Livre da sogra para sempre. Parou até de beber.

Deu tudo errado. A sogra voltou. Nem os bandidos a aguentaram. Também ninguém sabe como ela conseguiu escapar. De repente, chega à casa do genro. Sem avisar. Ele se assustou com o que viu: “Valei-me Nossa Senhora!” Pensava ser assombração. Era ela, vivinha da silva. Com um sorriso largo disse, para fraseando Roberto Carlos: “Eu voltei/Voltei para ficar/Porque aqui/Aqui é meu lugar”. Na casa do genro. Ele imaginou: “Moço de Deus, quando é que eu vou me livrar dessa velha?!”Tudo voltou: a sogra, a infelicidade, as confusões, as cachaçadas enfim.

Até que num belo dia ele recebeu o grande comunicado, da boca de “Pifanim” (Epifânio): “Sua sogra morreu”.Ele não acreditou: “Não é possível… Agradeço pela notícia, mas desconfio dela [notícia]”. O amigo bravejou: “Está me estranhando, Eduardinho?!” Os dois se abraçaram de alegria, e gritavam pulando: “Ela morreu, ela morreu, ela morreu…”

Quando chegou àsua casa, estava ela lá estirada no chão. Alguns chegaram a dizer: “Vamos levá-la para o hospital. Pode ainda ter jeito”.Ele revidou: “Nem pensar! Ela não tem mais jeito”. Virou para o lado e pensou: “Dessa vez ela tem que ir [morrer]”.Logo chegou a filha, pense numa tristeza… O velório foi providenciado.Missa de corpo presente. O genro ali, a olhar para a sogra. Pensando: “Tu vai se ter no inferno, satanás. Pagar pelas raivas que me fez. Tomara que ache uns iguais a tu, lá”.

Logo se lembrou de um detalhe: o sepulto. Decidiu (sozinho) que ninguém iria para o cemitério. O sepulto seria simples, apenas com a presença dos coveiros. A esposa concordou, mas sem saber o motivo da decisão do marido. Encerrado o velório, a funerária veio buscar o corpo para levar para o cemitério. Para os demais, uma despedida dolorosa. Para ele, uma despedida gratificante, com tempero de alívio. O homem mudou; da água para o vinho.

Assim orou: “Senhor, receba a minha sogra com a mesma alegria que estou enviando-a. Ai, que alívio… Senhor!”Deu a ordem para os coveiros, escondido de todos os presentes:

- Peguem este dinheiro. Vocês vão sepultá-la emborcada, com a tampa do caixão pra baixo. Pode ser que ela ainda esteja viva, e queira cavar pra sair. Aí vai é afundar mais…

Era tanto dinheiro que os coveiros assustaram-se: “A missão é só essa? Moleza”.Depois de alguns dias o genro foi até o cemitério. Lá estavam os coveiros. Deu tudo certo. A sogra havia morrido mesmo. Ele foi apenas conferir.

Depois de confirmada sua morte, resolveu fazer um bonito túmulo. Não fez epitáfio. No túmulo colocou foi uma placa, com os seguintes dizeres: “Aqui descansa minha sogra. Descansa ela, e descanso eu”.Pensou consigo mesmo: “A saudade é enorme, mas o alívio é incomparável…”

 

Marcos Damasceno

(escritor)

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PROFISSÃO DELICADA

26 maio, 2013 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

Certa época surgiu em São Raimundo Nonato-PI mais um médico formado, filho da terra. Colocado por seu pai para estudar na capital (Teresina-PI). O pensamento daquele líder político era ter um filho formado em medicina, para ter mais projeção eleitoral. E assim ocorreu… Depois que concluiu o curso, o filho retornou à cidade natal. Passou a ser o médico do povo, e o “escravo” do grupo político do seu pai. O pai ganhou [eleitoralmente] com o trabalho do seu filho. E o filho quase morre.

Começou atuando na profissão com muita empolgação. Aquela vontade em ser útil socialmente… Era clínico geral, médico de todos e pra tudo. Isso aumentou sua responsabilidade; também sua procura. Sossego que era bom, nada. Sua vida cotidiana na profissão passava dos limites, visto que tinha pouco descanso. Sendo seu pai um político, seu trabalho era quase voluntário; já que o povo não dispensava esse fato, e aproveitava mesmo. Explorava-o até umas horas… O pai que não era besta, tentando sempre empolgá-lo para a política, prometendo-lhe que seria seu herdeiro político. Mas na verdade apenas queria segurá-lo [“escravizá-lo”] na comunidade, para angariar votos. O filho não tinha pretensões políticas.

No entanto, como tudo na vida cansa a gente, nos desestimula, o jovem médico passou a refletir se tal situação compensava [profissionalmente] para ele. Ninguém queria pagar a consulta, o pai era político. O filho já vivia seus dias de frustração, desestímulo. Também não era pra menos, só vinha confusão para seu lado. Mas seria difícil deixar esse caminho, desviar desse rumo, por causa de seu pai. Não encontrava jeito para comunicar-lhe sua decisão de ir embora pra capital, onde estudou. Sua cidade natal ficaria somente para passeios em épocas estratégicas. Queria mesmo era fugir daquela vida.

No interior, como sabemos [sou do interior], existem muitas doenças psicológicas, isto é, as pessoas botam na cabeça que as têm, e pegam-nas. Já foi publicado um livro nesse sentido [“Cure-se: você é seu próprio remédio”]. Tem ainda aqueles que procuram o médico, mas já fazem sua própria diagnose e dão o diagnóstico. O médico passa a ser “imbecilizado”. Outros praticam a automedicação. Tudo isso é irresponsabilidade por parte dessas pessoas.

O fato, é que o jovem médico via-se na desilusão de uma atuação medíocre, em que não iria fazer reciclagem, aperfeiçoamentos, participar de seminários, etc. Era só passando remédio para verme, disenteria (caganeira), “dor nisso”, “dor naquilo”… Fazia parto, e era só aparecendo mulheres grávidas; uma coisa desenfreada. Ainda enfrentava cada crendice: uns acreditavam em milagre, outros em macumba, alguns em remédios caseiros… Era uma confusão sem igual. O empirismo e os conceitos populares se alastravam no seu consultório: “Leite (nódoa) de pião roxo é bom para ferimentos.” Ou essa: “Mijo (urina) de vaca é bom pra matar verme. Agora tem tomar na hora que aparar (coletar).” E até essa: “Chá de bosta de cachorro cura sarampo.” Logo em seguida surge a certeza: “É tiro e queda. Pode tomar. É um santo remédio! É mesmo que Deus tirar com a mão [a doença]”.

O interessante é que quem passa, não toma. Alguns curandeiros rezam nas outras pessoas, mas quando adoecem procuram o médico. Ainda bem; são espertos. Muitos dos remédios caseiros (assim chamados) têm realmente um fundo de verdade, é a sabedoria indígena. Já outros são apenas ilusões, são simpatias que fazem parte do conhecimento popular. E estão bem enraizadas. Ainda hoje é assim. Imagine naquela época… Exercer a profissão de médico tornava-se delicado, na ocasião, diante de uma cultura e de uma educação da desinformação. E mais ainda: da má informação popular.

De vez em quando ainda enfrentava a teimosia de alguns. Certa ocasião “emendou” um braço “quebrado” (fraturado) de um homem que havia brigado com o vizinho. E disse-lhe ao terminar de “emendar”, e medicar: “Fique uns dias sem fazer esforço. Qualquer esforço feito interromperá o processo”. Ao chegar a casa, a primeira providência foi ir atrás do vizinho para brigar de novo; o braço ainda engessado. Lá deu um soco nele [com o braço engessado], um peso danado, derrubou-o. O braço “quebrou” de novo. Na verdade não havia nem “emendado” ainda.

Meu Deus! De repente, o médico recebe o paciente novamente. O hálito etílico [bafo de cachaça] se sentia de longe. O nome dele é Pedro N. C. G, mas para os íntimos apenas Pedroca. Pense numa raiva daquele profissional, que já estava com a paciência esgotada. A ética profissional fez controlar-se, e exercer a profissão naquele momento. Com responsabilidade social. Fez os procedimentos clínicos necessários.

Logo que se livrou desse paciente trouxeram um rapaz que estava agitado, a baba escorria pela boca. E diziam os acompanhantes: “Doutor, ele ficou assim depois que um cachorro o mordeu!” O médico percebeu que se tratava de uma pessoa que estava doida. Doido varrido. Providenciou uma injeção “sossega-leão”. Porém, no dia seguinte, ao passar o efeito da injeção, o doido se encarregou de destruir seu consultório todinho. Os equipamentos novos, tudo novo.

Foi, então, nesse momento que aquele já desiludido médico disse ao seu pai: “Papai, eu pretendo ir embora, quero trabalhar numa cidade grande. Aqui não dá certo. Não aguento mais essa vida!” O pai preocupado, e tendo consciência da situação em que seu filho enfrentava, compreendeu: “É verdade meu filho. Você está certo. Vamos conversar sobre isso depois. Dê-me uns dias para pensar numa saída”. O velho, que não era besta, precisava muito do seu filho e jamais o deixaria ir embora. E encontrou um caminho: “Meu filho, vamos fazer o seguinte: você terá seu consultório montado, do bom e do melhor, todo mês viajará, receberá pelo seu serviço [o trabalho dele, até então, era “escravo”], e seu consultório será ainda ampliado; fará exames”. Proposta boa, o filho aceitou. Promessa cumprida.

O jovem médico, com aquele consultório moderno, uma rotina de vida diferente, voltou a se animar. Fazia alguns exames, possíveis para a época; notadamente exames mais simples, como de fezes e de sangue. Mas é preciso se dizer, apenas coletava; as análises eram feitas em outros lugares, nas capitais. Num belo dia recebeu uma moça, a primeira paciente do novo consultório, que queria se consultar com ele. Passou a examiná-la. Resolveu requisitar um exame de fezes, com o intuito maior de inaugurar o consultório e o setor de exames. Disse-lhe: “Preciso fazer um exame de fezes com a senhora”. Logo vendo que aquela moça não havia compreendido nada, falou mais claramente: “Quero ver sua bosta”. E continuou: “Passe na farmácia [já existia], compre um coletor e defeque amanhã cedo. E traga-o”. Foi necessário esclarecer de novo: “A senhora pegue uma latinha, e cague nela. Pode arrochar!” E alertou o médico: “Mas não se esqueça de botar o nome [o nome dela]!”

