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	<description>O QUE FOI DEIXADO PARA TRÁS</description>
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		<title>O ACORDO (PARTE II: O ÚLTIMO DELÍRIO)</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Apr 2011 13:31:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Orestes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  Quando o passado, seguimento após seguimento, alcança o presente e já mostra pretensão de se precipitar nas incertezas do futuro. Quando, em retrospectiva, já revemos tudo o que tínhamos de rever e a única coisa que realmente importa agora é nos extasiarmos com o exato momento que vivemos. Quando não é mais a dor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>  Quando o passado, seguimento após seguimento, alcança o presente e já mostra pretensão de se precipitar nas incertezas do futuro. Quando, em retrospectiva, já revemos tudo o que tínhamos de rever e a única coisa que realmente importa agora é nos extasiarmos com o exato momento que vivemos. Quando não é mais a dor já sofrida que nos importuna, mas sim a dor que sofremos agora que nos faz ranger os dentes. Quando não são mais as feridas do passado que sangram, pois já cicatrizaram, mas sim estas feridas novas, recentemente abertas, recém-nascidas e ainda sedentas de nosso sangue, pois, como acabei de descobrir, a vida jamais se cansa de nos ferir&#8230;</p>
<p> Não há mais nada para ser lembrado. O passado está morto. Sepultado no presente. Não há mais nenhuma recordação para ser trazida até minha consciência; mais nenhum delírio evocativo de qualquer memória perversa. Nenhum resíduo do que um dia vivi restou para contar minha história. Agora tudo o que vivo é o momento presente (o último antes do final). Devo vive-lo intensamente para que não seja em vão.</p>
<p> Uma frágil serenidade prenuncia a capitulação final de minha vida. Em breve essa tranqüilidade que sinto será sufocada por uma última e inútil tentativa de respirar, de pensar, de viver. Nessa calmaria que antecede a tempestade, procuro em vão aceitar o fato de que meu fim chegou. Para falar a verdade, ele já deveria ter vindo, mas com minha alma (a coisa mais valiosa que tinha) comprei este momento mais que agora vivo, este momento calmo, este breve instante plácido que, pressinto, será sucedido pela mais avassaladora angústia existente.</p>
<p> Como que movida pela mais infame crueldade, a morte nos presenteia, antes de sua completa consumação, de um imerecido descanso onde nossas forças, depois de quase esgotadas, recuperam um pouco seu vigor e consciência. Vivo agora a plenitude desse processo, esse paraíso efêmero onde a dor é quase ausente. Essa quietude traiçoeira nada mais é que a preparação de nossas derradeiras forças para o derradeiro combate, o combate com vencedor já pré-determinado, a mais inglória de todas as batalhas. Porém, mesmo sendo em vão, esse retrocesso da morte constitui um gratificante alívio, um enganador alento para, quem sabe, restaurar-se no moribundo as insanas pretensões de continuação de uma vida já moralmente extinta. E aqui, também eu, já moralmente extinto, alimento com esse ralo alívio uma nati-morta esperança de ainda viver, ou, pelo menos, que essa serenidade que agora usufruo seja como um horizonte onde, suavemente, possa a luz de minha existência ceder lugar à escuridão que se adensa cada vez mais.</p>
<p> Entretanto, o prelúdio tranqüilo que, por um ínfimo mas acalentador instante, torna um pouco menos amargo a amarga infabilidade desta nos tira do mundo, é, lenta mas inexoravelmente, substituído pela sua perfeita antítese. Os primeiros sinais de dor assaltam-me a paz, destroçam-me a serenidade, turvam minha consciência. De maneira ladina, o tormento começa a tomar posse do baluarte indolor que me protegia e a me sufocar com sua atmosfera de ânsia e desespero. Agora tudo é temor, tudo está envolto numa ansiedade desesperançada e nada, absolutamente nada, pode ser feito para impedir que tal sombrio processo me engula.</p>
<p> Como ondas de um mar revolto, imagens desconexas emergem em minha mente e confundem-se com a limpidez de pensamentos claros e serenos. São imagens povoadas de rostos tristes, desiludidos, rostos que não escondem a frustração que os distorce. Nunca vi esses rostos antes, mas há algo neles com o qual me identifico, há algo neles que reverbera em meu espírito agora dividido entre razão e delírio. Conforme as imagens desses rostos vão ficando cada vez mais límpidas, e conforme a estranha convivência de mente sã e loucura mortal vai ganhando contornos de uma completa e inigualável simbiose, a lancinante dor dos momentos finais vai conquistando os poucos refúgios pacíficos que ainda sobravam nessa hora tormentosa&#8230; É a hora suprema, é o início da luta de mais um que se vai contra aquela que jamais conheceu a derrota. As imagens vão se tornando cada vez mais completas, cada vez mais inteiras. Agora não são mais somente faces desencantadas a povoar esses sonhos insanos, são corpos inteiros a vagar desordenadamente por horizontes de um profundo negror, de uma profunda tristeza. São incontáveis sombras entretidas, ou melhor, absorvidas, numa intensa procura que parece para sempre fadada ao fracasso&#8230;</p>
<p> É o último delírio, o prometido pelo demônio, meu sonho e pesadelo final, o justo pagamento por uma alma injusta e sem valor&#8230;</p>
<p> Lançados numa mortificante alucinação, meus olhos e ouvidos vêem e ouvem a “realidade” que lentamente se descortina não mais diante deles, mas ao redor deles. Num cenário de extremada angústia, onde o desespero constitui o menos infeliz de todos os sentimentos, esse resquício de consciência que me acompanha nesse oceano delirante vai aos poucos se habituando a esse ambiente febril que lhe cerca e fere. É um mundo inteiro para meus sentidos embriagados pela morte, é um universo inteiro a ser explorado pela moribunda, quase inconsciente e atormentada razão que insiste em relatar, classificar e discernir as informações que lhe chegam através de canais sensoriais que não mais captam a perspectiva humana da realidade, mas uma perspectiva doentia, uma realidade de pesadelo que muito pouco se assemelha a essa a que já nos acostumamos. É um quadro sombrio; é uma paisagem tristonha onde não uma noite mas uma atmosfera noturna me envolve numa excêntrica penumbra translúcida. Também envoltos na penumbra, retorcidas montanhas coroadas de retorcidas árvores jazem silenciosas num horizonte apático e não muito distante de onde, em ondas regulares, emergem gritos que não expressam exatamente uma dor física, mas uma dor moral, uma dor do espírito, incontáveis vezes mais avassaladora do que todas as dores que o corpo conhece.</p>
<p> Avançando em cortejo, uma multidão de almas desorientadas, desencantadas e perdidas se aproxima de mim e demonstra uma curiosidade um tanto desinteressada, quase banal. Não é uma visão nova para elas, de alguma forma percebo isso, parece ser algo corriqueiro o fato de alguém se juntar a suas melancólicas companhias. Mas para mim é atormentadora a visão desse exército lúrido e sinistro. Seus rostos são os mesmos que vislumbrei nos breves e doloridos lampejos que me introduziram nessa vívida e finalizadora ficção de minha mente. Seus trajes andrajosos tremulam num vento sem origem e sem destino, imundos, pestilentos, de uma humildade monacal. Seus passos são letárgicos, vacilantes, passos daqueles que não mais têm pressa de chegar a lugar algum. Suas lamentações e ladainhas são egoístas. Parece-me que cada um desses espíritos sem descanso é incapaz de compartilhar sua dor com os outros. Penso mesmo que cada um deles vive sua desgraça solitariamente e mesmo estando juntos são incapazes de constituírem companhia agradável uns aos outros. Seu número é imenso, é-me impossível ver o final deste inusitado cortejo fúnebre. Serpenteando através das montanhas, numa jornada angustiante e interminável, eles marcham como uma grande legião voltando derrotada de uma importante batalha.</p>
<p> A todo instante, cânticos desalentadores são entoados pelo préstito langoroso e murmúrios indecifráveis enchem o ar deste cenário trágico de uma cacofônica ária sombria e triste. O cortejo se aproxima cada vez mais, lentamente rastejando pelo árido e pedregoso terreno. Meus olhos assustados contemplam essa medonha aproximação enquanto uma indecisão crônica toma conta de meus pés, firmemente atados ao chão. Não há como fugir desse horrendo encontro. A caravana de espíritos desorientados aos poucos vai tomando contornos de uma impiedosa avalanche engolindo uma longa e larga extensão de uma terra estéril. Numa espécie de dança macabra, os incontáveis rostos retorcidos tornam-se assustadoramente nítidos e novamente me revelam, agora com muito mais força, a infernal dor que os motiva a caminhar sem rumo através de uma paisagem que parece ter sido especialmente feita para eles.</p>
<p> Mesmo aqui, neste último momento de vida, não consegui livrar-me desta que sempre foi, sem nenhuma sombra de dúvida, uma de minhas piores inimigas. A mesma hesitação que sempre me aprisionou numa covarde inércia em vida também neste delírio mortuário me domina. Sinto como se tivesse perdido a oportunidade de ter fugido, como se, por um ínfimo lapso de tempo, eu pudesse ter me escondido dessa procissão angustiante que agora me abraça como uma mortalha. Não mais as contemplando de longe, mas estando entre todas estas almas condenadas, posso entender melhor sua aflição e até mesmo compartilhar um pouco de todo esse desgosto que as suplicia. Não já nenhum preconceito entre estes espíritos atormentados, nenhum deles demonstrou o menor sinal de hostilidade por minha presença. Analisando seus olhares de um abissal vazio, sinto como se tivesse sido aceito numa espécie de sociedade secreta, uma fraternidade dedicada a vagar e lamentar seus horrendos e inumeráveis crimes por toda a eternidade.</p>
<p> Enquanto a horda sinistra continua em sua lúgubre marcha em direção a lugar algum, meus pensamentos, antes tão embaralhados, começam a entender as sutis razões de minha presença entre todos estes espectros entristecidos. Só agora percebo a humildade monacal do traje que visto, só agora percebo a intensa dor moral que sinto e, de uma maneira que nem mesmo essa consciência delirante é capaz de explicar, também percebo a enormidade do vazio de meus próprios olhos. Não sou um mero observador desse exército sombrio, sou um integrante desse cortejo fúnebre seguindo adiante e compartilhando do melancólico destino de todas estas sombras criminosas. Há em cada uma de nós, meras sombras vagando na imensidão do limbo, uma mancha de vergonha por nossos atos cruentos, por nossas vidas de blasfêmia e iniqüidade. Somos almas condenadas a peregrinar sem objetivo por toda a eternidade. Somos muitos milhares, somos constelações sem fim. Porém, somos, dada uma de nós, solitárias. Não somos dignas de sermos boa companhia para nós mesmas.</p>
<p> Esse é meu último delírio. Último e eterno delírio. Antes mesmo de morrer eu já estava aqui. Agora que o portal da morte já foi suavemente ultrapassado, continuarei aqui, caminhando com meus desafortunados irmãos e irmãs, levando comigo essa amarga consciência que jamais me abandonou&#8230;</p>
<p> Agora sou parte de toda a dor que eles sentem&#8230;</p>
<p style="text-align: right;"><em>Orestes Jayme Mega   09/12/2003</em></p>
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		<title>O ACORDO (parte I)</title>
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		<pubDate>Thu, 31 Mar 2011 13:46:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Orestes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[De todos os medos que existem não há nenhum que se iguale ao medo de morrer. Não afirmo isso para os suicidas. Não afirmo isso para aqueles que, de uma forma ou de outra, menosprezam a própria vida. Minhas palavras são para aqueles que lutariam até mesmo além do limite de suas forças para permanecerem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } -->De todos os medos que existem não há nenhum que se iguale ao medo de morrer. Não afirmo isso para os suicidas. Não afirmo isso para aqueles que, de uma forma ou de outra, menosprezam a própria vida. Minhas palavras são para aqueles que lutariam até mesmo além do limite de suas forças para permanecerem vivos. Para aqueles que não hesitariam em abandonar suas mais profundas convicções morais, religiosas ou filosóficas em troca da manutenção de sua vida. Para aqueles que não sentiriam o menor remorso em prejudicar muitas outras pessoas e até mesmo trair seus amigos para ainda viver. Enfim, para aqueles covardes, como eu, que não hesitariam em vender suas próprias almas para continuarem existindo.</p>
<p>Sempre evitei que qualquer pensamento sobre a finitude de minha vida viesse perturbar meus sonhos de imortalidade. Desde criança minha relação com a morte foi de um profundo temor. Não suportava a idéia de deixar de existir. Não admitia o fato de que um dia eu teria que abandonar este mundo a que sempre fui apegado.</p>