Ao chegar à pensão em que estava hospedada, aquela desinformada moça pegou uma lata de margarina vazia [daquelas antigas, de 1 kg], e deu uma cagada federal. Não esperou nem o dia seguinte. Foi tanta bosta que quase não conseguiu tampar a lata. Até que deu uma encalcada e tampou-a. Terminado, botou o nome: “bosta”.

Ao receber a amostra de fezes, o médico se assustou: “O que é isso?” E ela: “É a bosta que o senhor me pediu”. O médico se irritou: “Mas desse jeito?!” A lata ainda estava suja. E ela, talvez pela inocência, ainda perguntou-lhe: “Este tanto aqui dá? Aqui tem 1 kg de bosta”. O médico pensou consigo: “Desisto!” Isso tudo demonstra o quanto é difícil atuar na medicina. Uma profissão delicada.

 

Marcos Damasceno

(escritor)

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JUVENTUDE E DROGAS: A CULPA NOSSA DE TODOS OS DIAS

26 maio, 2013 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

A juventude – na sua grande maioria – está sem rumo, sem valores, sem objetivos maiores, sem futuro. Mas a droga não é a grande vilã. A raiz do problema está na formação humana do indivíduo. A droga ganha importância na vida de pessoas rejeitadas, sem orientação humana; pessoas não amadas, excluídas, com fugas e depressão; pessoas com crises existenciais e com vazios espirituais. A crise de valores é que leva a essa crise social. O problema não é fácil! No entanto, não é invencível. As condições que geram a consciência de que existe o problema e a noção de que ele é preocupante, são as mesmas que dão o norte das soluções.

A responsabilidade dos pais. Não existe um pai ou uma mãe, em sã consciência, que não se preocupe com seus filhos em relação ao consumo de drogas; especialmente na fase da adolescência. Os pais devem, sempre que necessário, discordar das atitudes dos filhos e procurar corrigir seus atos e comportamentos. Pôr limite. Eles são – e sempre foram – os pedagogos de primeira ordem dos seus filhos… Falta ordem neste país! E a ordem social só ocorrerá depois da ordem familiar.

A família é a verdadeira rédea da sociedade, e não o governo. Quem tem, portanto, o poder de frear – notadamente – a violência é a própria família brasileira. O Brasil não precisa de opinião. Chega de opinião! Precisamos, já, de ação. Ação conjunta; pais, sociedade e governo de mãos dadas. E o que é verbalizado precisa, urgentemente, de sentido prático.

A responsabilidade da sociedade. Três características da sociedade são terríveis: a omissão, o egoísmo e o consumismo. Muitas vezes temos o medo, ou até a indiferença, de não abraçarmos ao próximo que está com problema. Achamos, equivocadamente, e desumanamente, que o abraçando iremos abraçar também o seu problema. Você me diria: “Não queremos ônus, somente bônus”. Aí está a visão equivocada. Sempre jogamos o ônus para os outros, ou para o governo. Não é preciso querer ser herói; querer consertar o mundo ou salvar a pátria. Longe disso! Queira, e isso já é muito, fazer sua parte. Plante sua semente; dê sua contribuição. Edward Everett Hale, clérigo e escritor norte-americano, assinala: “… Não posso fazer tudo, mas posso fazer alguma coisa. E por não poder fazer tudo, não me recusarei a fazer o pouco que posso”. Ficar omisso é o mesmo que ficar do lado do crime ou do criminoso, vendedor de drogas.

Vivemos, no mundo de hoje, desconfiados. A desconfiança, o medo e a insegurança nos acompanham. Eu, por exemplo, adotei uma medida severa: não saio de casa depois da meia noite;só se for por uma emergência. Impus, a mim mesmo, esse toque de recolher. Vi nas estatísticas que é a partir desse horário que mais incide a cultura da morte: bêbados dirigindo automóveis e pilotando motos, drogados perturbando as cidades, bandidos assaltando a tudo e a todos, etc.

A responsabilidade do governo.Temos que parar com esse costume de dizer que tudo é culpa do governo; parar de questionar somente políticas públicas. Isso é apequenar o debate e se omitir da sua parcela de culpa e de responsabilidade. Como cidadãos, ativos socialmente, somos parte do governo; integrantes do Poder Público. O poder do governo é o nosso poder. Graves são estas três situações sociais, quando elas existem: a posse ou a riqueza sem partilha, o poder com omissão e a vida sem solidariedade.

O Poder Público não é lugar, somente, para reclamações ou demandas. Numa relação pedagógica (a expressão certa é esta!) podemos contribuir, e muito, com o governo. Servir à coletividade. Temos que pregar e praticar. A ética do amor e proteção da vida está falida. O exercício da vida é de responsabilidade de cada um de nós.

O governo procura fazer sua parte, embora a legislação precisa de mudança; mas isso é papel do Congresso Nacional. O Poder Público não consegue, e não conseguirá jamais, ser eficiente numa ação pública sem a ajuda da sociedade. Se o governo não contar com o apoio da sociedade, suas ações serão sempre como “enxugar gelo”. As pessoas precisam, portanto, se relacionar ativamente melhor com o Poder Público e buscar ajudá-lo. Se observarmos as especificidades do problema, a sociedade está equivocada quando julga ser o governo o único responsável pela solução do problema. Nós temos parcela de culpa na existência do problema, assim como temos parcela de responsabilidade na solução do mesmo.

Jesus Cristo, inspirador e exemplar, fonte de toda glória e de vida, nos legou lições. Tudo que é suficiente para atender às necessidades humanas essenciais está garantido no mundo. Mas muitos seres humanos, egoístas e possuídos pela cobiça desenfreada, não se contentam com o essencial. Aí surge a turbulência – raiz da violência… O mundo não tem condições de atender a todas as cobiças humanas… Terá sempre alguém querendo tomar – à força – algo que é do próximo.

Nessa fase da adolescência, muitos jovens são tomados pelo espírito da rebeldia e procuram a todo tempo – e a todo custo – causar desobediência aos pais e desobediência civil. Não querem respeitar nenhuma regra. Nessa aventura, sem orientação, é que muitos se perdem; entram num caminho sem volta. Isso começa desde cedo. A permissividade, a desestruturação familiar, as facilidades mundanas, as más companhias e a banalização do sagrado fazem com que tais jovens percam seu norte. Há momentos que os jovens têm todas as dúvidas, em outros todas as certezas. O fato, é que eles precisam de valores e de limites. A cultura da morte surge como consequência desses dois pilares educacionais e socializantes.

Vivemos dois extremos: a ditadura e o excesso de democracia. Proibições nem sempre são censuras; tratam-se, às vezes, de um controle de qualidade ou de uma moralização. “Quem não for na direção da paz, caminha mais do que precisa andar” – Juraíldes da Cruz. Etiquetas… Assim assinala Frei Osmar Negreiros:

 

- Ninguém tem a receita pronta para formar um cidadão de bem, mas existem algumas atitudes e comportamentos que apontam para uma formação incorreta: deixar os filhos saírem sem dizer para onde, e com quem estão acompanhados; não estabelecer horário para voltar, não exigir cumprimento estrito do horário estabelecido; achar graça sobre atitudes deselegantes ou desrespeitosas nas relações interpessoais, dentre outras. Criar filho sem essas regras vai torná-lo um ser humano sem caráter e sem cidadania.

 

Eu acredito em terapia ocupacional; eu acredito em missões; eu acredito em perspectivas de vida. Vejo o esporte, a música, ações comunitárias, atividades nas igrejas, a cultura e o lazer – dentre outras medidas – como grandes agentes de estruturação sólida do ser humano e de transformação social. Além do entretenimento elas preenchem um vazio de fé e de esperança nesses seres educandos. São instrumentos de cidadania, além de ferramentas tanto defensivas quanto ofensivas nas lutas espirituais que sofremos, entre o caminho do mal e o caminho do bem. Elas salvam, sempre, as pessoas do caminho do mal; e são portas para o caminho do bem.

Na vida surgem algumas demandas. A principal: jamais tire Deus de sua vida. A segurança interior vem Dele. Nosso juízo – crítico – pode gerar problemas inexistentes ou piorar os existentes. Equilíbrio emocional é indispensável. Necessitamos de Deus. Sua palavra afasta a angústia existencial e o vazio de espírito. Só a relação com Ele resolve.

Nada é impossível àquele que tem fé. Saber é ser, querer é poder, compreender é viver. Quando o ser humano quer ele é capaz de se transformar, e transformar o mundo.

 

Marcos Damasceno

(escritor)

*Doutor em Filosofia Política

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AMBULÂNCIA DO POVÃO

15 fevereiro, 2013 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

Uma história do automobilismo na região. A chegada de uma ambulância – projetada e apropriada – para o transporte de doentes de certo município de nossa região. Não sei se foi a primeira da região, sei mesmo é que causou um alvoroço danado na cidade; teve impacto social muito grande.

A novidade abalou a pacata cidade. Ao ser anunciada a sua compra por parte do gestor municipal, o povo festejou de alegria. O transporte de doentes, até então, era precário e com condições desumanas. E olhe que a ambulância adquirida nem era tão boa, nem era lá essas coisas; existiam alguns problemas: pequena, apertada, o teto baixo e sem ar condicionado. Mas tinha um aparelho toca-fita na cabine; rolava só Amado Batista.