<p>Para a grande maioria das pessoas, nada em suas vidas as preparou para o instante final, para a hora infalível. E esse é o grande tormento do mundo. Vivemos cada dia de nossas vidas tentando manter nosso irremediável destino longe de nossos pensamentos. Mas, assim como a luz é sepultada no túmulo da noite, também nossas frágeis vidas, pusilânimes como as estrelas na mais densa das noites, se esvaem rapidamente e torna impossível deixar nossas mentes livres da mácula dos pensamentos mórbidos.</p>
<p>E neste exato momento lúgubre, quando não mais posso fazer planos para décadas a frente, ou anos, ou meses, ou dias, ou mesmo horas, mas somente para meros minutos, pois tudo o que sou agora é um moribundo à beira da morte sobre um leito aquecido por minhas últimas convulsões. Quando me vem a consciência de que minha hora chegou, só não ainda o minuto fatal, todo pensamento que tenho é sobre aquilo que sempre evitei pensar.</p>
<p>Mas, nestes últimos instantes de lucidez, depois de ter passado por tantos delírios que sei que são as últimas fantasias de minha vida, concentro toda a pouca energia que me resta em evocar uma antiga lembrança. Tenho consciência de que em alguma página obscura de meu passado está registrado um pequeno período de minha juventude em que também esses mesmos pensamentos mórbidos atormentavam meus sonhos de perpétua imortalidade. Esforço-me na busca por aquela lembrança, pois algo me diz que nela encontrarei um breve alívio.</p>
<p>*************</p>
<p>Na plenitude de minha juventude, quando o horizonte do futuro parecia interminável e não havia nada que me atormentasse, pois era jovem, e, como todo jovem, achava que enquanto fosse jovem nenhuma doença, nenhum ferimento, nenhuma mágoa poderiam realmente me abalar, pois minha juventude havia de curar qualquer coisa que se levantasse contra mim, até mesmo a velhice minha juventude havia de curar. Exatamente quando me julgava no ápice de minha força e saúde foi que pensamentos mórbidos, demasiado sombrios, invadiram minha mente e tiraram a paz e a confiança que existiam em meu coração.</p>
<p>Tudo aconteceu depois que vi um velho mendigo, fétido e louco, lentamente morrendo, exclamando impropérios enquanto morria, anatematizando tudo e a todos, proferindo insanidades e, entre estas insanidades, houve uma que me feriu profundamente. O mendigo simplesmente pedia por um momento mais de vida, implorava por mais uma hora ou mais alguns meros minutos de vida. Não muito tempo depois de fazer seu pedido, ele encontrou o que temia. Com um rosto que expressava uma infinita impotência diante do nada em que submergira, o cadáver do mendigo fora removido para uma cova anônima, mas sua individualidade, aquilo que o fazia um ser particular, aquilo que realmente o diferenciava dos demais, foi para uma cova muito mais profunda, onde nem mesmo vermes existem, onde multidões de séculos passarão sem que nenhuma vivência se realize, onde um segundo e um bilhão de anos são absolutamente iguais.</p>
<p>A morte do mendigo foi um golpe na convicção que eu tinha na eternidade de minha juventude e de minha vida. Um desencanto extremo apossou-se de mim naquele exato e lúrido momento. Era-me difícil até mesmo respirar.</p>
<p>Por meses inteiros procurei uma solução para o problema da morte, uma estratégia que pudesse vencer as legiões do nada, um antídoto que me livrasse do veneno do fim, um artifício qualquer que pudesse enganar a morte e fazer com que ela se esquecesse de mim&#8230; e eu dela.</p>
<p>Décadas envelheci nesses meses de intensa procura mas, por fim, premiados. Eu encontrara uma arma para lutar contra minha medonha inimiga.</p>
<p>Em antigos livros estavam guardados antigos segredos sobre as várias tentativas da humanidade em perpetuar, ou se perpetuar não é possível, pelos menos protelar a chegada do fim. Desde eras remotas o homem busca uma forma de impedir que a morte ou seu caráter “nadificador”, até fórmulas alquímicas de manutenção da juventude e da vida. Porém, entre todas estas formas, houve uma que, não sei ao certo a razão, convenceu-me de que era possível vencer meu temor.</p>
<p>Os velhos e proibidos livros que me guiavam nessa minha busca diziam que era possível a um homem fazer um acordo com demônios que tinham o poder de prolongar ou até mesmo imortalizar a vida de uma pessoa. Os textos que li davam as instruções de como fazer um desses acordos. Não hesitei em decorar as fórmulas secretas que deveriam ser recitadas para que uma dessas entidades viesse a meu encontro. Não tive nenhuma dúvida quanto às certezas de meu coração.</p>
<p>No dia certo, na hora certa, no lugar certo estava eu recitando aqueles versos arcanos cheios de louvores à criaturas que parecem ter uma intensa fome de bajulação. Depois de recitar o longo poema de convocação, depois de esperar frustrantes horas de uma ansiedade infinita, depois de verificar cada detalhe material que fazia parte do complexo ritual, finalmente meus chamados foram atendidos e a entidade sedenta de almas veio para provar o sabor da minha&#8230;</p>
<p>Meu medo fazia-me tremer incessantemente diante do espírito que eu evocara. Minha racionalidade ainda lutava contra a visão a minha frente, mas minha convicção me dava forças para iniciar o diálogo com o ser alado de pele escamosa que me subjugava com seu olhar atemorizador:</p>
<p><em>__Demônio, dê-me vida eterna. </em>Gaguejei diante do fantasmagórico ser que eu evocara.</p>
<p><em>__Você não merece vida eterna.</em> Disse-me o demônio sem nenhuma hesitação.</p>
<p><em>__Então dê-me séculos de vida. </em>Pedi já um pouco mais calmo.</p>
<p><em>__Você não merece séculos de vida. </em>Respondeu-me resolutamente o demônio.</p>
<p><em>­­__Então dê-me décadas a mais de vida. </em>Retruquei já não mais gaguejando.</p>
<p><em>__Você não merece décadas a mais de vida. </em>Respondeu-me calmamente o demônio.</p>
<p><em>__Então, demônio, quanto mais eu mereço de vida, quanto vale minha alma em tempo? </em>Inquiri o grotesco ser que estava a minha frente.</p>
<p>O demônio olhou-me pensativamente, buscando na profundidade de meu olhar o valor de minha alma. Poucos segundos foram necessários para que ele percebesse o valor em tempo que deveria me pagar para ter a posse definitiva de minha essência e, com a voz convicta de um avaliador experiente, que certamente já avaliou e comprou tantas outras almas, revelou-me o valor que pagaria:</p>
<p><em>__Um momento mais.</em></p>
<p>Diante da proposta desalentadora (eu realmente esperava um pouco mais) calei-me pensativamente. Em minha mente um pensamento metafísico relacionado com a questão do tempo atormentava-me. Um momento mais, um mero momento mais, quanto de vida em teria em um momento mais?</p>
<p>Eu permanecia calado, somente pensando, mas o demônio ouviu meu pensamento e respondeu:</p>
<p><em>__Um momento mais é tempo suficiente para se ter um último delírio.</em></p>
<p>Ergui meus olhos á criatura infernal; meditei brevemente em suas palavras e, depois de perceber que realmente minha alma não valia mais do que a criatura me oferecia, respondi a sua pergunta:</p>
<p><em>__Sim, demônio, eu aceito sua oferta, façamos o acordo.</em></p>
<p>O demônio sorriu discretamente. Não era a primeira alma que obtinha a preço módico, e sem nenhuma dor, nenhum enjôo ou tormento, tão somente uma sensação de vazio, ele levou minha alma consigo, mas antes deixou-me uma última mensagem:</p>
<p><em>__A qualquer hora, em qualquer lugar, quando quiser e enquanto você ainda viver, peça seu momento mais a que tem direito que eu não poderei negar-lhe&#8230;</em></p>
<p>Pois agora, demônio, quando toda esperança é morta e o nada já é palpável, peço-lhe, dê-me o momento mais que você me prometeu, pois qualquer instante mais de vida que agora eu tenha será um breve mas grande alívio.</p>
<p style="text-align: right;">
<p style="text-align: right;"><em>Orestes Jayme Mega &#8211; 16/08/2003</em></p>
<p style="text-align: right;">
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		<title>O QUE FOI DEIXADO PARA TRÁS</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Feb 2011 19:30:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Orestes</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Era o sexto ou o sétimo dia de viagem? Eu perdera a noção do tempo. Eu estava ainda no Piauí ou já tinha passado para o Ceará? Eu já não mais sabia onde estava. Tudo o que eu sabia é que saíra da cidade piauiense de São Raimundo Nonato junto com dois amigos e que pretendíamos chegar à cidade cearense de Banabuiú. Decidimos viajar de bicicleta e sabíamos que teríamos de enfrentar mais de 600 quilômetros de estrada para alcançarmos nosso destino. Entretanto, agora eu ficara para trás, em algum ponto de uma imensa reta que parecia não ter fim.</p>
<p>O sol martelava com raiva aqueles que ousavam desafiá-lo em seu auge. A julgar pelo calor e pela altura do sol, já era meio-dia. Exausto, eu pedalava lentamente, sentindo grandes dores nas pernas. Para ser sincero, todo o corpo doía! Mas dor não era minha única companhia nesta viagem. Fome e Sede também resolveram me acompanhar. A comida que eu comprara muitos quilômetros atrás já tinha acabado e a água também já se fora. Mas eu continuei pedalando porque isso era a única coisa que podia fazer. Entretanto, uma névoa escura invadiu meus olhos e minha vista ficou embaçada. Uma fraqueza apossou-se de mim. Um lapso em minha memória seguiu-se à fraqueza&#8230;</p>
<p>Depois do lapso eu recobrara um pouco de minha força e pedalei por mais alguns poucos metros até parar em frente de uma dessas pequenas cruzes que se encontram aos milhares pelas violentas estradas brasileiras. Havia uma estranha luminosidade avermelhada no ambiente e o calor estava ainda mais intenso do que antes.  Peguei meu cantil na esperança de que nele sobrara um pouco d&#8217;água mas, pra minha tristeza, não restara nem ao menos uma única gota. Havia um senhor perto da cruz e em seu rosto havia um sorriso discreto e enigmático.</p>
<p>Eu estava curioso e então eu perguntei ao senhor:</p>
<p>__Por favor, senhor, pode me dizer onde estou?</p>
<p>__Por enquanto, assim como todos os ainda vivos, você está entre aquilo que deixou para trás e aquilo que encontrará à frente.</p>
<p>A resposta era estranha, enigmática e me deixou ainda mais curioso. E como era de meu interesse descansar um pouco mais, resolvi entrar no jogo daquele senhor e lhe fiz um segunda pergunta, totalmente baseada na resposta que ele dera antes.</p>
<p>__Se os ainda vivos estão entre aquilo que deixaram para trás e aquilo que encontrarão à frente, onde estão os mortos?</p>
<p>__Os mortos estão naquilo que deixaram para trás.</p>
<p>Havia alguma sabedoria nesta resposta e fiquei calado por alguns instantes refletindo sobre ela. Por minha cabeça passava uma multidão de pensamentos. Tentei expressar todos estes pensamentos numa única pergunta:</p>
<p>__Há tantas pessoas que vivem aprisionadas em seus passados que falam sobre isso o tempo todo. Falam tão intensamente do passado que parecem querer revivê-lo. Enfim, falam daquilo que deixaram para trás. Onde estão estas pessoas?</p>
<p>__Que importa que o coração ainda bata, que o sangue ainda circule ou que a respiração ainda ocorra? Se estas pessoas estão naquilo que deixaram para trás, estão mortas também.</p>
<p>Eu estava surpreso com a sabedoria contida naquelas palavras. Havia nelas toda uma concepção de vida. E quão poucas palavras foram usadas. Sempre admirei aqueles que resumem uma grande sabedoria num pequeno número de palavras. Entretanto, havia chegado a hora de partir pois eu já me sentia forte o suficiente para continuar pedalando. Despedi-me do senhor com quem estava conversando. Entretanto, este pediu-me para que eu ficasse um pouco mais. Disse-lhe que não podia pois meus amigos já estavam muito à frente e eu tinha que alcançá-los antes do anoitecer. Mas ele insistiu e parecia, pelo tom de voz e pelas palavras que usava, que tentaria me convencer a ficar um pouco mais em sua presença custasse o que custasse. Todavia, depois de alguns instantes, eu não mais dei ouvidos à sua insistência e montei em minha bicicleta com o o intuito de pedalar o mais forte possível a fim de vencer aquela reta infernal. Porém o senhor segurou meu braço com força e quando eu olhei para baixo para ver sua mão me deparei com algo que eu não esperava ver: não era uma mão que me segurava e sim uma pata grosseira que terminava em garras afiadas. Assustei-me com aquilo e, logo em seguida, voltei a fim de olhar para o rosto do senhor que poucos momentos antes parecera tão sábio&#8230;</p>