Na chegada da ambulância à cidade ocorreu uma grande festa. Grande multidão. As pessoas quando moram num lugar isolado alegram-se com qualquer adjunta (reunião de gente). Até mesmo com um enterro (sepulto de uma pessoa). O fato, é que a ambulância, assim como tudo nessa vida, tinha seus elogiadores e seus críticos. Muitos a viam como um avanço significativo no socorro às pessoas doentes; já outros como um retrocesso, um transporte ruim, pior do que o pau de arara. Dona Maroca sentenciava:“Eu mesmo não, que não viajo nessa porqueira (a ambulância). Prefiro a C-10 do Joãozinho. Todo mundo que viaja nela falta é morrer de vomitar”.Essa adorava uma picuinha. Já Seu Zezinho da Lagoa das Emas, bajulador do prefeito, fazia propaganda do novo transporte: “Ave Maria, um carro deste é bom demais! Uma maravilha. Só gente besta que fala mal. Tem gente pra tudo nessa vida”.

Só pelo simples fato de ser na sombra o transporte de doentes, o povo já comemorou. Antes a ambulância era um pau de arara, na maioria das vezes uma C-10 (da Chevrolet) ou uma F-75 (da Willys); sendo que o primeiro transporte utilizado pra tudo foi o Jeep (da Willys). O fato, é que só em ser adesivada com o nome “Ambulância” já era o suficiente para caracterizar um transporte apropriado para os doentes.

A novidade foi pra boca do povo. Pau de arara nem pensar. Era a pedida da moda no posto de saúde, não havia hospital na cidade. Viagens e mais viagens. Não parava de rodar. “Tanto que quando voltava de uma viagem, a poeira da ida não havia baixado ainda”, contou-me seu Dudu; na época, o Secretário de Saúde. A bem da verdade, o povo foi sempre socorrido pela nova ambulância. Um motorista exclusivo para a função, de nome Constantino. Um sujeito baixinho. Gente boa. Mas muito agitado. Além de fofoqueiro, pois era o informante do prefeito (fuxiqueiro todo). Tanto que inventaram uma estória com ele.

Fala-se que certa ocasião, em 1979, estava levando uma pessoa doente para Teresina (Piauí), e ao chegar a Canto do Buriti (Piauí) avistou uma multidão. Havia acontecido um acidente à beira da rodovia. Ele, muito curioso (normalmente fofoqueiro é curioso demais), queria ver rapidamente, pois teria que continuar sua urgente viagem. Mas não conseguia, pois era baixinho e as pessoas não abriam espaço pra ele ir até o local (no meio da multidão). Foi quando teve uma brilhante ideia, e gritou: “Saiam da frente, que chegou o irmão do morto. Preciso vê-lo!” Nisso todos abriram passagem para ele aproximar-se do morto. Deparou-se com um jumento que havia sido atropelado por um caminhão (carreta). Curiosidade demais atrapalha.

Tinha o pé pesado ao dirigir. Corria demais. Cá pra nós, matou muito animal nas estradas, com suas carreiras. E não faltava carne na sua casa. Nunca matou um jumento, era só bode ou ovelha; menino esperto. As pessoas reclamavam muito, diziam que ficavam tontas na viagem. Na verdade, ninguém viajava mais do que um1 kmnela, na parte de trás, sem vomitar. Pelo fato de não ter ar condicionado não podia fechar os vidros; e abertos, entrava uma poeira danada.

Um fato inusitado. Numa viagem para Remanso (Bahia), o paciente (o doente) não dispunha de acompanhante. Mas pela gentileza e solidariedade do povo do interior, seu vizinho Pedrinho do Jó se prontificou a ir. Justificou que além de servir ao amigo, queria conhecer a cidade baiana. Nunca havia ido a lugar nenhum; só conhecia o seu município. Forama viagem. O motorista botou uma fita do Amado Batista e largou o pé na estrada. Logo nos primeiros quilômetros o acompanhante do paciente dava com a mão para parar. O motorista não via, não olhava no retrovisor. O carro dava cada pinote. Quase os dois morrem de vomitar na estrada. A ambulância era branca, mas chegou marrom (dos vômitos) a Remanso (Bahia).

Chegado lá, socorro imediato. A enfermeira perguntou para o motorista: “Quem é o doente?” Pedrinho do Jó (o acompanhante), se antecipou e disse: “Quando saímos de lá era só ele (apontou para o doente). Mas agora é ele e eu. Quero que a senhora interne nós dois.” Assim aconteceu, os dois foram internados. E a princípio, Pedrinho do Jó estava bem. Mas pelas condições da viagem ficou pior de saúde do que seu amigo. Voltou muito depois. Ambulância na volta? Nem pensar. Mandou um recado para seu filho ir com um burro buscar-lhe. E turrava: “Deus me livre de andar naquele troço! Quero é distância. Aquilo é transporte de gente!”

Outro fato, a morte de Zezão em São Raimundo Nonato (Piauí). Um sujeito grande e nojento. Era intrigado do povo quase todo do município, inclusive do Constantino, o motorista da ambulância. Foi pra lá se consultar, mas no carro da feira. E teve que ficar internado. Dias depois acabara falecendo. A ambulância estava lá, e o motorista foi comunicado (recebeu a ordem) que teria de trazer o defunto. Constantino, que andava só, xingou muito ao saber da missão. O defunto também estava só. “Tão ruim que nem acompanhante tem”, disse o motorista. Somente os dois viriam. Procurou uma pessoa para trazer como companhia (contra alma), rodou a cidade toda (pra cima e pra baixo) e não encontrou. E dizia chateado: “Isso só pode ser castigo”.Logo escureceu.

Foi pegar o defunto no hospital, que já estava todo arrumadinho (no caixão e com roupa nova). Colocou o caixão na ambulância, que não o comportou. Ficou sem poder fechar a porta; oZezão era um homem grande e a ambulância, curtinha. Teve que amarrar o caixão, com a porta praticamente aberta. Fechou os vidros da cabine, travou as portas, botou a fita do Amado Batista, e partiu rumo a sua cidade. Carreira medonha, com medo da alma do defunto (seu intrigado). Pense num medo, num arrocho… Situação complicada para Constantino.

Olha só o que aconteceu: o caixão caiu na estrada. O motorista não ouviu, mas sentiu o impacto do peso de sua queda, e parou na frente. Pegou a lanterna pra olhar, mas cadê a coragem? Até que se atreveu a conferir. Não é que o defunto havia caído… Num lugar muito isolado, longe de casas. Constantino disse desesperadamente: “Não é possível um negócio desse acontecer. E agora? Como vou pegar este caixão?” Matutou por alguns minutos o que faria. Pensou em tudo, depois em nada. Até que partiu de pé na estrada, de volta, com a lanterna, para ver se encontrava o caixão. Estava lá o caixão aberto e Zezão estirado no chão, todo arrumadinho. Na queda, o caixão abriu-se e o defunto caiu fora.

O motorista ficou num dilema. “E agora? Nem tenho coragem de pegar este cretino, e nem posso chegar lá sem ele”. Seus familiares estavam aguardando na cidade a sua chegada. Pense num arrocho… Chamou por todos os Santos que pôde lembrar. Ficou ali, imaginando a vida e o episódio. Até que deu um grito enorme (de raiva, impaciência e revolta), igual ao do Tarzan, chega tremeu o pé da serra (próxima ao local). Saiu na carreira, rumo ao defunto, e num tempo recorde, numa rapidez inacreditável, açoitou o defunto no caixão e fechou. “Não deu tempo nem de ver o rosto do desgraçado”, disse mais tarde a um amigo. O medo maior dele seria ver o Zezão. Deu uma respirada, aliviado, e gritou: “Esse dia foi de lascar!” Abraçou o caixão, colocou-o de volta no carro, e seguiu viagem.

Por muito tempo somente ele sabia dessa história. Certa época contou o acontecimento a um amigo, que espalhou para um monte de gente, inclusive para Gilberto Dias, que me contou. Hoje é assunto de uma de minhas crônicas. O fato, é que o povo ficou bom, e Dudu (o Secretário de Saúde) foi quem adoeceu. De tanta demanda e responsabilidade.

A aposentadoria da “ambulância do povão” ocorreu com a chegada das ambulâncias do SAMU. Hoje temos um grande desafio na saúde do nosso Piauí: a sua regionalização. Implica isso em organização e administração regional. Uma estrutura regional, em São Raimundo Nonato, para servir de suporte aos municípios traria mais conforto para as pessoas. Diminuiria distâncias e o sofrimento de nossa gente. Saúde mais eficiente e mais próxima. Muito já foi feito nesse sentido.

Por fim, dizer que esta crônica é também um tributo ao Constantino (já falecido), pelo seu trabalho essencial à sociedade e muito presente na memória coletiva, como o motorista da ambulância. Foi meu amigo, o conheci anos depois, através de Gilberto Dias. Não era mais motorista da ambulância, e sim de um caminhão. Guardo sua lembrança na minha mente. Das nossas conversas.

Marcos Damasceno

(escritor)

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Coronel José Dias, sertanejo obstinado

4 janeiro, 2013 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

Há exatos 134 anos nascia Cel. José Dias. Sua vinda ao mundo (ou melhor: à nossa terra) causaria impacto na convivência social e nas questões sociais.Afilhado do meu tetravô materno major Alexandrino, fazendeiro que tinha a patente da Guarda Nacional. Gosto de escrever pela via da pessoalidade; passa vínculo e envolvimento. Ficamos íntimos da história a ser contada.E dessa forma, fazer um tributo à sociedade. Através destas linhas rabiscadas, venho relatar sobre uma das mais importantes personalidades de nossa região: José Dias de Souza.

 

Sou testemunha do orgulho que nossa gente tem por sua memória. De fato, ele foi um homem do povo. Sertanejo obstinado. Autêntico sertanejo. Sempre viveu no sertão. Filho de agricultores humildes. Seu primeiro trabalho foi na roça, como lavrador. Sua infância foi difícil – de difícil sobrevivência. Nesse ambiente de grandes sofrimentos, passou os primeiros anos de sua vida. Isso certamente marcou sua personalidade profundamente. Cresceu observando a labuta diária do povo de nossa terra.

Pela sua notável inteligência e perseverança tornou-se prefeito (intendente) de São Raimundo Nonato-PI e, mais tarde, deputado estadual.Dessa forma, cometia uma heresia aos olhos das elites da época. Um homem corajoso e justo. De retidão moral. Suas palavras eram diretas. De acordo com o livro “São Raimundo Nonato, de Distrito-Freguesia a Vila”, de autoria de William Palha Dias:

- José Dias de Souza nasceu no dia 24 de abril de 1878 e faleceu a 07 de setembro de 1962. Era filho de Mariano Dias de Souza e de Ana Maria da Silveira.

Muitos causam confusão. Confundem Cel. José Dias de Souza com o Capitão-do-matoJosé Dias Soares. Provavelmente o primeiro seja descendente do segundo, mas não é a mesma pessoa. São de épocas diferentes. A saber:

- Segundo o escritor William Palha Dias, no seu livro “Caracol na História do Piauí” o comandante José Dias Soares é seu tetravô. Ele era da fazenda Endoema, berço dos Dias, hoje município de Remanso-BA (cidade nova). Em 1785 teve um namoro (proibido pela sua família) com uma jovem do povo. Por sinal, uma moça muito bonita. Os pais do jovem, fidalgos orgulhosos e soberbos, usaram da prepotência para separá-los. Enviaram-no para Oeiras-PI, antiga capital, para a casa do Visconde Manoel de Sousa Martins. Era então brigadeiro.

- Mais tarde, precisando o governo da Capitania estender conquistas ao extremo Sul do Piauí, José Dias Soares, que recebera a patente de capitão-do-mato, foi escolhido para liderar a Bandeira do médio e alto rio Piauí. Era habitado pelos índios Pimenteiras, pertencentes à tribo dos valentes Tapuias. Por volta de julho de 1807. Foram três bandeiras, sendo que a Grande Bandeira ocorreu em 1808, conquistando a lagoa de Bonsucesso. Depois chamada de Formiga e, mais tarde, do Caracol.

- Em 1912, Aureliano Augusto Dias consegue elevar Caracol a município. Sendo ele bisneto do comandante. Era filho de João Dias, neto de Domingos Dias Soares. Aureliano Dias era ainda avô do escritor William Palha Dias.

Voltando à história do coronel. Em 20 de janeiro de 1910, por decreto do hoje extinto “Ministério da Justiça e Negócios Interiores”, José Dias de Souza é nomeado Tenente-Coronel da Guarda Nacional à frente do 153º Batalhão de Infantaria da Comarca de São Raimundo Nonato (Piauí). Ainda Vila. Dotado de grande erudição e capacidade de realização, fez história na nossa terra como autodidata. De vastos conhecimentos. Foi ainda advogado rábula e promotor público.

Em 1928 disputou a prefeitura de São Raimundo Nonato-PI com o jovem Bitoso Silva. Bitoso ganha a eleição. Em 1930 veio o golpe da revolução, patronado por Getúlio Vargas. Cel. José Dias torna-se prefeito provisório no mesmo ano. Sua passagem pela prefeitura foi provisória, pois sua gestão estava atrelada ao governo de Humberto de Arêa Leão, governador do Piauí.

(Cel. José Dias reúne sua família em visita de Dom Inocêncio) Fonte: Castro Júnior

(Cel. José Dias reúne sua família em visita de Dom Inocêncio) Fonte: Castro Júnior

Casou-se duas vezes. Primeiro em 1897, com Maria Martins. Teve nove filhos no primeiro casamento. Segundo em 1911, com Ana da Silva Dias (mãe Dié). Teve treze filhos no segundo casamento. Como escreveu o saudoso William Palha Dias, ‘Cel. José Dias é considerado o pró-homem da família Dias’.

Citarei aqui alguns de seus descendentes: Seu filho Manoel da Silva Dias foi prefeito de São Raimundo Nonato-PI, deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa, e senador da República. Seu neto José Dias de Castrofoi vereador e prefeito de São Raimundo Nonato-PI, e deputado estadual. Seu neto João Batista de Castro Dias foi deputado estadual. Seu bisneto Marcelo Costa e Castro tem doutorado em Psiquiatria, foi deputado estadual e é deputado federal. Seu neto Cid de Castro Dias é engenheiro civil renomado e escritor. Claudete Maria Miranda Dias, sua descendente tem pós-doutorado em História e é uma historiadora conceituada. Dentre outros.

Comprou a fazenda Boa Vista, onde produziu cana-de-açúcar e algodão. Produzia rapadura, naquele engenho puxado por boi. Sua fazenda era sua paixão e seu retiro espiritual.Fala-se que tinha uma relação de grande amizade com seus vaqueiros. Construiu uma imagem digna do respeito de todos. Sua relação com o povo era de respeito, proximidade e compromisso.

Muito sonhador para a época. Mas não era um utópico, era um idealista prático. Ele ajudou a construir uma nova região. Suas ações elevaram um homem que nasceu nos confins do Estado do Piauí. Tinha aquele estilo sertanejo de acolher as pessoas. Reunia sempre sua (enorme) família. Notadamente quando recebia visitas; queria mostrar toda a sua descendência. Cito aqui as vezes em que Dom Inocêncio López Santamaría visitava sua residência, em São Raimundo Nonato-PI.

Cel. José Dias era extremamente educado, falava sempre com a razão. De estatura moral digna. Ele comungava daquele bordão da época: O importante nessa vida é mobilidade. A independência vem a reboque”.Recordo aqui uma passagem de sua vida.Ele gostava de dialogar com meu tio Alvino Soares; este era filho adotivo do major Alexandrino.Praticamente eram amigos de infância. E contemporâneos – Alvino nasceu em 1880. Na ocasião em que foi apeado do poder municipal, Cel.José Dias ouviu o conselho do amigo:

- Não se desestimule com as dificuldades. A evolução nem sempre é rápida. Não importa quão lenta seja a evolução. O importante é existir evolução. Quando a vida fecha uma porta, Deus abre outra. Acredite em dias melhores.

Alguns anos depois deu a volta por cima, sendo eleito deputado estadual. E deixando um legado político, com vários descendentes políticos. Como supracitado. Tinha raízes no Distrito de Várzea Grande, pertencente ao município de São Raimundo Nonato-PI. Hoje município de Coronel José Dias-PI. Foi emancipado em 29 de abril de 1992, tendo o nome em sua homenagem.

A morte de Cel. José Dias causou um enorme alvoroço na região. De fato, a morte de um homem público muito conhecido e querido. Parecia a morte de um governador de estado. Ou de um artista famoso. Muita gente presente. E uma comoção sem igual. Faleceu deixando uma larga folha de serviços prestados à sua comunidade.

Sempre agiu com grandeza Cel. José Dias tem seu nome guardado com muito carinho e zelo pela população de nossa região. Devemos celebrar sua memória como homem público, mas também como um cidadão honrado que sempre foi. 

Marcos Damasceno

(escritor)

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DITO E FEITO

14 dezembro, 2012 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

O sonho de “Pifanim” (Epifânio) e “Tiburcim” (Tibúrcio), dois primos, era morrerem bêbados. Curral Novo era o lugar. O primeiro era um homem integralmente puro em suas intenções, verdadeiro em suas palavras e sincero em tudo quanto fazia. Já o segundo, desmantelado. Carga torta. Mau elemento. O primeiro era um homem grande, forte. O segundo era um homenzinho mirrado. Dizia o povo que ‘não cresceu de ruim’. O primeiro teve 5 filhos; o segundo teve 22 filhos – os que se sabe.

Pifanim era educado. Gostava de beber, mas não tinha efeitos (da bebida) no seu comportamento que tirasse sua civilidade. Já Tiburcim era desaforado, nojento e encrenqueiro. Mas nunca bateu em ninguém, só apanhava. Os críticos diziam que ele não dormia sem brigar, ou melhor, sem apanhar. E gostava de mentir, fazer os outros de besta. Dessa feita, certa noite queria tomar uma pinga, e seu irmão Honorato, dono da bodega (a mais sortida do povoado), só abria seu comércio nesse horário em caso de doença. Veio então a grande ideia: “Pifanim, tu vai lá e diz pra ele (Honorato) que estou doente. Aí ele abrirá a bodega. Depois de pedir o remédio, peça a pinga” – disse Tiburcim. Respondeu Pifanim: “Está bem, Tiburcim. É o único jeito de a gente beber hoje”. Assim ocorreu. O comerciante foi importunado: “Seu Honorato, Tiburcim está doente. Vim aqui para o senhor vender-me um remédio para ele”. O dono da bodega saiu às pressas. Ao entregar o remédio para Pifanim, ouviu dele: “Já que o senhor abriu a bodega, me dá aí uma meiota de pinga”.

Pifanim era engraçado e inteligente. Tinha o raciocínio rápido. Já Tiburcim falava as coisas sem pensar – ou pensava apenas em besteira. Este dava resposta no povo, de lascar. Nenhum dos dois queria ceder ao processo migratório da época e sair do seu pacato povoado. Quando alguém os perguntava se não iriam para o Estado de São Paulo, eles respondiam: “Só vamos conhecer São Paulo se ele vier até aqui (interior do Piauí)”.

Deu uma seca braba, em 1951. Os dois eram jovens na época. Tiveram que passar por cima do carrancismo e ir trabalhar na terra da garoa. Chegando lá, logo arrumaram um emprego. Mais rápido ainda, descobriram um bar perto de casa. Eles moravam perto da renomada Praça da Sé, especificamente na Rua Brigadeiro Luiz Antônio. Indagavam tanto, que foram expulsos do bar (próximo). Tiveram que ir beber em bares mais distantes, correndo o risco de se perderem. Foi o que aconteceu.

Certo dia beberam todas. Eles haviam recebido o salário. Começaram à tarde, na sexta-feira. Foram parar no sábado, no mesmo horário. Como só bebiam pinga, o dinheiro deu para muitas doses. O agravante foi só um: não sabiam voltar para casa. Também não sabiam o nome da rua em que moravam. Entraram em desespero. Danaram a chorar. Até que Tiburcim virou para Pifanim e disse: “Meu irmão, tu que pensa mais tenta lembrar aí pelo menos o nome da rua…”. O segundo gritou: “Lembrei!” Viraram para um senhor que estava na calçada ao lado e perguntaram: “Moço, tu sabes onde fica a rua que o Luiz brigou com o Antônio?”. O nome da rua era Brigadeiro Luiz Antônio. Foi ensinado o endereço, mesmo sendo perguntado errado. A rua é muito conhecida.