<p>Vi algo que não deveria ver! De alguma forma o ancião de olhar pacífico se metamorfoseara numa criatura grotesca e de olhar diabólico. Quantos sentimentos existiam naquele olhar? Quanta angústia e desespero havia em cada um daqueles olhos? Ali, ao lado de mais uma dessas incontáveis cruzes a indicar mais uma infelicidade nas violentas estradas brasileiras, jazia mais um fantasma infeliz, condenado a permanecer ao lado da pequena cruz que carregava seu nome e aprisionado, talvez para todo o sempre, àquilo que deixara para trás no trágico acidente que tirou  sua vida. Um átomo de um instante fora suficiente para minha intuição perceber isso, e uma fração disso fora suficiente para me encher de terror.</p>
<p>Reuni toda a força que ainda me restava para escapar das garras do fantasma e comecei a pedalar o mais rápido que pude. O pânico fortaleceu minhas pernas e em pouco tempo eu conseguira me afastar do fantasma. Entretanto, depois de alguns momentos, uma névoa penetrou em meus olhos, embaçando minha vista, e uma tontura fez-me cair&#8230;</p>
<p>Acordei no acostamento de uma reta enorme um pouco antes da fronteira do Piauí com o Ceará. Uma nuvem benfazeja trouxera um pouco de umidade. Ela cobrira o forte sol, e a sombra que trouxera junto com a garoa acordaram-me de meu desfalecimento. Eu estava próximo a uma cruz de beira-de-estrada. Havia algumas lembranças em minha cabeça. Eu desmaiara devido ao forte calor mas algo me dizia que o desmaio não fora longo. No entanto, neste pouco tempo, o “sonho” que eu tivera fora muito real.</p>
<p>Ao cair da noite eu reencontrei meus amigos muitos quilômetros à frente da reta infernal que parecia não ter fim. Eles me perguntaram porque eu demorara tanto. Eu preferi não lhes contar a verdade pois eu ainda estava muito confuso e assustado com o que tinha acontecido. Contei-lhes somente que havia parado para descansar. No dia seguinte, seguimos viagem em direção ao nosso destino. Meus amigos estranhavam meu silêncio. Não havia muito o que falar. Ficar em silêncio era realmente a melhor coisa a fazer. Adiante de nós havia muitas cruzes de beira-de-estrada. Quantas jornadas foram interrompidas bruscamente? Quantos milhares não chegaram a seus destinos? A cada cruz de beira-de-estrada, uma história triste e horripilante. Seguíamos a frente. Mas eu sabia que éramos observados a todo tempo por aqueles que ficaram naquilo que deixaram para trás.</p>
<p style="text-align: right;">Orestes Jayme  Mega 23/02/2011</p>
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		<title>O FANTASMA LATRINÁRIO</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Feb 2011 17:45:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Orestes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“O bolso está cheio, a consciência está limpa”. Foram exatamente estas palavras que um pai utilizou para ensinar a seu filho a realidade da vida. O filho abaixou a cabeça ao ouvir a sabedoria  de seu pai. Em seu coração existiam outras ideias, mas seu pai fora bastante claro para em demonstrar que todas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } -->“O bolso está cheio, a consciência está limpa”. Foram exatamente estas palavras que um pai utilizou para ensinar a seu filho a realidade da vida. O filho abaixou a cabeça ao ouvir a sabedoria  de seu pai. Em seu coração existiam outras ideias, mas seu pai fora bastante claro para em demonstrar que todas elas eram bobagens. “Existem dois tipos de pessoas no mundo”, disse o ancião, “aquelas que  lutam pelo conteúdo de seus bolsos e aquelas que lutam pelo conteúdo de suas consciências. Estas últimas são sempre derrotadas. A vitória há sempre de ser dos primeiros. Aprenda uma coisa desde já, meu filho, ter escrúpulos é ter obstáculos; não tê-los é ser livre para lucrar.”</p>
<p>O ancião sabia muito bem o que falava. Prefeito de uma cidade no semi-árido nordestino, ficara rico desviando verbas públicas. Homem de seu tempo e lugar; homem bem sucedido que não guardava ilusões sobre a vida, agora ensinava a seu filho, um jovem idealista, sonhador e idiota, a também lançar fora todas as ilusões. O ancião pretendia tornar seu filho um homem bem sucedido também, mas para isso precisava ensinar mais coisas ao jovem:</p>
<p>“Meu filho, em minha vida eu menti, roubei, subornei, fui subornado, corrompi, enganei, trapaceei e mandei matar três pessoas, e o que consegui com tudo isso? Hoje sou um homem bem sucedido, admirado, invejado. Siga os mesmos passos que eu, meu filho, deixe de lado estas suas crises de consciência, essa sua  luta infantil por justiça e igualdade. Se sua consciência se atreve a sabotar os planos de seu bolso, jogue-a fora! lance para longe este peso!”</p>
<p>O jovem ouviu com atenção as palavras sábias de seu pai. Nestas palavras havia força e verdade, utilidade e bom-senso. Toda a sabedoria de uma civilização estava resumida naquelas poucas palavras. Ora, não é maravilhosa esta filosofia tão direta e pragmática? Nossa civilização erigiu-se sobre os pilares seguros desta sabedoria. Devemos estar felizes por isso.</p>
<p>Com uma expressão de desencanto o jovem dera o sinal de que entendera bem os ensinamentos de seu pai. Orgulhoso, o pai continuava a comentar sobre como  sua esperteza o fizera um vencedor.</p>
<p>Três anos se passaram e a esperteza deste homem tão bem sucedido continuava a trazer-lhe riqueza e alegria. Seu coração se deliciava com cada um de seus atos astutos. Mas, numa noite, logo após uma festa, um único tiro acabara com a vida deste inteligente homem. O barulho seco que ouvira fora seguido por uma forte dor. Alguém atirara nele pelas costas e fugira na escuridão. “A morte estava chegando, mas a vida fora plenamente vivida”, assim pensava o homem que se entregava a seus últimos pensamentos. A morte chegaria de qualquer forma mesmo. Agora seu corpo morreria e com ele tudo, absolutamente tudo, chegaria ao fim. O ancião consumira tudo o que desejou, satisfizera todos os seus desejos. Com a morte, tudo iria embora no nada.</p>
<p>Entretanto, logo depois de morrer, ele teve uma péssima surpresa. Por anos este esperto homem acreditara que não existia absolutamente nada depois da morte. A morte era um fim aniquilador, e isso era uma das razões pelas quais se fazia tão necessário consumir este curto alento chamado vida da maneira mais pomposa possível. Contudo, agora ele estava lá, do outro lado da fronteira que ele pensava ser inexpugnável. Seu corpo jazia no chão. Já não havia mais nenhuma dor nele, mas em seu espírito uma chama violenta queimava. Ele tentou voltar para seu corpo, tentou voltar para seu mundo simples e previsível, mas isso não foi possível, e ele teve que se acostumar em o fato de ser um fantasma.</p>
<p>Fome, desespero, dor, medo, raiva e, sobretudo, uma sede tão atroz que o impedia de pensar com clareza fizeram com que este recém-nascido fantasma gritasse na noite e, sem direção definida, corresse pela escuridão em busca de algum alívio. Depois de alguns instantes, chegara próxima de uma fonte de água pura e cristalina. Sem pensar, o fantasma tenta banhar-se nesta água, beber dela para aplacar sua terrível sede. No entanto, tudo o que a água pura e cristalina fez foi causar ainda mais dor ao infeliz espírito que se debatia em vão contra as queimaduras que sentia. Água pura só o fazia queimar mais. Novamente em total desespero, o fantasma grita e corre na noite, fugindo da água pura que erroneamente pensara que poderia aplacar sua sede.</p>
<p>O dia nascera mas a sede permanecia igual. A noite viera mas não houve nenhum alívio nisso. Dias e noites passaram-se sem que houvesse um mísero instante de paz para esta alma atormentada. Injustiça! Assim pensava o fantasma. Por que tanta injustiça para com uma pobre alma? Tudo seria mais fácil se a morte fosse um fim definitivo. O nada é a esperança daqueles que tem muitas dívidas.</p>
<p>Todavia, depois de muitos dias e noites de queimaduras intensas, o fantasma finalmente encontrara uma fonte de um pequeno mas bem-vindo alívio. Ele vagara por tantos lugares que, certa vez, encontrara uma grande latrina comunitária. A mera proximidade daquele poço de fedor já fora capaz de proporcionar algum alívio das intensas queimaduras que dia e noite o fantasma sentia. Esta situação de alívio fez o fantasma se aproximar ainda mais do lago de fezes. O mau-cheiro era terrível! Milhões de insetos repugnantes rastejavam naquele domínio de imundície. O fantasma sentiu um grande nojo daquele lugar, mas compreendera que era somente aquela água suja e fétida que poderia aliviar-lhe das incessantes queimaduras que sentia. Não havia escolha. Enojado mas decidido, o fantasma vai aos poucos mergulhando naquela água imunda. A repugnância que sentia fez-lhe gritar, mas mesmo esta horrenda repugnância era melhor que a dor provocada por aquele fogo que ardia sem cessar dentro de si. E o espírito atormentado chorava sua desgraça mergulhando nas fezes, urina, água pútrida e demais imundícies que havia ali. E continuou chorando por dias inteiros. Ele sempre fora tão esperto, mas agora não passava de um desgraçado infeliz.</p>
<p>Oito anos já se passaram desde o assassinato do nobre prefeito. Seu filho seguira seus passos e agora era o novo prefeito da cidade. Certa vez, o jovem ambicioso fora verificar um de seus muitos negócios num bairro distante da cidade. Mais uma obra pública super-faturada enchia seu bolso de dinheiro e seu coração de alegria. Ele estava acompanhado por um outro jovem que parecia saber muitas coisas a seu respeito. Em certo momento, o novo prefeito se aproximou da latrina comunitária em que o fantasma costumava aliviar sua dor. O fantasma percebera a aproximação e, curioso, saiu para ver o que acontecia nos arredores de seu domínio. Houve uma gota de felicidade (se é que isso é possível!) em meio ao mar tristonho em que aquele espírito condenado estava afogado. Seu filho estava ali, há poucos passos de distância. E o fantasma aproximou-se o bastante para poder ouvir o que estavam conversando.</p>
<p>O jovem que acompanhava o novo prefeito estava perplexo. Perguntava como ele poderia ter feito aquilo. E a resposta o deixara ainda mais assustado. Por que, afinal de contas, o novo prefeito mandara assassinar seu pai? Não estava ele arrependido de crime tão terrível?</p>
<p>A resposta foi curta e grossa (e alguns diriam, sábia):</p>
<p>“O bolso está cheio, a consciência está limpa.”</p>
<p style="text-align: right;">Orestes Jayme Mega 13/10/2010</p>
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		<title>Sonhos Traídos</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Dec 2010 20:47:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Orestes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Qual era a idade do senhor com quem eu conversei por mais  de duas horas? 89,90  anos? Números não interessam.  O que  realmente importa é que aquele senhor acumulara  uma sabedoria  profunda e bela.  Eu o encontrara sentado numa cadeira de balanço na calçada em frente à sua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Qual era a idade do senhor com quem eu conversei por mais  de duas horas? 89,90  anos? Números não interessam.  O que  realmente importa é que aquele senhor acumulara  uma sabedoria  profunda e bela.  Eu o encontrara sentado numa cadeira de balanço na calçada em frente à sua casa, numa  das ruas mais tranqüilas  de São Raimundo Nonato,  por volta da meia noite enquanto eu  perambulava insone pela cidade. Atanásio era seu nome e em pouco tempo ele demonstrou ser uma companhia  agradável. De sua história o que soube é que em sua juventude ele fora estudante do célebre psicólogo Carl  Gustav Jung e durante muitos anos manteve  uma clínica  que  usava  um método psicoterapêutico conhecido como “a terapia da Fênix”. Ele gostava de conversar  sobre assuntos incomuns  e inquietantes, e como eu estava inquieto, ouvia aquele senhor gentil e sábio  com a mais verdadeira  admiração.</p>
<p>Minha inquietação surgira de um sonho que eu havia  abandonado, um alto e nobre ideal que  me motivara  por anos mas que agora jazia esqecido    em minhas lembranças por acreditar que era irrealizável. Se antes este ideal guiava meus passos para o futuro,  agora era passado, uma recordação em minha vida e nada mais.  Não era o primeiro sonho que eu abandonara.   Muitos outros  foram igualmente deixados para trás.Não sei se  foi por intuição ou por algum outro motivo, mas fiquei muito surpreso quando o velho sábio senhor começou a falar exatamente sobre minha inquietação. Com a voz ponderada e calma de quem já muito ensinou, ele disse:<br />
<em>“um sonho, quando traído, se transforma em pesadelo e, à noite, fica a vagar  aquele  que um dia o sonhou, desejando tornar-se sonho novamente. Um sonho bonito, um alto ideal, tem sua morada no plano astral superior. No entanto, depois de traído, ele cai para o plano astral inferior, onde passa a conviver com vilanias, mentiras e màs-intenções. Ai deste sonho e ai de seu sonhador. Estarão indelevelmente ligados para sempre. E esta relação marcada pelo ódio é terrivelmente destrutiva devido ao enorme rancor. O que pode existir de mais rancoroso  que um sonho abandonado?  Nós podemos abandonar os sonhos mas os sonhos não nos abandonam. Por mais que tentemos,  os sonhos não podem ser destruídos. Suas cinzas perambulam  em brisas etérias e seus fantasmas se arrastam em nossa direção, escapando dos túmulos em que pensávamos tê-los sepultados. Em coisas horríveis eles se transformam. Tão horríveis que não devem receber nenhum nome. Eles devem se tornar, enfim, em algo inominável.”</em><br />