Dois anos depois voltaram para a terra natal. Os dois arrasavam no meio da mulherada. Curral Novo também foi terra da boemia. Eles vieram com muito luxo da terra da garoa. A fala deles, Deus me livre! Era uma chiadeira doida. Chegaram bem nos festejos do povoado. Foi proposital, eles calcularam isso, planejaram chegar em tal ocasião. O padre era de São Raimundo Nonato-PI, espanhol, da Desobriga-missão. Na hora de carregar o Santo, os dois avançaram o andor. A oportunidade era única, eles iriam passar pelo meio de todo o povo e poderiam se exibir. A empolgação era tamanha que não perceberam que o Santo estava de costa para o altar, no rumo em que estavam indo. A confusão foi grande.

O padre, espanhol, com sua fala um pouco complicada de se compreender, gritava de lá: “Vira o Santo!” Para virar e ficar de frente para lá. Eles respondiam de cá: “Viva, viva, viva!” Os dois bêbados entendiam diferente – “Viva o Santo!”. Até que o padre viu que não tinha jeito, pediu para outras pessoas tomarem o andor deles dois. Ficaram com uma raiva danada. Deixaram até a igreja, no meio da missa. Imagine para onde eles foram… Bar.

No sertão ainda não existia geladeira – naquela época. Só nas regiões mais desenvolvidas do país. No Estado de São Paulo, por exemplo, já existia. Eles dois estiveram lá. De maneira, que Tiburcim sumiu por uns dias do povoado. Estava pelas redondezas no interior, no sítio de seu pai, passando uns dias. Ficaram sem se ver esses tempos. O reencontro foi sensacional. Pifanim gritou de longe, ao avistar o sumido colega: “É uma miragem. Olha o que vejo… Tiburcim. O homem apareceu. Apareceu infiteca!”. Este respondeu de lá: “Sentiu saudade de mim, seu porra?!” A alegria se completou. O primeiro disse: “Rapaz, tu está mais difícil do que geladeira preta”. O segundo justificou: “Estava dando uma trabalhada”. Só lorota, estava mesmo era dando trabalho.

Dias depois, foram a uma festa no interior. Boa toda. Salão apertado. Estava tão cheio que nem se podia mexer muito. Emendaram direto – foram dois dias de festa. No momento em que parou a festa, o povo começou a sair. De repente, um senhor cai. Gritaram: “Chega que morreu um ali agora!” Que nada. Tinha morrido no primeiro dia de festa. Mas estava tão cheio o salão que não achou espaço pra cair, e ficou em pé (morto). Deus do céu, que tragédia.

Na volta, na picape do Afonso – o único carro das redondezas -, outra tragédia. A morte de Pifanim. Isso mesmo. Este vinha sentado na grade do carro, juntamente com Tiburcim, se escorando um no outro, com aquela camaradagem clássica de bebum. Num salabanco, Pifanim caiu de costas. Tiburcim pulou imediatamente do carro para socorrê-lo. A posição em que descambou do carro foi fatal. Antes do último suspiro, o pedido: “Tiburcim, não fuja de nossa sina (morrer bêbado). Faço aqui minha parte”. O outro, em desespero (muito abalado), jura de pé junto cumprir o combinado. Ô acordo muito louco.

Levaram Pifanim para ser velado em casa. Morreu de tanto beber cachaça. Depois de muitas horas de velório, um amigo se aproxima de Tiburcim e comenta: “Puxa, como a cara do Pifanim está horrível!” Diz o outro: “Também pudera! Já faz algumas horas que ele não bebe!” Seguiram para o cemitério, para o sepulto. Os dois continuam a conversa. Estavam lamentando a sua morte. Até que Tiburcim teve uma ideia brilhante e falou: “A gente podia abrir um bar neste cemitério pra despedir dos amigos como se deve!” O outro indagou: “E como é que ia se chamar o bar?”

A resposta do primeiro: “A saideira”.

Tiburcim acunhou bebendo, a partir daquele dia. Até conseguir chegar ao final desejado. A tristeza pela falta do seu primo e amigo de infância (também de cachaça) era tamanha. Facilmente se notava seu semblante triste. Dizia: “A morte que nos separou, há de nos juntar. Preciso morrer para me encontrar com o Pifanim – seja no céu ou no inferno”.

Oportunizado por uma cachaçada doida, de vários dias seguidos, somando-se a algumas horas de sol escaldante, morreu abraçado ao litro. Caído no meio do sol. E assim ocorreu. Dito e feito. Os dois morreram bêbados.

Marcos Damasceno
(escritor)

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CARVALHO FILHO, UM ÍCONE DA COMUNICAÇÃO

10 novembro, 2012 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

*Foi o primeiro a pronunciar as palavras de apresentação no microfone da importante emissora Rádio Serra da Capivara AM.

Este artigo procura resgatar as contribuições de Carvalho Filho para a comunicação regional.Ele é conhecido popularmente como radialista. A maior parte de sua vida foi marcada por horas e horas diante de um microfone. Dono de uma voz imponente, e grande capacidade intelectiva e profissional. Sempre numa perspectiva de construção de uma sociedade mais informada, cidadã e avançada. Como diz ele próprio: “Acredito, meu caro Marcos, que com todos os avanços tecnológicos o rádio sempre terá o seu espaço na informação e construção da cidadania. Sou um amante do rádio”.

Seu nome completo é Francisco Luiz de Carvalho Filho. Nasceu no dia 25 de junho de 1957. Natural de Caracol-PI, terra de intelectuais renomados como o escritor William Palha Dias. Filho de Francisco Luiz de Carvalho e Carmelita Macedo de Carvalho, ambos de saudosa memória. Casou-se três vezes. Atualmente é casado com a professora Edivete Rodrigues de Alencar. Dos três casamentos, os filhos: MakenaSued, Alain Patrick, Raphael, Beatriz e Nonatinho(in memoriam).

Irreverente, simples e prestativo. Sua história, por si só, é um testemunho fecundo da construção midiática e da radiodifusão. Caminho com o qual sonhou e para o qual viveu e lutou. É um autodidata – sua escola foi a vida, e sua vida é uma escola.Somos todos nós testemunhas de que Carvalho Filhofoi um artífice da necessária estrutura midiática e de radiodifusão como projeto de desenvolvimento para a região. Ele dedicou uma vida inteira à tarefa da comunicação. Até os dias atuais continua firme em tal missão.

Carvalho Filhoé um herói. Se o herói é aquele que sacrifica sua vida a serviço de uma causa popular, certamente ele figura na galeria dos grandes heróis regionais. Já naqueles tempos sua palavra mostrava força, coragem e compromisso. Sempre foi assim… Ele é uma bandeira. Uma lenda. De tal modo, que não é nem pra ser comparado com outros. Encontramos muitas portas abertas, que ele e sua geração abriram no passado. Reconhecemos a própria história da comunicação na sua trajetória de vida. Fazer “Jornalismo” e “Comunicação Social” naqueles tempos – com recursos tecnológicos precários – era um “deus nos acuda”. Necessitava de muita coragem, criatividade, vocação e compromisso social.

E foi dessa maneira que ele ajudou a construir um rumo – não existia nenhum – para a estrutura midiática e de comunicação. A partir daí, ficou mais fácil. Quem não se lembra da sua voz imponente nas ondas sonoras da Rádio Serra da Capivara?! Lá no começo da comunicação social da região. Ele tem importância histórica, experiência profissional e um legado de contribuição. Quanta história… Quanta superação profissional… Quanta construção… Seu exemplo é, sim, para ser seguido. Sua referência serve como espelho. Um exemplo de vida. Como profissional e cidadão.

Um giro pela sua trajetória de vida. Órfão de pai e mãe, no ano de 1973 foi para o Estado de São Paulo. Ingressou no Mosteiro de São Bernardo, da Ordem Cisterciense, na cidade de São José do Rio Pardo-SP. Segundo ele próprio, aprendeu muito a ser gente, a respeitar o próximo e ser cidadão. Conta ainda sobre a honra e o privilégio de ser contemporâneo de Dom Orani João Tempesta(hoje é arcebispo da arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro-RJ), figura superinteligente e de bondosa alma, que muito contribuiu na sua formação cristã. No Seminário aprendeu as primeiras lições de cidadania. Mas desistiu da missão de ser padre. Sua justificativa: “Senti que ser padre não era minha missão estabelecida por Deus, e aí trilhei os caminhos da comunicação.Essa é minha missão”.

O primeiro microfone que teve contato foi na Rádio Difusora de Jataí- GO, quando no ano de 1976 apresentou o programa radiofônico do grupo de jovens católicos daquela importante cidade do Sudoeste goiano.Em 1982, ainda em fase experimental, no mês de junho, foi o primeiro a pronunciar aspalavras de apresentação no microfone da importante emissora Rádio Serra da Capivara AM. Na época, Pedro Cláudio de Moura Reis – figura ilustre – fez um teste seletivo com diversos jovens em São Raimundo Nonato-PI. A História reconhece que os históricos radialistas e comunicadores vieram dos quadros dessa histórica emissora de rádio. Como diz o próprio Carvalho Filho: “O rádio é a escola da comunicação”.Essa gloriosa rádio foi, e ainda o é, um celeiro de grandes profissionais que levam o nome de nossa terra ao mundo. Hoje temos a ferramenta da internet, que em vez de prejudicar o rádio fez foi contribuir como instrumento de trabalho e mecanismo de expansão.

Num estúdio improvisado em sua residência, na Rua Virgílio Deusdará, o mestre Pedro Cláudio entregou-lhe um microfone e um jornal com notícias grifadas e pediu-lhe que o lesse. Ao terminar a leitura ele disse ao jovem Carvalho Filho: “Está empregado, meu rapaz.Tu és de onde?”Respondeu o jovem: “Sou de Caracol”. Olhou de novo dentro dos seus olhos e disse: “Está empregado”. A partir daí, iniciou sua trajetória ao lado de nomes como Pedro Cláudio, Lucílio Avelino e Arias Filho. E o famoso sonoplasta apelidado “Manteiga”. Uma curiosidade: naquela época ele era o “rádio escuta” e redator. Era muito difícil captar as notícias. O “rádio escuta” gravava os noticiários de rádios do Sudeste e Sul do país, e depois peneirava o que interessava à região.Adaptando as notícias. Tinha, por exemplo, muita dificuldade de se informar sobre os acontecimentos em Teresina, a capital do próprio Estado.

Nessa emissora apresentou o programa “Comunicativo Interiorano”, o “Jornal Factorama” e “Tarde Colorida”. No “Factorama”, juntamente com Lucílio Avelino, informava e formava opinião, além de polemizar sobre diferentes temas daquela época.No ano de 1985 teve uma rápida passagem, juntamente com Lucílio Avelino, na Rádio Cultura do Gurgueia, que depois veio a fechar. Lá apresentavam o “Jornal da Cultura”, que ia ao ar ao meio dia. Audiência total.

De volta a São Raimundo Nonato-PI recomeça no “Factorama” e “Tarde Colorida”. No ano de 1988afastou-se do rádio para ingressar na política. Foi eleito vereador de Caracol-PI, sendo o mais votado na ocasião. Presidiu o Poder Legislativo.Creio que por ser um homem devotado às causas populares. Suas ações o agigantavam. A certeza de que o radialista deveria juntar-se ao povo, com maior vínculo ainda, o levou a aceitar a missão política.

No ano de 1989 teve uma rápida volta a Rádio Serra da Capivara, tendo como diretor o seu amigo Reges Nogueira. Passou uns meses trabalhando e fez uma parada. No ano de 2006 trabalhou um bom período na Rádio Tribuna Cantoense, que hoje se encontra inativa. Atualmente apresenta o programa semanal “Cultivar”, uma iniciativa de responsabilidade social da Galvani Fertilizantes. Vai ao ar toda terça-feira na Rádio Serra da Capivara. O programa é veiculado nos povoados Peixe, Baixãozinho,Baixão e Angico dos Dias – todos domunicípio de CampoAlegre de Lourdes-BA. Utiliza-se um sistema de som automotivo apelidado de “moto som do Cultivar”. Ele próprio é o redator do programa. E apresenta o conteúdo com sua poderosa voz.

Ele dignifica a comunicação regional. O compromisso por ele pactuado jamais conheceu qualquer vacilação ou sofreu algum desalento. Esse é seu maior legado – ser competente e criativo diante de tantos, e tais, desafios; e mediante tamanhas dificuldades estruturais e inúmeros momentos dramáticos. De fato, tal provação profissional ofereceu às futuras gerações o suporte necessário para a comunicação regional, tendo contribuições não apenas nos rumos da Rádio Serra da Capivara, mas na própria profissão ou ofício da Comunicação Social. Se hoje temos uma comunicação consolidada, eficiente e estruturada, muito devemos ao pioneirismo de Carvalho Filho e aos que empenharam a vida na sua construção.

Sua grandeza humana é para tal. Modelo de cidadão, ele transmite qualidades morais raras, vindas de uma sólida formação ética e moral. Conversar com ele é edificante. Evocar sua figura traz ainda a memória do ato fundante e evolutivo da comunicação da região. Sendo ele uma grande plataforma dessa história. Diga-se de passagem, estrela de primeira grandeza. E nós temos aqui o propósito de firmamento da valorização dessa história. E quem viveu tantas, e tais, lições de vida tem experiência para sempre legitimar a confiança na missão que lhe devotar.

Ele sempre irradia simplicidade e intelectualidade. E mantém essas características ao longo da vida e diante de seu ideal. Seu exemplo de vida e sua índole são um retrato vivo de que ainda existem pessoas a quem possamos nos inspirar. Viva Caracol-PI! Viva Carvalho Filho! Viva seus familiares, amigos, fãs e discípulos que existem por aí!

Não se esqueça: eu sou uma daquelas crianças que ouviam seu vozeirão nas ondas sonoras da Rádio Serra da Capivara, naqueles tempos. E que continua a admirar e respeitar o seu trabalho. E estamos aqui, nessa missão honrosa e gratificante. É o mínimo que devemos fazer por você, que fez tanto por nós. Pela comunidade.

Meu amigo-mestre, como ensina a nossa tradição respeitosa sertaneja, nosso código de conduta moral: pra você eu tiro o meu chapéu!

Marcos Damasceno

(escritor)

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Ajude a si mesmo

17 outubro, 2012 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

Não estou aqui defendendo um comportamento egoísta; pensar somente em si e ficar alheio à vida do próximo; esquecer-se dos outros. Imaginar que o mundo é somente seu, e que de ninguém você precisa. Precisamos ajudar ao próximo, e receber ajuda. Temos duas mãos, uma para dar e outra pra receber. O cuidado deve ser no sentido de não se esquecer de você mesmo.

Quero sim, levantar um debate sobre o mundo de hoje. Corrido. Muito agitado.É corriqueiro nos sentirmos sobrecarregados, com muita coisa pra fazer ao mesmo tempo. E com prazos curtos. Vivemos sob pressão. Numa situação assim, o estresse mental é algo certo. O preço (na saúde) a pagar por todo esse estresse é enorme.O preocupante é que essa tirania da urgência consome nossa saúde, e até nossa vida. O mundo vive em ritmo frenético. Muito intenso, agitado, barulhento e exigente cada vez mais.

Muitos ainda somam isso tudo à ambição. Tornam-se obcecados pelo desejo em conquistar algo. A pressão aumenta, pela natureza da competitividade. O estresse passa a ser contínuo, seu “amigo” inseparável na vida cotidiana. A pessoa ambiciosa nunca está satisfeita com suas conquistas, a ambição só aumenta. A correria do mundo é motivada pela ganância de muitos seres humanos. Nos tempos atuais o ser humano – em regra – mudou. Como também a convivência social mudou. Algo para melhor e algo para pior. Muitos se sentem desamparados. Isso é fato.

Surgem algumas demandas. A principal: jamais tire Deus de sua vida. A segurança interior vem Dele. Nosso juízo – crítico – pode gerar problemas inexistentes ou piorar os existentes. Equilíbrio emocional é indispensável. Necessitamos de Deus. Sua palavra afasta a angústia existencial e o vazio de espírito. Só a relação com Ele resolve. Também evite a tirania da urgência. Para isso, é preciso se colocar o que é essencial no centro de suas atividades. Além de estabelecer limites, simplificar sua vida, amenizar a agitação e buscar um ritmo menos fatigante. Não precisamos correr demais, basta que não fiquemos parados. Caminhar sempre, mas sem pressa e ambição fora do controle.Durma bem. Quando deitar-se evite pensar nas preocupações e nos acontecimentos transcorridos durante o dia, como também evite antecipar os problemas do dia seguinte.

Metas exequíveis. Devemos ter sempre a capacidade de separar o desejável do possível. Na vida temos inúmeras dificuldades e possibilidades. O desafio é equacionar isso.Vejamos os lares. Antes o lar era lugar de aconchego, refúgio, proteção e segurança. Em regra. A família era o porto seguro do indivíduo. No decorrer dos tempos,o lar passou por mudanças significativas. Surgiram hábitos novos. Os valores fundamentais perderam importância. Outros foram impostos pelo mundo. A sintonia do modo de pensar e de agir sofreu influência e modificação. Os valores de atitude, os valores criativos e os valores vivenciais podem ajudar. Tenha atitude diante de tais influências externas. Seja criativo, e crie alternativas boas. Vivencie emoções agradáveis, como orar/rezar ou ouvir música. As pessoas se comportam de acordo com seus sentimentos. Precisamos ter autoconhecimento. Conhecer a nós mesmos. Isso ajudaria a resolver os conflitos – internos e externos. A origem deles está na natureza humana.

A maioria das pessoas – no mundo globalizado – desaprendeu a viver em sociedade. E os que nasceram em tal época não aprenderam sequer. Para muitos o dinheiro é o deus deles. As coisas do mundo são passageiras. Mas as coisas de Deus são eternas. Isso é bíblico. O povo vive mal espiritualmente. Muita depressão. Autoestima baixa. Muito contato virtual e pouco contato real. Faça sempre uma avaliação espiritual, e esteja sempre preparado para o que der e vier. É preciso você aprender a querer-se. E quando alguém te criticar, saiba que nem todo mundo precisa aprovar-te. Nem Jesus Cristo agradou a todos, por questão de valores da humanidade. Não precisamos agradar a todos, nem devemos esperar pela aprovação de todos.

O fato, é que há pessoas que querem o mundo ao seu gosto. Não estando dispostas a cumprir regras de convivência ou fazer algum sacrifício social. E chegam a investir na destruição das coisas, caso não consigam com que elas fiquem do jeito que desejam. As pessoas boas e as ruins estão entrelaçadas. Tudo junto e misturado. Mas existe uma linha divisória dentro do coração de cada uma delas, separando o bem do mal.Devemos tomar cuidado para limitar – ou até filtrar – as influências emocionais provocadas pelos problemas da vida. “Não leve a vida muito a sério”, disse-me um senhor de 92 anos de idade. Desvie de determinados problemas, principalmente de problemas imaginários. Tais problemas acabam com a saúde da gente.

Fale sempre. Todo e qualquer silêncio é um ato errôneo. Uma história: um amigo meu sentia-se desiludido com a vida. Deprimido. Para ele viver ou morrer era a mesma coisa. No seu modo de pensar, sua vida não tinha mais sentido. Pensava em suicidar-se, confessou-me isso. Faltava-lhe assistência espiritual. Lamentava-se que ninguém gostava dele ou dava-lhe importância. Ele reagiu quando disse-lhe: “Cuidado com esse ‘ninguém’. É perigoso. Como tem certeza que ninguém gosta de você? Eu mesmo tenho você como espelho de vida. Um amigo-mestre. O que você não pode é silenciar-se, jamais. Converse mais com as pessoas (ele era muito recatado – agora não é mais).” O fato, é que ele mudou de atitude; consequentemente, mudou de vida.Em outra ocasião, precisei de um conselho dele. Eu estava tenso e estressado. Ele disse-me: “O remédio é focar sua vida em algo importante e ocupar-se sempre numa tarefa ou missão.”