O que o velho me dissera  me incomodara bastante. Não me agradava a idéia de que tudo aquilo que abandonara me espreitava com ódio. Mas eu estava  convencido que é só uma idéia absurda esta de que nossos antigos ideais e sonhos nos perseguem.<br />
Continuei a conversar com o velho e em determinado momento ele dissera que era possível ver todos os ideais e sonhos que abandonamos. Segundo ele, tudo se resume na intenção de se ver. Nada há de mais intencional que o olhar. Quando devidamente exercitada a visão humana é capaz de ver o que antes julgávamos  invisível ou inexistente,  e tudo depende da vontade do observador. A ênfase com que aquele senhor  me dizia tais coisas despertou minha curiosidade e em pouco tempo eu estava lhe pedindo para me ensinar a ver aquilo que não conseguia ver.<br />
Aquele velho sábio já ensinara muitas pessoas a atingirem seus objetivos e a descobrirem coisas fantásticas. Não foi para ele difícil me transmitir seus profundos e fascinantes conhecimentos. Sempre calmo e atencioso, com uma enorme paciência e bondade,  o ancião me ensinara num tempo admiravelmente curto, a sabedoria de enxergar além do véu da banalidade que não nos permite ver a realidade por inteiro, mas somente a parte mais desprezível dela.<br />
Agora eu tinha  os olhos treinados para ver o fantástico por trás do banal, agora eu  poderia enxergar o  que está realmente acontecendo. E munido desta nova habilidade seu me despedi do velho e  comecei a perambular pelas ruas vazias e silenciosas de São Raimundo Nonato a fim de exercitar minha nova visão.<br />
E não demorou muito para que eu visse um desses sonhos abandonados que perambulavam pela noite. De longe parecia uma pessoa, mas quando me aproximei, minha intuição me indicou que aquilo que estava diante de meus olhos se parecia muito mais  com um fantasma de uma idéia morta do que uma pessoa viva. O velho dissera a verdade, o fantasma  de uma  idéia realmente se transforma em algo horrível.  O rosto disforme e desesperado, os braços mais longos que o normal e muito finos, os mais de dois metros de altura, os trajes velhos e sujos, os olhos fundos, sem brilho, sem vida e sem descanço, e como se isso não bastasse, a  atmosfera espectral que cerca esta criatura infeliz e raivosa envolve o observador, o deixando igualmente desesperado.<br />
O espectro arranhava a porta da pessoa que um dia o sonhou. Sim, aquela coisa horrenda  e disforme um dia já foi um sonho bonito, um alto ideal, mas fora abandonado, esquecido e obrigado a conviver com más-intenções, e agora ele estava ali, diante da porta de seu antigo sonhador, mas agora  sob a forma de pesadelo, sentindo a insaciável vontade de tornar-se sonho novamente, e eu sabia, com minha intuição aguçada, que aquele fantasma era o de um livro não escrito, abandonado logo nas primeiras páginas.<br />
Segui adiante e não demorou muito para que visse outros pesadelos perambulando pelas ruas à procura de suas vítimas. Eu vi criaturas aladas  de juramentos quebrados, figuras armadas de revoluções esquecidas, cortejos medonhos de promessas desfeitas e vermes rastejantes de altos ideais que foram traídos em troca de dinheiro e poder. E eram tantos sonhos irrealizados que eu não mais podia contar. Alguns deles batiam  nas portas de seus antigos sonhadores, outros andavam pelos telhados das casas. Alguns outros observavam pelas janelas e não poucos simplesmente ignoravam portas e paredes e entravam e saíam das casas simplesmente passando pelos obstáculos como se eles não existissem.  E assim eles iam até o leito de seus  antigos sonhadores, atormentando seus sonos e sonhos, e junto de todos estes fantasmas havia sempre a presença pestilenta das mentiras, vilanias e más-intençoes, sob as mais variadas formas de criaturas grotescas. Quão horrendo é  um alto ideal carcomido pela mentira! Quão triste é um sonho bonito devorado pela vilania! Quão destrutivas e desgraçadas são as más-intenções .<br />
Depois de ver tantos horrores pela cidade, decidi voltar para minha casa. Não queria mais ficar ali, observando tanto rancor e ódio,  tanto desespero acumulado e tantos rostos distorcidos. Contudo, logo me veio à mente que eu também abandonara tantos sonhos bonitos,  traíra tantos ideais que, sozinho, poderia habitar a cidade inteira. Não!  Eu não podia voltar! Quantos fantasmas estariam me aguardando em minha casa? Que multidão espectral estaria a minha espera ao redor de minha cama?  Maldito momento em que aprendera a ver o mundo desta nova maneira!<br />
Passei todo o restante da madrugada observando sonhos mortos até que o sol raiasse e os antigos sonhadores  começassem a acordar  e seus  antigos sonhos  começassem a  dormir. Agora sim eu poderia voltar para casa. Afinal de contas , meus antigos sonhos também deveriam  ter ido dormir.  E  assim eu retornei  ao lar, disposto a desaprender  esta maldita forma de ver o mundo. No entanto,  ao abrir a porta de casa, com quem me deparo?!<br />
Meus antigos sonhos  não dormiram. Ficaram acordados me esperando. E que a assembléia terrível!  Seriam  eles duzentos, trezentos talvez?  Tão logo entrei  a multidão espectral me arrastou ao meu leito ( sim, eles me seguraram e me deitaram na cama) me dando ordens para que eu dormisse, sem se esquecerem de me desejar bons  sonhos&#8230;</p>
<p style="text-align: right;">Orestes Jayme Mega 26 de fevereiro de 2009</p>
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		<title>A TERAPIA DA FÊNIX</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Oct 2010 20:01:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Orestes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Muitos dizem que não existe cura para as diversas angústias que nos afligem no curso da existência, somente alívio. O doutor Atanásio concordava parcialmente com tal afirmação. Embora ele não negasse que a vida é em si uma situação angustiante e que o ser humano é um ser humano é um ser destinado a viver [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } -->Muitos dizem que não existe cura para as diversas angústias que nos afligem no curso da existência, somente alívio. O doutor Atanásio concordava parcialmente com tal afirmação. Embora ele não negasse que a vida é em si uma situação angustiante e que o ser humano é um ser humano é um ser destinado a viver em perpétua crise, ele também acreditava que era possível encontrar uma cura definitiva para aqueles “tormentos” que vez ou outra aprofundam ainda mais a agonia da vida. E como eu passava por um desses tormentos, decidi procura-lo, disposto a entregar-me totalmente a sua assim chamada “terapia da fênix”.</p>
<p>O tormento que me afligia torturava-me tanto durante o sono quanto em estado de vigília. Dia e noite eram dedicados a pensar numa única coisa, numa perda irremediável que deixara uma ausência em meu espírito. Eu acordava sentindo tal ausência e esta mesma ausência preenchia todo meu dia. Como se não bastasse, o significado profundo desta ausência igualmente preenchia minhas noites e meus sonhos. Meu objetivo ao buscar o doutor Atanásio era acabar definitivamente com esta dor.</p>
<p>Entretanto, que susto levei ao ouvi-lo dizer depois de lhe ter exposto tudo o que sentia, que não era eu que deveria acabar com a dor, mas era a dor que deveria acabar comigo.</p>
<p>Eis a essência da terapia da fênix: deixar-se reduzir às cinzas pelo tormento para depois ressurgir das cinzas livre do tormento. Segundo a teoria do doutor Atanásio, a mente ressurge das cinzas porque tem uma existência em si. Já o tormento não tem uma existência em si, e portanto, ao ser reduzido às cinzas junto com a mente, não volta a existir.</p>
<p>Estranhei esta terapia, mas decidi aceitar o tratamento, e como tinha pressa em curar-me, aceitei ficar internado na clínica até alcançar a cura completa.</p>
<p>Grandes corredores vazios e labirínticos, salas abandonadas e silenciosas, pátios internos e jardins floridos. Eis a clínica onde eu, sozinho, passei não sei quanto tempo em meu tratamento. A solidão era quase constante, exceto pela visita semanal que o doutor fazia para avaliar minha situação. Ele insistia que a cura só poderia ser alcançada por mim mesmo. Ele seria somente um guia a orientar meus passos e fazer avaliações periódicas de meu estado mental.</p>
<p>A primeira semana que passei na clínica foi solitária. Vagar sem rumo pelos corredores labirínticos era minha atividade mais constante. Nesta semana de solidão meu tormento crescera bastante. O doutor deixara claro, na visita que me fizera, que eu deveria ir um pouco além do insuportável para encontrar a cura, e o insuportável não estava distante.</p>
<p>Quantas semanas passei na clínica, não sei ao certo. Tudo o que sei é que a cada dia que passava eu cada vez mais me desfazia em cinzas, e se antes era somente a solidão que me atormentava, agora tudo fazia lembrar meu tormento. O doutor preparara toda a clínica para que toda ela me angustiasse o máximo possível. Eu estava cercado por angústia e não havia para onde fugir. Desfazer-me em cinzas era a única forma de escapar de minha situação, de encontrar algum alívio. Mas que tipo de alívio é este que causa ainda mais dor? Que tipo de cura psíquica é esta que exige o aniquilamento da sanidade? Insanamente correndo através dos corredores e me refugiando em salas vazias e mal-iluminadas, assim eu passava meus dias e minhas noites. O doutor, em suas visitas, encorajava-me dizendo que logo eu estaria curado.</p>
<p>Amanhecera mais um de meus dias torturantes. Pressenti, desde o primeiro raio de sol, que este seria o último dia de minha mente. Antes do próximo amanhecer minha personalidade estaria desfeita em pó. O doutor pressentira isso também e aumentara ainda mais a intensidade de meu tormento, preparando toda a clínica para me destruir totalmente. Eu estava refugiado numa sala escura e fria. Um límpido facho de luz entrava pela janela estreita da sala mas não tinha força para ilumina-la toda. A luz da razão dentro de mim também estava fraca. Mais um pouco e ela se apagaria por completo.</p>
<p>O processo de desfazer-se em cinzas é lento e doloroso e paradoxalmente exige da pessoa mais do que ela pode oferecer. É necessário ir além das próprias forças para se alcançar a rendição total. A sensação que se tem é a de desfragmentar-se e se deixar levar por uma torrente de angústias. Não reagir é parte do processo.</p>
<p>Não sei deizer por quantas horas permaneci agachado num dos cantos daquela sala escura e fria. Tudo o que sei é que toda minha vida perdera o sentido. Não havia um porque existir, e foi justamente deste vazio existencial que percebi, num lapso de sanidade, que se eu mergulhasse no abismo profundo do questionamento de minha própria existência, encontraria, por fim, a cura tão almejada. A existência passa a ter algum sentido quando nós a questionamos e as angústias se tornam menores assim que tomamos consciência de que não as devemos destruir, mas deixar com que elas nos destruam. Era isso que o doutor sempre me dizia mas só agora eu compreendera.</p>
<p>Toda angústia é um questionamento feito à existência de uma pessoa. Quando os questionamentos são profundos, igualmente profundas são as angústias e sua destrutividade é benigna pelo simples fato de não nos permitir continuar os mesmos. Quando uma angústia nos destrói totalmente, quando ela nos reduz a cinzas, uma nova vida e um novo destino se abrem para nós ao mesmo tempo que a angústia que nos destruiu deixa de existir por ter sido superada. E com isso em mente me entreguei completamente ao doloroso processo de me desfazer em cinzas.</p>
<p>Tudo se resume a um novo nascimento. A insegurança, o medo, a dor, o vazio e por fim a aniquilação redentora que mata a fim de curar e transformar. E que dolorosa transformação! Nos aniquilamos quando tudo em nós é colocado em dúvida e nos reduzimos a cinzas quando somos obrigados a negar para nós mesmos tudo o que antes afirmávamos. E eu neguei, uma-a-uma, toas as minhas antigas verdades, e da total negação de mim mesmo surgira a afirmação de um novo destino.</p>
<p>Estava completa, enfim, a terapia da Fênix.</p>
<p>Orestes Jayme Mega 02/01/2009</p>
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		<title>O HOMEM SOLITÁRIO E O VELHO DO PORÃO</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Aug 2010 20:04:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Orestes</dc:creator>
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Nove eram os habitantes de uma velha mansão mal-cuidada e sombria. Entre estes nove habitantes, somente um era real. Todos os outros oito eram criações da imaginação de um homem solitário que caminhava sem destino pelos cômodos empoeirados e silenciosos de uma morada onde, há realmente muito tempo, não se ouvia um diálogo.
Embora diálogos não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } --></p>
<p lang="pt-BR">
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Nove eram os habitantes de uma velha mansão mal-cuidada e sombria. Entre estes nove habitantes, somente um era real. Todos os outros oito eram criações da imaginação de um homem solitário que caminhava sem destino pelos cômodos empoeirados e silenciosos de uma morada onde, há realmente muito tempo, não se ouvia um diálogo.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Embora diálogos não houvessem, nem por isso palavras deixavam de ser pronunciadas no interior da mansão que jamais em sua existência conhecera uma festa. Estas palavras faziam parte de duradouros e intensos monólogos com os quais o homem solitário se entretia. Ao que se sabe, estes monólogos tiveram início assim que o homem solitário começou a criar amigos imaginários para lhe fazer companhia.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Estes amigos imaginários foram criados para ocuparem, preferencialmente, cômodos específicos da grande mansão. Contudo, nada os proibia de caminharem por toda a casa. Cada uma destas pessoas imaginárias teve sua imagem e personalidade moldadas a partir das sensações que os cômodos davam ao homem solitário. Assim, ao amigo imaginário que ocupava a cozinha, foi imaginada uma aparência obesa e deselegante. Seu comportamento era o de um homem glutão cuja grande felicidade consistia em saborear as novas receitas que inventava. Toda vez que o homem solitário tinha fome, ele ia à cozinha e se encontrava com seu amigo obeso, glutão e imaginário. Lá, eles conversavam longamente sobre os prazeres de uma boa refeição. Por diversas vezes o homem glutão ensinou ao seu criador e amigo as receitas que ele desenvolvera. Pura ilusão! Na verdade todas as receitas tinham sido criadas pelo próprio homem solitário. Mesmo os intensos e alegres &#8220;diálogos&#8221; que animavam a cozinha na hora do jantar não passavam de enlouquecidos monólogos pelos quais o criador dava vida a sua criatura.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Na sala de estar, uma figura cheia de soberba e elegância reinava como uma majestade desejosa de mostrar sua opulência aos que viessem visitar seu reino. Esta figura era a de um homem alto, imponente, jovem e enérgico que, sentado numa poltrona velha e suja, imaginava-se num trono real e belíssimo. Era bem verdade que este homem impulsivo e imaginário sabia muito bem que seu reino era somente uma sala de estar. Mas ele gostava de se imaginar um rei e gostava que todos o tratassem como tal. O homem solitário obedecia aos caprichos deste seu amigo imaginário e orgulhoso. As longas e animadas conversas entre os dois costumavam ter por tema o orgulho pelas realizações pessoais e a grande felicidade da existência. Gargalhadas estridentes e expressões de bravata emergiam a todo momento das bocas deste dois homens infundadamente orgulhosos. Ora, por quais motivos eles deveriam ser orgulhosos? Nenhum deles tinha feito alguma coisa que merecesse ser lembrada. Um deles era somente um homem solitário que vivia numa mansão caindo aos pedaços, e o outro não passava de um amigo imaginário criado para fazer companhia a um homem que não tinha nenhuma outra companhia a não ser a da sua própria imaginação.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Ligando a sala de estar à biblioteca havia um grande e mal iluminado corredor. Lá, um homem de semblante perpetuamente preocupado caminhava de um lado para outro. Era um homem de meia-idade que vivia ocupado em achar uma solução para seus problemas financeiros. Era um economista formado por uma universidade famosa e imaginária. Igualmente imaginária era sua existência. Ele não passava de mais uma criação do homem solitário que o colocara ali naquele corredor a fim de poder conversar com alguém sobre economia. Nem sempre criador e criatura concordavam sobre importantes questões financeiras. O economista insistia em dizer que o homem solitário não estava administrando bem o pequeno orçamento da mansão. Por diversas vezes a discussão entre ambos foi violenta. Exaltados que eram em mostrar que tinham razão, os dois discutiam com freqüência e intensidade. Contudo, quase sempre chegavam a um consenso. Apesar de discordarem em muitas coisas, os dois eram amigos e, como amigos, podiam ser sinceros um com o outro. Na verdade estas discussões não passavam de um nervoso monólogo do homem solitário que, durante horas seguidas, caminhava de um lado para outro no grande corredor.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">O grande corredor dava acesso à biblioteca da mansão. Lá, entre as estantes repletas de livros dos mais variados gêneros, um homem magro e de cabelos grisalhos passeava constantemente conferindo se colocara os livros nas posições certas. Ele também era imaginário. Quando a insônia atormentava o sono do homem solitário, ele costumava ir à biblioteca e encontrar o amigo que colocara ali como se fosse um guardião dos livros. Os dois conversavam por toda a madrugada sobre os livros que existiam ali. O homem magro, imaginário e grisalho dava dicas ao seu criador sobre quais livros este deveria ler. A amizade entre estes dois homens dotados de uma profunda e inútil cultura era realmente algo de se admirar. Geralmente os dois concordavam sobre tudo e o homem solitário realmente sentia um grande afeto por seu amigo. Entretanto, tão bela amizade era completamente falsa. Ela não passava de uma farsa criada pela imaginação do homem solitário. Uma farsa bem criada.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">No andar superior da mansão ficavam os quartos. Eram três grandes quartos no total. Num deles dormia o homem solitário. Nos outros dois dormiam duas criaturas imaginárias. Uma destas criaturas era um homem de cerca de 25 anos de idade que passava dia e noite a exercitar seu corpo. Este homem era um atleta que gostava de utilizar o grande espaço do quarto em que passava a maior parte do tempo para fazer exercícios. O homem solitário o visitava de vez em quando. Conversavam sobre esportes. O atleta gostava de dizer ao seu criador e amigo o quanto se exercitara desde a última vez que conversaram. O homem solitário sempre reclamava que já fazia muito tempo que não se exercitava.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">No quarto ao lado vivia um poeta. Sujeito imaginativo e imaginário. Sempre estava criando alguma coisa. Sempre estava entretido na criação de um poema. Aparentava ter 35 anos de idade. Ao que parece, ao chegar na metade da vida, parou de se preocupar com as coisas banais com as quais se preocupara na primeira parte de sua existência e decidira, a partir de então, ocupar toda a segunda e última parte de sua vida a se preocupar com as coisas realmente importantes. Era, por temperamento, tão solitário quanto o homem que o imaginara. Ambos, criador e criatura, se davam muito bem. Conversavam muitas horas sobre poesia e demais assuntos que exigem profundidade e sentimento. O poeta gostava de recitar seus poemas para o velho solitário. Este, por sua vez, gostava de ouvir as criações de seu amigo. Tais poemas eram pura imaginação. Não existiam de fato. E tais conversas entre o homem solitário e o poeta também não existiam. Eram também pura imaginação.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">No espaçoso sótão da mansão vivia um homem muito ocupado em observar o céu através de uma janela que, por felicidade do destino, ficava diante de onde o sol nascia. Por esta janela era possível ver os primeiros raios de sol tocarem a mansão. Este homem também era um poeta e também era imaginário. Para falar a verdade, ele era um &#8220;quase-poeta&#8221;, pois jamais escrevera um único verso. Sua condição de &#8220;quase-poeta&#8221; era devido ao fato de viver inspirado mas não ter a habilidade necessária para escrever. Ele vivia maravilhado com o que via pela janela e tinha o costume de passar o dia inteiro ali. O homem solitário subia com freqüência ao sótão para conversar com este seu amigo imaginário. Costumavam ser longas e proveitosas as conversas entre os dois. A luz do sol era um dos assuntos prediletos de ambos. A claridade que invadia o sótão através da janela era realmente magnífica e os dois amigos gostavam de conversar sob esta claridade tão amigavelmente quente. Contudo, o que havia de real ali era somente o homem solitário e a luz do sol. O restante do sótão era um grande espaço vazio habitado por mais ninguém.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Por fim, no recanto mais sombrio e esquecido da mansão, vivia a mais tristonha e solitária criatura que o homem solitário imaginara. Tal criatura era um velho amargurado e infeliz, descrente da possibilidade de um dia encontrar uma justificativa para sua existência. O lugar que esta criatura patética ocupava na mansão? O pouquíssimo visitado porão. Eram raras as visitas do homem solitário ao velho que ele abandonara à própria sorte no porão da mansão. Todavia, sempre que se encontravam, estas duas criaturas monologantes dialogavam durante muito tempo.Os diálogos eram tensos pois era raro que ambos concordassem sobre algum assunto. Tal discordância era em grande medida devido ao fato de que o homem solitário impedira o velho do porão de sair do cômodo em que fora imaginado. O velho odiava o pequeno e escuro lugar em que estava aprisionado. A única luz que havia ali era o de uma pequena lâmpada de luminosidade vacilante e amarelada. Uma velha cadeira de balanço repousava num dos cantos do porão e nela o velho passava a maior parte do tempo. Por meses inteiros o homem solitário se esquecia de visitar o velho do porão. Este, por sua vez, nos momentos de maior desespero, tentava encontrar um meio de fugir de seu claustro. Por diversas vezes ele tentou arrombar a única porta que dava acesso ao porão mas, por não ter força suficiente e nem as ferramentas apropriadas, ele acabou por desistir. Suas longas horas solitárias eram preenchidas por um profundo questionamento: Por qual razão ele havia sido criado? O homem solitário jamais respondeu ao velho do porão esta pergunta que lhe fora muitas vezes feita. Às vezes, quando os demais amigos imaginários do homem solitário se reuniam próximo ao porão, o velho tinha a oportunidade de escutar o que eles conversavam. Deste modo, ele ficou sabendo que eles planejavam sair da mansão e deixar o criador e o velho do porão sozinhos. Nenhum dos outros amigos imaginários nutria alguma simpatia ou piedade ao velho do porão. Para eles, o velho não passava de um imprestável que tudo o que fazia era pedir por ajuda quando percebia a presença deles. Nenhum dos outros amigos imaginários cogitou ajudar o velho do porão.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Num certo dia, assim que amanheceu, o homem solitário procurou por seus amigos imaginários. Começou sua busca pelo glutão que habitava a cozinha. Não o encontrou lá. Talvez, pensou o homem solitário, ele tivesse ido conversar com algum outro amigo imaginário num outro cômodo da mansão. Assim, ele se dirigiu à sala de estar onde esperava encontrar seu amigo soberbo. Também a este não encontrou. Dirigindo-se apressadamente à biblioteca, o homem solitário passou pelo longo corredor sem encontrar nenhum vestígio do economista que ele criara para ocupar este lugar. Já preocupado com a situação, o homem solitário adentra a biblioteca esperando encontrar todos ali reunidos. Todavia, ninguém havia na biblioteca, nem mesmo o homem magro e de cabelos grisalhos. Sem perder tempo, o homem solitário dirige-se ao andar superior da mansão. Talvez todos estejam reunidos num dos quartos. O quarto do atleta foi o primeiro a ser visitado. Não havia ninguém lá. O quarto ao lado, o quarto do poeta, era um bom lugar para uma reunião. Contudo, nenhuma reunião estava em andamento lá, tudo o que havia ali era um grande espaço vazio. Quase em desespero, o homem solitário vai rapidamente em direção ao sótão. &#8220;Estão todos ali, em reunião solene e organizada para preparar uma agradável surpresa àquele que os criou&#8221; assim pensa o pobre homem solitário. Entretanto, ao abrir a porta, não vê ninguém. Tudo o que há ali é a graciosa e cálida luz do sol que, através da janela, invade e ilumina todo o cômodo.