Padre Antônio, meu professor de Filosofia, disse-me várias vezes que ‘quando nos encontramos com nós mesmos, vivemos de forma melhor. A nossa consciência encontra-se com o sentido da vida’.Temos que fazer escolhas. Aceitar umas coisas e renunciar a outras. Uma atitude gera uma ação. Se não podemos mudar as coisas ao nosso gosto, podemos ao menos mudar nossa atitude diante delas. Se você não estiver preparado para isso,está vulnerável a solidão, depressão, rebeldia etc. Você tem que se sentir bem consigo mesmo. Com fé e humildade enfrentamos os desafios da vida.

Ainda existe esperança. Enrique Chaij, escritor e palestrante, autor do livro “Ainda existe esperança”, profetiza:

- Uma pessoa sem esperança é alguém sem sonhos, sem ideais, sem otimismo, sem futuro. Quando não há esperança, o desespero toma conta da vida. Aparece então o pensamento derrotista e surge o fracasso.A pessoa com esperança tem uma mente positiva e otimista. Crê no trunfo do bem sobre o mal. Não desanima na luta, levanta-se quando cai, confia na direção divina e conserva a alegria de viver. (…). A esperança é a grande força criativa e sustentadora da vida. É mais do que uma atitude mental positiva. É o olhar confiante que possibilita ver além da realidade visível.

Honre com sua existência. Encontre na vida um sentido para sua própria vida. Sinta-se motivado para enfrentar os problemas e dê passos decisivos para melhorar sua vida.

Cuide-se. Ajude-se. Vigie-se. Seja seu próprio psicólogo. Tua vida tem sentido. Ajude a si mesmo.

Marcos Damasceno

(Escritor)

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SINHÔ PEREIRA EM PASSAGEM POR CARACOL-PI

6 junho, 2012 | Postado por admin - Comente: (0 Comentarios)

(Sinhô Pereira/Já em Goiás, idoso, em 1975) Fonte: livro “Sinhô Pereira: o comandante de Lampião”

De acordo com a maioria dos autores sobre o tema, a expressão “cangaço” deriva-se de “canga”, peça de madeira colocada sobre o pescoço dos bois de carga. Os cangaceiros usavam verdadeiras cangas no pescoço para o transporte de utensílios pessoais.

O cangaço ocorreu em vários momentos da história nordestina. Primeiro com o valente José Gomes, de alcunha “Cabeleira”. Este aterrorizava as terras do Estado do Pernambuco, por volta de 1775. Anos depois, o cangaço foi protagonizado por Jesuíno Alves de Melo Calado, apelidado de “Jesuíno Brilhante”. Nasceu em 1844 e faleceu em 1879. Era natural do Estado do Rio Grande do Norte. Este saqueava os comboios do governo, roubava alimentos e distribuía entre a população pobre das redondezas. Depois foi a vez de Antônio Silvino. Nasceu em 1875 e faleceu em 1944. Tinha o apelido de “Rifle de Ouro”. Era pernambucano.

Iniciou-se o cangaço como volante. Em 1914. O mentor e líder era Sebastião Pereira da Silva, conhecido como Sinhô Pereira. Foi o comandante de Lampião. Nasceu em Serra Talhada-PE, a 20 de janeiro de 1896. Apelidado “Demônio do Sertão” pelos populares, por ser um rei nas estratégias de guerrilhas pela caatinga. Por várias vezes foi cercado pela polícia, e conseguia escapar. Era um homem do bem, embora justiceiro popular, pela via da violência. A época era assim, a justiça era feita pelas próprias mãos.

Era sobrinho neto do coronel Andrelino Pereira da Silva, o Barão do Pajeú, primeiro intendente (prefeito) da Vila Bela (Estado do Pernambuco). Também sobrinho do Padre Pereira e filho de Manuel Pereira da Silva. A tradicional família “Pereira”. A entrada do jovem Sebastião para o cangaço teve início em rixas e mortes entre “Os Pereiras” e “Os Carvalhos”. No livro “Sinhô Pereira: o comandante de Lampião”, de autoria de Nertan Macedo, publicado em 1980, a descrição:

- Manoel Pereira da Silva era irmão do Barão do Pajeú, e pai de outro Manoel – Manoel Pereira da Silva Jacobina (Padre Pereira). Manoel (pai) sempre sonhou em ver o filho padre. Mandou-o, como era de uso no tempo, estudar no Seminário de Olinda. Manoel permaneceu algum tempo de batina, derramado sobre o seu latim, mas terminou voltando para o Sertão, sem ser ordenado. Restou a Manoel o apelido de Padre Pereira.

Padre Pereira era do bem, mas por assumir a liderança política “dos Pereiras” passou a ser o mais odiado “pelos Carvalhos” (família rival). Aos 72 anos de idade, foi vítima de uma emboscada e atingido por um tiro do jagunço Luís de França, a mando da família rival.Seu filho Luís Pereira da Silva Jacobina, apelidado Luís Padre, tinha 17 anos de idade na ocasião da morte do seu pai. A esposa do Padre Pereira, Dona Chiquinha, exigiu (por questão de honra) a vingança da morte do marido. Luís Padre muito novo, não estava preparado para a missão. Pediu ajuda ao primo Né Pereira (ou Né Dadu), irmão de Sinhô Pereira. Foram escolhidos Joaquim Nogueira de Carvalho e Eustáquio Bernardino de Carvalho para serem assassinados. Assim ocorreu.

Dias depois, Né Pereira foi assassinado “pelos Carvalhos”. Aí entra na história Sinhô Pereira, que se juntou ao primo Luís Padre, no desejo de vingar a morte do seu irmão e do seu tio.  Logo os dois jovens (Luís Padre com 24 anos e Sinhô Pereira com 20 anos), mataram Luís de França, assassino de Padre Pereira. E com espírito de guerra, formaram um grupo de jagunços que passou a ser volante, andando com cangas para levar utensílios. Daí o apelido cangaceiros. Guerrearam por muitos anos.

Em 1918, Sinhô Pereira e Luís Padre resolveram recomeçar a vida e deixaram o cangaço. Alguns historiadores afirmam que eles haviam atendido a um pedido de Padre Cícero, enviado numa carta endereçada ao Sinhô Pereira, em que o sacerdote pedia que os primos deixassem a região, que vivia em clima de guerra e de medo. O sacerdote cearense ao receber a resposta favorável, enviou outra carta para Padre Castro, no município de Pedro II (Estado do Piauí), pedindo ao vigário que recebesse os dois jovens e encaminhasse-os para o Maranhão, para as terras do Barão de Santa Filomena (Estado do Piauí) e do Marquês de Paranaguá (Estado do Piauí).Mas os primos escolheram o Estado de Goiás. Do município de José do Belmonte-PE vieram em direção ao Estado do Piauí. Em Simões-PI, a caminho de Pedro II-PI, foram perseguidos e mudaram de rumo. Por questões de estratégia militar se separaram. Montados a cavalos, acompanhados de seis cangaceiros.

Luís Padre ficou com dois cangaceiros e rumou Uruçuí-PI (hoje município). Já Sinhô Pereira ficou com quatro cangaceiros (“Cacheado”, “Coqueiro”, “Raimundo Morais” e “Gato”), rumou Corrente-PI. Passou por São Raimundo Nonato-PI e chegou a Caracol – PI. O próximo destino seria Parnaguá-PI. Mas foi cercado pela polícia do Piauí, em Caracol – PI. Isso em dezembro de 1918. A força policial era comandada pelo tenente Zeca Rubens. Um contingente de 20 soldados, e ainda mais de 40 populares. Sinhô Pereira, tido por alguns como “arquiduque do sertão”, e por outros o rei das guerrilhas na caatinga, mesmo com um grupo de cinco pessoas conseguiu escapar. Suas táticas de guerrilha funcionaram.

Retornou para sua terra (no Pernambuco). Desistiu da viagem para o Estado de Goiás. Alegava que eles teriam um longo trecho pelo Estado do Piauí até chegar o destino final. Com pouca munição, com alguns dias de fome e de sede, era melhor retornar. Próximo a Remanso – BA encontraram abrigo, água e comida. Seguiu o futuro comandante de Lampião para sua terra. Chegou por lá em março de 1920. Em passagem por Serra Talhada-PE esteve com Lampião e seus irmãos Antônio eLivino. Mais tarde, outro irmão entrou para o cangaço: Ezequiel. Muitas ligações entre Lampião e Sinhô Pereira: eram vizinhos; a mãe de Lampião era afilhada do pai de Sinhô Pereira; o pai de Lampião era afilhado do Padre Pereira, tio de Sinhô Pereira; as famílias eram amigas; e com comuns inimigos: “Os Saturninos” e José Lucena.

Em Gilbués-PI (hoje município), vindo de Uruçuí-PI, Luís Padre soube do ataque ao primo. Mas seguiu pelo cerrado piauiense rumo ao Estado de Goiás. Passou em Santa Filomena-PI (hoje município). Já havia adotado um nome fajuto: José Piauí. Anos depois, já em Goiás, Luís Padre comunicou ao Sinhô Pereira o lugar onde estava. Seguro e sossegado. O cangaço na região Nordeste estava cada vez mais difícil. Sinhô Pereira resolveu ir onde estava seu primo, e comunicou ao grupo. Lampião disse que ficaria. Muitos cangaceiros ficaram com o futuro rei do cangaço, que assumiu o comando do grupo. Ao despedir-se de Lampião, disse-lhe: “Vou deixar umas brasas acesas por aí. Trate de apagá-las”.

Sinhô Pereira deixou o cangaço (definitivamente) a 08 de agosto de 1922, e foi para Minas Gerais. Anos depois se mudou para Goiás. Deu suas justificativas ao Nertan Macedo, autor do livro “Sinhô Pereira: o comandante de Lampião”, que esteve na sua casa em Minas Gerais, em 1975:

- Depois que houve outro combate na fazenda Tabuleiro, de Neco Alves, na Paraíba, fronteira com Pernambuco. De longe avistamos uns homens. Pensamos que fossem nossos companheiros. Lampião ia à frente, com Livino e “Meia Noite” (cangaceiro). Os soldados atiraram. Lampião perdeu o chapéu, ao pular para se livrar das balas. Ao voltar para apanhá-lo tomou dois tiros, um na virilha e outro acima do peito. Na hora ele saiu andando, mas não aguentou e caiu. Livino e “Meia Noite” (cangaceiro) o arrastaram até um lugar seguro.Mandei chamar o Dr. Mota, amigo da minha família, para examinar Lampião. Disse: “Nunca vi tanta sorte. Por um triz a bala pegava a bexiga e a espinha.” Fizemos um rancho, onde ficamos até Lampião poder andar.Depois do combate em que Lampião saiu ferido eu resolvi me retirar daquela vida. Saí mais por causa do reumatismo, que me atacava tanto. Tinha dia que eu não conseguia nem caminhar. Isso por causa das longas noites passadas ao relento, na friagem do sertão.

Décadas depois, Sinhô Pereira foi descoberto em Lagoa Grande, povoado de Presidente Olegário-MG, sendo dono de uma farmácia. Com nome fajuto de Chico Maranhão. O coronel Farnesi Dias Maciel foi quem deu abrigo e proteção ao ex-cangaceiro, naqueles confins de Minas Gerais. Era irmão do falecido Presidente Olegário (ex-governador mineiro), homenageado com o nome do município.Maura Eustáquia de Oliveira escreve no Jornal “O Globo” sobre Sinhô Pereira, nos anos 70:

- De Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, até Lagoa Grande, no sertão de Minas Gerais, há mais de mil quilômetros de distância. Mas uma distância muito maior separa o cangaceiro Sebastião Pereira, que Serra Talhada temeu em torno de 1916, do farmacêutico Chico Maranhão, que Lagoa Grande respeita e venera desde 1923. Sebastião Pereira, ou Sinhô Pereira como era conhecido no cangaço, é sobrinho do Barão do Pajeú, um dos mais influentes políticos pernambucanos do início do século. Aderiu ao cangaço para vingar a morte de um irmão na rixa entre as famílias do sertão e “para levar justiça a um povo que só conhecia a lei da força”. Um dia recebeu entre seus homens o jovem Virgulino Ferreira – que mais tarde seria o temido Lampião – a quem ensinou todos os segredos da guerrilha da caatinga e depois fez ele seu lugar-tenente. Quando resolveu abandonar a vida de cangaceiro, convidou seu compadre para sair junto. Mas Lampião preferiu a caatinga.

Ao escritor Nertan Macedo o ex-cangaceirodisse em 1975, ao recebê-lo em sua casa, sobre a vida no cangaço:

- Era um tempo ruim. Não tinha sossego. Era só desgraça, seca e miséria. Raro o dia, na caatinga, que podíamos nos dar ao luxo de uma xícara de café. Tinha vez de nós rompermos até 12 léguas (72 km) num dia. Um estirão danado. Nessas ocasiões, a gente mal parava pra comer e descansar. Travessias fortes, perambulando de um lado para outro. Enfrentava inimigos fortes e poderosos, ainda sofria dias e dias de fome e sede. Eis a vida no cangaço. Quase todos do grupo tinham menos de 25 anos (de idade).

Em 1920, mês de junho, Virgulino Ferreira, vulgo Lampião, entra para o cangaço a convite de Sinhô Pereira. Foi seu comandante. Segundo ele próprio, sua entrada foi motivada pelo desejo de vingar a morte do seu pai. O líder Sinhô Pereira admirava-o pela sua valentia e por suas técnicas de guerras (era bom nisso). E Lampião, sempre que necessário, demonstrava idolatria ao comandante e até depois de sua saída fez tributo ao seu mestre, dizendo da sua admiração por ele. O mestre-comandante de Lampião, conta sua vida no livro “Sinhô Pereira: o comandante de Lampião”, de autoria de Nertan Macedo:

- Lampião era de uma família humilde. Ele nasceu a umas três léguas (18 km) de São Francisco, onde eu morava e seu pai fazia a feira e batizava os filhos. Conheci Lampião desde menino. Ele e seus irmãos eram independentes e muito trabalhadores.A questão dele foi de terra. Saturnino, pai de Zé Saturnino, queria tomar um pedaço de terra da fazenda Serra Vermelha, de Zé Ferreira, pai de Lampião. Houve uns tiros entre eles. Morreu um dos jagunços de Zé Saturnino, e Zé Ferreira saiu ferido. Aí “Os Ferreiras” se retiraram para Matinha de Água Branca, em Alagoas, onde ficaram sob a proteção do coronel Ulisses Lunas, em 1917.Eles estavam até destituídos de questão, quietos, trabalhando, quando em 1920 foram procurados por Antônio Matilde, casado com uma parenta deles, para juntos perseguirem Zé Saturnino. Antônio Matilde tinha um grupo de homens. Houve algumas lutas, morreu um sobrinho de Antônio Matilde e Casimiro Honório, tio de Zé Saturnino. Depois disso, Antônio Matilde desapareceu, deixando “Os Ferreiras” encrencados também com a polícia. Essa encrenca foi que provocou a morte de Zé Ferreira, pai de Lampião.

- Depois da morte de Casimiro Honório, o tenente José Lucena saiu em perseguição a Antônio Matilde. Soube que Zé Ferreira estava na casa de um “Fragoso”, foi lá e matou o velho. Antes havia matado Luís Fragoso, filho do dono da casa. Dona Maria José, mãe de Lampião, morreu 19 dias depois de desgosto.Depois da morte de Zé Ferreira, Lampião e irmãos juntaram-se com os irmãos Porcino, Antônio, Manuel e Pedro. Mas foi por poucos dias. Então, saíram atrás de José Lucena. Tiveram um encontro com um policial num lugar por nome Espírito Santo, fronteira de Pernambuco com Alagoas. Morreu gente de parte a parte. O cabo (policial) foi confundido com José Lucena e recebeu 12 tiros. A força (policial) era muito grande. Eles não eram nem a metade. Aí eles fugiram, achando que tinham matado José Lucena.

Pegando o gancho, farei aqui uma leitura do cangaço; numa visão social. Lampião fez história no cangaço tornando-se numa lenda. Seu nome está memorizado na memória coletiva e no panteão da imortalidade. Segundo fontes bibliográficas, os três brasileiros mais biografados – todos com mais de 3000 livros escritos sobre eles – são: Padre Cícero, Lampião e Luiz Gonzaga. Todos nordestinos. Lampião, no caso aqui, foi a referência de mobilização para todos esses grandes líderes existentes da arena da justiça social. Certa vez, o então deputado federal Francisco Julião, representante das Ligas Camponesas e militante político pela reforma agrária, declarou: “Lampião foi o primeiro homem do Nordeste a batalhar contra o latifúndio e a arbitrariedade”.Assim como muitos outros personagens da História, foi injustiçado pela visão elitista.Os fatos históricos perderam lugar para as lendas.

O fato, é que Lampião era um jovem normal e tranquilo que trabalhava para Delmiro Gouveia, grande empresário da época. Sua revolta deu início a partir do dia em que seu pai (José Ferreira) foi assassinado (em 1920) pelo sargento de polícia José Lucena, por causa de um litígio com o vizinho José Saturnino. Naquela época a honra andava lado a lado com a vingança. Recorrer a quem? À justiça dos homens, muitas vezes manipulada pelo próprio coronelismo político? Não existia democracia. Nem diplomacia. Agir pela via da violência não era um erro de causa, era o meio mais sensato para o fim da dignidade moral.

Lampião foi um idealista, um revolucionário primitivo, insurgente contra a opressão do latifúndio e a injustiça do sertão nordestino. Um “Robin Hood”. Um justiceiro popular. Ele sempre foi um homem justo, que comungava de valores de respeito e de relacionamento social. Seu problema não era com o povo, nunca o perseguiu. E sim, com os coronéis rurais (posseiros das terras), líderes políticos e comerciantes que exploravam o povo com a carestia. Protestou contra todas as mazelas sociais existentes na região Nordeste. Ensinou o povo a se indignar, a mobilizar-se; ensinou-nos a importância da luta.

Sua imagem revolucionária começou a se desenhar em 1935, ainda vivo, quando a Aliança Nacional Libertadora – ANL citou-o como um de seus inspiradores políticos. Já nos anos 20 era a referência para essa linha de atuação pela justiça social. E provavelmente nos anos 10 o cangaço já representava o principal exemplo de mobilização social. Existiram erros de causa por parte do cangaço. Isso é inegável. Mas diante da grande obra da causa cívica e do mérito da história desses brasileiros cangaceiros, são insignificantes.

Sobre a referência social de Lampião, o historiador norte-americano Billy Jayner Chandler escreveu:

- Os ingleses vibram com os feitos de Robin Hood. Os norte-americanos contam as aventuras de Jesse James. Os mexicanos, as façanhas de Pancho Villa. E os brasileiros, as de Lampião.

O cangaçofoi importante e notório na luta pela liberdade e dignidade do povo sertanejo do Brasil. Deu significativa contribuição para um país mais desenvolvido e menos desigual socialmente. Vamos nos situar na região. Imagine a população sem renda que lhe oferecesse as mínimas condições de sobrevivência… Um povo que fazia parte apenas da estatística nacional brasileira como integrante da população. A exclusão social era total. Esses atores sociais foram ardentes defensores da causa da justiça, e os principais intérpretes das aspirações das massas. Foram líderes sociais. Heróis do povo brasileiro.

Marcos Oliveira Damasceno, 30 anos, escritor. Natural de Dom Inocêncio – PI. Doutorado em Filosofia Política. Diretor-Presidente da Produtora Sertão.

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