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Por toda manhã, tarde e noite o homem solitário percorreu a casa procurando por seus amigos imaginários. Não os encontrou. Não havia nenhum sinal deles. O dia seguinte foi inteiramente dedicado a busca por seus amigos. Também este dia terminou de maneira frustrante. Onde eles estariam? Estariam escondidos em algum lugar pregando uma peça ao seu criador? Por fim, depois de uma semana de procura e de fracasso, o homem solitário decide visitar o porão da mansão. Quem sabe todos seus amigos imaginários estariam lá reunidos com o velho do porão? Confiante ele seguiu ao cômodo mais esquecido da grande casa onde vivia. Ao abrir a porta do porão, tudo o que o homem solitário encontrou foi a bagunça e poeira típicas de um lugar poucas vezes visitado e, num dos cantos, a velha cadeira de balanço que ele esquecera lá há muito tempo atrás. Sentado nela estava o velho do porão. Amargurado por não ter encontrado seus outros amigos imaginários, o homem solitário pergunta ao velho:</span></p>
<p lang="pt-BR">
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;"><em>__Onde estão os outros?</em></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><em>__Foram todos embora. Deixaram-nos sós. </em></span><span style="font-size: small;">Respondeu o velho</span><span style="font-size: small;"><em>.</em></span></p>
<p><span style="font-size: small;"><em>__Como você sabe que foram embora? </em></span><span style="font-size: small;">Retrucou o homem solitário.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">__</span><span style="font-size: small;"><em>Eu os ouvi planejando isso. Todos eles se reuniram aqui perto para planejar a fuga. Numa decisão solene e unânime, decidiram todos irem embora</em></span><span style="font-size: small;">. Respondeu o velho.</span></p>
<p lang="pt-BR">
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">O homem solitário, ao ouvir isso, ficou desconsalado e, sem mais fazer perguntas ao velho do porão, fechou a porta, trancou-a e voltou para seu quarto.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Uma outra semana se passou e a solidão do homem solitário se tornou ainda mais amarga. Suas próprias criações o haviam abandonado. Como isso poderia ter acontecido? Como o criador poderia ser abandonado por suas próprias criaturas? O homem solitário criara cada um de seus amigos imaginários. Dera a cada um deles uma imagem, uma personalidade e até mesmo um domínio dentro da mansão. Mas será que isso não era o bastante? O que mais poderiam desejar?</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Descobrindo-se mais solitário do que nunca, o homem solitário decide visitar o único amigo imaginário que lhe restou. Ao abrir a porta do porão, ele avista seu velho amigo, com um olhar distante e apático, sentado na cadeira de balanço.</span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">O velho não mais nutria nenhuma esperança de um dia sair do porão em que fora confinado. Ele não mais se desesperava com o absurdo de sua condição. O porão era o único mundo que conhecia. Era o mundo em que seu criador o criara. E agora seu criador estava diante de si e lhe dirigia a palavra:</span></p>
<p lang="pt-BR">
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;"><em>__Velho, todos realmente foram embora. Não há mais ninguém nesta casa a não ser eu e você. Estamos sozinhos. Vamos conversar?</em></span></p>
<p lang="pt-BR">
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">O velho do porão olhou para seu criador e, apático como se acostumara a ser, respondeu:</span></p>
<p lang="pt-BR">
<p><span style="font-size: small;">__</span><span style="font-size: small;"><em>Faça um favor para nós dois, deixe-me sozinho.</em></span></p>
<p lang="pt-BR">
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">O homem solitário ficou profundamente surpreso. Ele não esperava receber aquela resposta do único amigo imaginário que lhe restara. Sem questionar as razões do velho, ele simplesmente fechou a porta do porão, trancou-a e subiu para seu quarto&#8230;</span></p>
<p lang="pt-BR">
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Nunca mais se ouviu palavra alguma na mansão.</span></p>
<p lang="pt-BR">
<p lang="pt-BR"><span style="font-size: small;">Orestes Jayme Mega 31/08/2006 &#8211; 17/09/2006</span></p>
<p lang="pt-BR">
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		<title>A HERANÇA DE UM VELHO MAU</title>
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		<pubDate>Mon, 31 May 2010 12:05:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Orestes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A HERANÇA DE UM VELHO MAU
 
Meu avô era um homem doente, um velho senil. Quando eu era criança, ele me contava histórias tão fantásticas e aberrantes que se tornava muito difícil acreditar nele. Essas histórias eram repletas de detalhes grotescos e acontecimentos macabros. Vez após vez ele contava suas aventuras tétricas, seus delírios doentios. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><span style="text-decoration: underline;">A HERANÇA DE UM VELHO MAU</span></strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Meu avô era um homem doente, um velho senil. Quando eu era criança, ele me contava histórias tão fantásticas e aberrantes que se tornava muito difícil acreditar nele. Essas histórias eram repletas de detalhes grotescos e acontecimentos macabros. Vez após vez ele contava suas aventuras tétricas, seus delírios doentios. Dor, prazer e morte eram os componentes essenciais de todas aquelas histórias que eu, a princípio, atenciosamente ouvia. Entretanto, conforme o tempo passava e eu crescia, cresciam também em mim as dúvidas quanto à realidade daqueles relatos fantásticos e cruéis.</p>
<p>Meu avô, embora já um homem muito velho, era muito saudável e ativo. Só sua mente parecia ter sido indelevelmente atingida pela senilidade. Para falar a verdade, senilidade não era precisamente o problema que desfigurava sua mente. Desde a meia idade meu avô contava a quem quisesse ouvir as histórias brutais que mais tarde, em sua velhice, se tornaram seu único assunto. A única mudança claramente perceptível entre o estado mental de meu avô durante sua meia idade e durante sua velhice foi a obsessão por estas histórias medonhas. Conforme o tempo passava, as histórias foram aumentando em número e intensidade e seus detalhes eram contados com muito mais acuidade.</p>
<p>No entanto, como acontece a todos, meu avô morreu. Sua morte pegara minha família de surpresa pois o velho, poucos dias antes, apresentava muita saúde e disposição. Ele vivia sozinho numa grande propriedade que por várias décadas pertencera a minha família. Ele vivia sozinho pois havia sobrevivido à morte de seus muitos filhos. Os únicos parentes que tinha eram alguns sobrinhos-netos e eu. Portanto, eu fui agraciado em seu testamento com a totalidade de seus bens.</p>
<p>O velho acumulara uma pequena fortuna: uma enorme mansão já centenária e, ao seu redor, terras suficientes para se perder de vista, além de objetos raros de jaziam dentro da mansão e que, devido à raridade, valiam uma quantia realmente grande em dinheiro. No inventário do ancião louco, a mansão e as terras que a circundavam foram-me deixadas, assim como tudo o que havia dentro dela. Contudo, numa carta que o velho escrevera alguns poucos dias antes de morrer, uma declaração concedia também a mim a posse daquilo que meu avô considerava ser seu mais valioso tesouro e que estava guardado num cofre no porão da grande mansão.</p>
<p>Viajei de São Paulo diretamente para a pequena cidade de São Lourenço do Piauí onde vivera meu avô por toda sua vida e onde seria, enfim, sepultado. Não me preocupei com o velório de meu avô. Eu queria logo tomar posse de toda aquela fortuna que me aguardava. Queria logo avaliar o quanto eu ganharia com a venda da mansão, das terras ao seu redor e dos objetos raros. Sobretudo, queria logo ver o que era aquele tesouro que meu avô dizia estar escondido no cofre que jazia no porão da mansão. Eu não conseguia dormir de tanto pensar no que seria este tesouro. Meus pensamentos eram às vezes dourados como ouro e às vezes cristalinos como diamantes. Minha pressa em chegar à velha mansão ancestral de minha linhagem era aumentada toda vez que eu lia o trecho da carta de meu avô que dizia que naquele cofre esquecido ele depositara uma “riqueza fantástica”, um “tesouro sem igual”. Nesta longa viagem de minha casa até minha nova propriedade eu levara comigo duas chaves: a da porta da mansão e a do cofre tão obsessivamente desejado.</p>
<p>Finalmente, depois de muitas horas de viagem, eu chegara às terras da propriedade que eu herdara. Só depois de alguns minutos de caminhada dentro destas terras mal-cuidadas é que cheguei à mansão de meu avô. A propriedade era afastada da cidade e, além deste inconveniente, a casa, que eu julgara ser muito bonita, não passava de um pútrido cadáver do que fora antes.</p>
<p>Ruínas ou quase isso. Assim era o estado em que a casa se encontrava. Por muitos anos ninguém cuidou da manutenção da propriedade e, por isso, ela foi se deteriorando até tornar-se feia, estranha, sinistra. Em seu aspecto exterior, a mansão tinha nítidos sinais da cruel passagem do tempo. As janelas estavam num péssimo estado de conservação e os vidros estavam quase negros de tão sujos. Ao abrir a velha porta, deparei-me com o interior da casa que, como era de se esperar, não estava nada melhor que o exterior. Era pura desolação! O pó acumulara-se sobre a mobília e lá reinava absoluto. Uma espécie de limo escorregadio dificultava o caminhar. As portas e janelas apodreciam vagarosamente e por todo canto insetos saíam de suas tocas para, quem sabe, reverenciar seu novo senhor. Os objetos raros e valiosos não passavam de móveis do século XIX cobertos por tecidos igualmente antigos e abandonados. Para onde quer que eu olhasse, nada mais que decadência é o que conseguia enxergar. Sentia-me, naquele ambiente sombrio e anacrônico, como estando dentro de um cadáver. O que eu herdara era o cadáver de uma mansão! Em minha memória ainda existiam fragmentos do quão bela era esta casa. Há trinta anos eu não colocava os pés nesta morada da solidão. Há trinta anos atrás tudo era diferente. Ainda restam-me lembranças daquelas horas mágicas e sombrias em que escutava meu avô contar suas histórias macabras e cruéis. Rever estes móveis antigos onde eu, sentado sobre eles e quando apenas um menino, ouvia meu já velho avô relatar suas perversões fez-me ter a plena convicção de que mesmo um homem mentalmente são, após muito tempo inserido num ambiente corrompido, se tornará tão corrompido quanto o ambiente que o circunda.</p>
<p>Muitos eram os cômodos da casa mas, infelizmente, todos se encontravam em estado deplorável. A escada que levava ao segundo andar oferecia um risco real para todo aquele que ousasse utilizá-la. Todos os degraus estavam frágeis devido ao apodrecimento da madeira. Subir aquela escada era, sobretudo, um exercício de habilidade e paciência. Os muitos quartos da mansão não poderiam abrigar ninguém que exigisse um mínimo de conforto. A sala de jantar era um reino de ratos agressivos e orgulhosos demais para prestarem vassalagem sem antes conhecer sangrentas batalhas. Nunca vi ratos tão raivosos quanto aqueles. Eles lutavam entre si pela posse do alimento que começava a escassear. Não foi uma visão nada agradável contemplá-los. A sala de estar era o domínio de aranhas tão grandes que, talvez, tivessem por presa os agressivos e orgulhosos ratos da sala de jantar. Suas teias eram espessas e em formatos variados. Uma infinidade de diferentes espécies pude perceber. Algumas, por suas estranhas peculiaridades, pareceram-me indiscutivelmente venenosas. Enfim, por todo canto da mansão, decadência, verdadeira decomposição, completava com sombras aquele quadro já sombrio.</p>
<p>Exageros à parte, a propriedade não me valia nada, muito pelo contrário, me custaria uma fortuna reconstruir a casa e recuperar as terras.</p>
<p>Mas não me desanimei com o que vi. A casa não era minha pretensão, as terras não eram de meu interesse. Já estava em meus planos vender toda a propriedade por melhor que ela fosse. O que realmente me interessava era a riqueza “fantástica” que a carta de meu avô dizia estar no cofre. Onde estava o maldito cofre? Que riqueza eu encontraria lá? Quanto valia esta riqueza? Estas eram minhas preocupações, não a casa.</p>
<p>Procurei este cofre por todos os cantos da mansão. Esmiucei cada cômodo com uma precisão cirúrgica. Dediquei-me em minha busca com um ímpeto que jamais pensava possuir e fiquei muito frustrado quando vi a noite chegar sem que eu ainda não tivesse tocado minha rica herança. Onde, diabos, estava o cofre em que meu avô colocara o seu mais rico tesouro? Enquanto a luz do dia lentamente se rendia perante a chegada da noite, cheguei a imaginar que tal tesouro era só mais uma criação da mente doentia de meu avô. Raiva foi o que senti nestes momentos angustiantes. Eu jamais voltaria a esta mansão ancestral se não fosse para sair dela com algo valioso em minhas mãos. Contudo, mesmo com a chegada da noite, eu não desisti de procurar por minha herança.</p>
<p>Três velhas velas e um antigo castiçal empoeirado serviram-me para continuar a busca noite adentro. Eu jurara não sair dali enquanto não tivesse tomado posse de minha rica herança. Minha obsessão não me deixaria em paz se eu saísse dali sem nada de valor. Obstinadamente, revisitei cada canto da casa em que já havia procurado pelo tesouro de meu avô. Reconferi cada cômodo com uma precisão milimétrica. Esmiucei cada partícula da mansão em busca por aquele cofre tão ardentemente procurado. Nesta minha busca noturna, o trêmulo fulgor das pequeninas chamas das velas era hipnotizante. Eram guerreiras orgulhosas aquelas pequenas chamas. Digo isso porque a escuridão que imperava na mansão era atormentadoramente densa.</p>
<p>Não sei se era o cansaço; não sei se era a frustração ou o tétrico ar daquela casa. Tudo o que sei é que os cômodos pareciam maiores; os tetos mais altos; os corredores mais longos. Minha busca noturna revelou-se muito mais extraordinária do que havia imaginado. Novas surpresas me esperavam naquela casa que eu imaginava ter esmiuçado completamente durante o dia. Contudo, ao cair a noite, percebi por toda a mansão modificações que, embora sutis, eram perfeitamente perceptíveis. Uma vitalidade vinda não sei de onde parecia ter invadido a casa. Os móveis pareciam menos empoeirados, as janelas menos podres. Enfim, pareceu-me que toda a casa recobrara sua vida, sua saúde. Caminhar pelos longos corredores da mansão ancestral tendo somente a luz de três velhas velas como iluminação foi uma experiência sem dúvida inquietante. Por que, sob o manto da noite, a casa parecia tão mais apreciável? Eu ainda me questionava sobre isso quando, subitamente, deparei-me com uma porta que tinha certeza não havia visto durante o dia. E no entanto eu tinha absoluta certeza que durante o dia eu tinha verificado todas as portas.</p>
<p>Esta porta parecia estar bem melhor conservada eu todas as outras. Como, pensei, não havia encontrado esta porta após minhas diligentes buscas diurnas? Tive medo que a porta estivesse trancada, mas isso não fazia muita importância pois, de uma forma ou de outra, eu haveria de abri-la. Entretanto, a porta não estava trancada e isso me poupou de ter de arrombá-la. Com um simples girar da maçaneta e um leve movimento para abrir a porta, foi-me revelada uma escada que descia em direção às densas trevas de um porão há muito tempo esquecido. Eu nunca havia visitado este porão nem mesmo em minha infância quando eu costumava passar semanas inteiras aqui na companhia de meu avô. Mas agora, eu tinha quase certeza disso, o cofre pelo qual eu tanto procurava estava escondido lá, no escuro e úmido porão desta casa muitas décadas antiga.</p>
<p>Dezessete traiçoeiros degraus desci até chegar ao porão propriamente dito. Serrotes de diversos tamanhos e formas, machados, facões, miríades de tesouras e outras ferramentas inomináveis encontrei ali dispersos pelo chão. No centro do porão havia uma grande mesa de madeira de formato retangular e, sobre ela, diversos tipos de frascos, todos vazios. Uma grande estante chamou minha atenção. Ela quase que circundava o espaço interno do porão, deixando apenas um pequeno espaço vago e escuro. Na grande estante, livros de uma verdadeira babel de idiomas envelheciam preguiçosamente. Não consegui ler nem ao menos os títulos dos livros. Todos eles estavam em línguas estrangeiras. Reconheci alguns idiomas: o francês, o italiano, o árabe, o grego antigo, o latim etc. Mas a maioria dos livros estava em idiomas que não conseguia de forma alguma reconhecer. Folheei alguns desses livros e o que vi neles foi um enorme compêndio de figuras arcanas. Depois disso, lembrei-me de que devia procurar pelo cofre. Levantei-me e continuei com minha busca, aproximando-me cada vez mais do espaço vago e escuro onde a grande estante não chegava&#8230;</p>
<p>Sorri delirantemente e meu sorrir era compreensível! Afinal, depois de muitas horas, encontrei aquilo que procurava&#8230;</p>
<p>O cofre era grande, quase da minha altura, e também era muito largo e profundo. Devia caber ali, pensei, uma fortuna realmente fantástica. Eu amarrara a chave do cofre em um barbante e o colocara em torno do meu pescoço. Agora chegara a tão esperada hora de usar esta chave. Foi o que fiz&#8230; Enquanto eu abria a pesada porta do cofre, pensava na natureza da fortuna que eu encontraria ali: barras de ouro, pedras preciosas, obras de arte. Muitas foram as coisas pensadas, mas não me importava a forma da fortuna, o que realmente importava é que era uma fortuna. O tesouro de meu avô finalmente estaria em minhas mãos. A ênfase que ele dava a tais coisas só podia advir do fato de tais coisas, tais tesouros, serem excepcionalmente valiosos. Com isto em mente, abri o cofre&#8230;.</p>
<p>Susto e decepção!!!</p>
<p>Não podia ser! Não fazia sentido! Ao abrir a porta do cofre me deparei com algo absolutamente inesperado. Minha decepção só não fora maior que meu susto ao ver aquilo. Ao invés da opulenta riqueza que eu pensava encontrar ali, tudo o que eu pude ver eram alguns crânios, um livro velho e um saco fechado mais ao fundo. Longo foi o tempo que durou o decepcionante susto. O que se seguiu depois foi um misto de frustração e curiosidade. Eu tinha raiva de não ter encontrado ali nenhuma fortuna, mas também tinha curiosidade de saber a origem de tudo aquilo. Por que aqueles crânios estavam lá?</p>
<p>Contei os crânios que havia no cofre, sete ao todo. Eu quis saber o por quê desta mórbida coleção. Talvez o livro dentro do cofre pudesse me dar alguma ajuda&#8230;</p>
<p>Palavras de ódio e insanidade em páginas amarelecidas pelo tempo novamente ressoaram naquele ambiente abafado, contaminando o pouco ar que havia ali. Eu lia em voz alta aquelas palavras contaminadas por anseios e pensamentos doentios. No livro havia nomes, datas e razões daqueles crânios estarem ali. Aquelas palavras, que pela inconfundível letra me davam a certeza de que foram escritas por meu avô, juntaram-se novamente para contar histórias macabras onde gemidos de dor prevaleciam sobre pedidos de clemência. Ali, naquelas páginas há muito tempo esquecidas, relatos de extrema crueldade sucediam-se cada vez mais grotescos.</p>
<p>Atentamente li relato após relato:</p>
<p>O primeiro deles contava a história de um menino de oito anos de idade que fora usado por meu avô numa cerimônia de auto-iniciação ao culto de uma entidade antiga, cruel e sanguinária. Tal entidade era denominada no livro como Ájevo. O menino fora oferecido como sacrifício a tal divindade que, em troca, ensinou a meu avô os conhecimentos arcanos do quais ele muito se orgulhava.</p>
<p>O segundo relato contava a história de um homem de 47 anos que quebrara um juramento que havia feito a meu avô. Usando seus conhecimentos arcanos, meu avô fez este homem morrer de uma maneira brutal. Ao que parece, o pobre homem morrera carbonizado ao tentar acender uma fogueira com álcool. O fogo que o consumira estava indelevelmente maculado pelo poder de meu avô.</p>
<p>O terceiro relato contava a história de um adolescente que havia, acidentalmente, machucado meu avô. O ferimento fora leve, mas o ódio de meu avô ao adolescente era extremamente pesado. Outra vez se utilizando de seus conhecimentos arcanos, meu avô fez com que o garoto sofresse um terrível acidente e morresse devido às múltiplas fraturas que sofreu.</p>
<p>O quarto relato contava a história de um ancião que se orgulhava de ser pai de uma numerosa prole. Numa discussão, o ancião cometera o erro de ofender meu avô. Evocando o poder de Ájevo, meu avô conseguiu realizar seu terrível intento de ver o ancião chorar a morte de sua numerosa prole. Um ano foi o suficiente para que o ancião visse seus oito filhos morrerem de maneira estranha e cruel. Não suportando sua dor, o ancião se suicidou e meu avô guardou seu crânio como troféu no cofre.</p>
<p>Os quinto, sexto e sétimo relatos contavam histórias igualmente macabras. Um prazer diabólico era tudo o que meu avô sentia ao torturar e matar. Estas suas atividades ocuparam décadas em sua vida e nenhum sinal de remorso apareceu em seu coração torpe. Cada vez que meu avô praticava estes seus atos maléficos, sua insanidade era alimentada e fortalecida. O que começara como um culto tétrico tornara-se, com o tempo, uma necessidade angustiante. Meu avô precisava do sofrimento alheio para viver. Sua vida só tinha sentido com a morte dolorosa de outros. Por necessidade foi que meu avô torturou e matou suas últimas vítimas. Os sete crânios que encontrei no cofre pertenciam a todas aquelas almas amarguradas que foram vítimas da insânia e maldade.</p>
<p>No livro, logo após estes torpes relatos, havia um longo e difícil texto onde as únicas coisas que entendi é que meu avô, desde tenra idade, estudava magia com propósitos malignos e que, nos últimos anos de sua vida, pretendia evocar uma entidade mais poderosa que Ájevo. Era o propósito de meu avô iniciar o culto organizado de uma entidade chamada Crufiel. Palavras de alegria emergiam do texto de meu avô ao relatar que fora bem sucedida a evocação de Crufiel. O pai de meu pai, ainda no mesmo confuso e longo texto após os relatos, dizia que sua grande obra, sua fortuna, sua (e agora minha!) riqueza fantástica estava inserida no saco que jazia no fundo do cofre. E assim terminava o texto. Não havia nenhuma outra menção a Crufiel.</p>
<p>Não hesitei em ver o que havia no saco que jazia no fundo do cofre. Apesar de assustado com o que eu lera e presenciara, minha sede pela riqueza fantástica de meu avô eclipsava tudo&#8230;</p>
<p>Fui vítima de uma segunda decepção! Tudo o que havia no saco eram esferas de vidro, oito ao todo, sete transparentes e uma completamente negra. Neste momento, uma fúria abissal tomou conta de mim e, num ímpeto, lancei o embrulho contendo as esferas contra a escada pela qual eu descera&#8230;</p>
<p>Ouvi claramente as esferas se rachando, mas elas não se quebraram neste primeiro impacto. Eu lançara o embrulho no topo da escada, e as esferas, já rachadas, desciam os degraus lentamente, partindo-se no processo&#8230;</p>
<p>A cada esfera que se partia, um pedido de perdão, um implorar por clemência, uma súplica por piedade eram liberadas de suas prisões vítreas e enchiam o ar daquele porão com uma estranha umidade lacrimosa. Atônito assisti o quebrar daquelas esferas mágicas onde meu avô aprisionara aqueles troféus sonoros, aquelas suplicantes vozes. Todas as esferas transparentes se partiram enquanto desciam os degraus da escada, mas a esfera negra continuou a deslizar até bem diante de mim, onde finalmente se partiu&#8230;</p>
<p>Agora era a vez de meu avô implorar clemência para alguém mais forte do que ele.</p>
<p style="text-align: right;">Orestes Jayme Mega</p>
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		<title>A SOLIDÃO EQUÍVOCA</title>
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		<pubDate>Tue, 25 May 2010 19:25:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Orestes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mais de um amigo já me alertara sobre os perigos do excesso de solidão e de silêncio. Diziam eles que excesso de solidão é má companhia e que o excesso de silêncio costuma revelar coisas que seriam melhor que ficassem escondidas. Porém, eu desprezava estes conselhos e buscava justamente nestas coisas odiadas por meus amigos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mais de um amigo já me alertara sobre os perigos do excesso de solidão e de silêncio. Diziam eles que excesso de solidão é má companhia e que o excesso de silêncio costuma revelar coisas que seriam melhor que ficassem escondidas. Porém, eu desprezava estes conselhos e buscava justamente nestas coisas odiadas por meus amigos uma fuga. Do que eu fugia? Olhares inexpressivos era tudo o que eu via nas multidões que perambulavam pelas praças e ruas de São Raimundo Nonato, e olhares inexpressivos são reveladores de vidas inexpressivas. <em>Inexpressão</em> era o nome que eu dava ao terror vago que me assolava ao ver multidões mas não ver indivíduos, e este mesmo terror vago se transformava em pânico quando eu me via envolvido por estas multidões desindividualizadas. Tinha medo da desindividualização. Tinha medo de perder a consciência de minha unicidade e tornar-me uno com aquelas multidões. Era isso que eu temia.</p>
<p>Entretanto, o terror também gera fascínio e curiosidade, e curioso eu participava das festas que as multidões promoviam, obviamente tomando todo cuidado para não trair minhas idiossincrasias que me tornavam único e nem perder minha consciência diante da mentalidade- de- rebanho que dominava as multidões. Prestava uma especial atenção às músicas que tocavam e suas mensagens, e desejava o silêncio assim que compreendia a superficialidade que chegava aos meus ouvidos, e é por isso que por muitas vezes eu permanecia nas festas até que elas terminassem, até que os sons horríveis que emitiam fossem sepultados no silêncio, pois isso me dava esperanças de que, no final, o silêncio triunfaria sobre a <em>inexpressão</em> que me aterrorizava.</p>
<p>E finalmente chegara ao fim mais uma destas festas que eu participava. Era pouco antes das três da manhã. As músicas horríveis haviam cessado e o silêncio novamente triunfava. As multidões desindividualizadas voltaram para suas casas e novamente eu andava solitário pelas ruas vazias. Não era minha intenção voltar para minha casa. Queria prolongar um pouco mais minha estadia naquelas ruas vazias e naquelas praças silenciosas onde eu me imaginava realmente sozinho.</p>
<p>Mas eu estava completamente enganado, e foi justamente quando me sentia mais sozinho que <em>aquela coisa</em> me surpreendeu. Ela surgira de trás de um poste de luz, colocando sua cabeça para fora do esconderijo em que se refugiava com a clara intenção de me observar. Eu a vira de relance, e no entanto este breve olhar foi suficiente para me encher de pavor. Certamente não era humano o que eu vira e também tenho certeza de que não era animal, e por minha mente assustada também passara a idéia absurda de que <em>aquela coisa</em> também não era <em>viva</em>. Tremi de horror ao ver aquilo mas prevaleci diante de meus temores e a curiosidade me impeliu a ficar onde estava, e a criatura, ou o que quer que fosse, escondeu-se novamente atrás do poste de luz para poucos segundos depois reaparecer, com suas mãos apavorantes e sua face grotesca, e então eu a pude observar melhor, e percebi que também <em>aquela coisa</em> igualmente me temia e igualmente nutria por mim uma grande curiosidade. Eu estava com medo mas ainda tinha forças para continuar. A criatura, de novo, se escondera, mas eu sabia que ela reapareceria, e não demorou muito para que ela novamente me olhasse.</p>
<p>No entanto, desta vez nossos olhares se cruzaram, e se cruzaram também nossos terrores, pois se eu estava apavorado e tremia de terror, era também terror o que distorcia aquele rosto espectral. Diante de mim estavam olhos fantasmagóricos, e naqueles olhos eu pude contemplar vazios e abismos, escuridão e tormento, e então eu tive certeza de que <em>aquela coisa</em> não estava viva e, contudo, se movia voluntariamente. Aquilo era um espectro, um fantasma, um espírito atormentado a perambular pelo mundo, mas esse era o menor dos males, pois o que era realmente assustador era a <em>expressividade</em> de seu olhar. Meus olhos paralisaram-se naquele olhar profundo e revelador e minha mente caiu no abismo daqueles olhos fantasmagóricos. Não voltaria a mesma de lá. Isso seria impossível. Não se contempla o olhar de um fantasma e se permanece o mesmo.</p>
<p>Depois de alguns instantes, eu conseguira sair do transe em que estava aprisionado. Não se pode ficar muito tempo diante do insuportável. O desespero daqueles olhos revelava muito mais sobre minha condição do que a de daquele espectro. A <em>expressividade</em> que sempre esperei encontrar nos olhares dos vivos eu só fui encontrar no olhar de um fantasma. Quão assustadora é esta idéia! Quão desesperador é este fato! Corri sem rumo ao pensar nisso. Fugi daquilo que representava para mim tanto um horror quanto uma mácula. E para onde eu podia fugir? Não importa se o fantasma me perseguisse ou não. Aquele olhar já estava indelevelmente gravado em minhas lembranças. Não poderia esquecê-lo jamais.</p>
<p>Ao me perceber longe de onde eu vira o fantasma, acalmei-me. Olhei ao meu redor e nada vi além de solidão e silêncio. Refugiei-me em minha casa na ilusão de que lá eu estaria a salvo do sobrenatural, e depois de algumas horas de medo, reflexão e angústia, adormeci&#8230;</p>
<p>Acordei com o raiar do dia e procurei na companhia dos vivos algum alívio para a angústia que sentia&#8230; Mas que grande decepção! Não encontrei entre os vivos nenhum alívio, somente mais desespero é o que me ofereceram. Os vivos perambulavam por todo canto, com seus olhares inexpressivos e seus sonhos vazios, com suas almas pequeninas e com suas vidas mortas. Onde, afinal, eu encontraria paz para meu espírito? Os vivos nada tinham a me oferecer a não ser <em>inexpressão</em> e era exatamente isso que me angustiava. Quem poderia me oferecer alguma expressividade? Eu já sabia a resposta mas não queria aceitá-la. Não queria admitir o fato de que para encontrar alguma expressividade eu teria que, mais uma vez, contemplar o olhar de um fantasma.</p>
<p style="text-align: right;">Orestes Jayme Mega</p>
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		<title>A COISA DE OLHAR MATERNAL</title>
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		<pubDate>Thu, 20 May 2010 13:40:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Orestes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Os dedos de uma única mão já não eram suficientes para se contar quantos já haviam caído diante de Ângelo da Cruz. Seis estiveram em seu caminho e todos os seis caíram. Orgulhoso, ele relembrava os assassinatos que cometera enquanto caminhava sorrateiramente pelas vielas sombrias de São Raimundo Nonato. Novamente um foragido da justiça, este [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os dedos de uma única mão já não eram suficientes para se contar quantos já haviam caído diante de Ângelo da Cruz. Seis estiveram em seu caminho e todos os seis caíram. Orgulhoso, ele relembrava os assassinatos que cometera enquanto caminhava sorrateiramente pelas vielas sombrias de São Raimundo Nonato. Novamente um foragido da justiça, este paraibano de hábitos rudes e coração violento buscava, com seus olhos sanguinários, alguma pousada barata para se abrigar durante alguns dias. Fizera sua última vítima em Pernambuco a mando de um rico latifundiário e, assim, dera prosseguimento a sua fama de ser um dos mais respeitados pistoleiros de todo Nordeste.</p>
<p>Era lua-cheia e a meia-noite já se passara há dois minutos. A cidade estava vazia e silenciosa. Poucas pessoas perambulavam pelas ruas e mesmo estas pareciam estar voltando para suas casas. Uma brisa fria soprava constantemente e balançava as folhas das árvores. Às vezes, a brisa ficava mais forte e um silvo estranho ecoava pelas ruas mal iluminadas e sujas.</p>
<p>O silvo estranho de forma alguma incomodava a Ângelo da Cruz. Seu coração estava exultante. Ele não era somente mais um pistoleiro a oferecer seus serviços para qualquer um que pudesse pagar seu preço. Ele realmente gostava do que fazia e seus clientes gostavam do que ele fazia com suas vítimas. Matar não era o suficiente; torturar não era o bastante; humilhar era muito pouco. Logo, o tormento a que submetia suas vítimas tornou-se lendário e a simples menção de seu nome causava terror. Sua fama correu por muitos lugares e sua presença era sempre considerada maldita.</p>
<p>Aprendera a ser violento com a violência que sofrera. Filho de pais adolescentes e irresponsáveis, desde cedo foi subjugado pela brutalidade paterna. A ausência da mãe, que preferia esquecer-se de seus cinco filhos mergulhando nas tramas banais de telenovelas, era igualmente brutal. Aos seis anos vira sua mãe ser espancada até a morte por seu pai, e ainda não completara sete quando, ao presenciar outro espancamento, vira seu pai morrer. Seus irmãos também não foram capazes de lhe proporcionar melhores lembranças. Sua irmã mais jovem fora levada pela desnutrição e seus irmãos mais velhos tiranizavam o pequeno Ângelo maltratando-o à exaustão. Não é de se surpreender que um de seus irmãos tenha sido sua primeira vítima. Não demorou muito para que os latifundiários da região pobre do sertão da Paraíba percebessem seu potencial. Logo, lá estava Ângelo da Cruz prestando seus serviços para homens que, em última análise, eram os responsáveis pela pobreza de seus pais e pela sua própria desgraça.</p>
<p>Acreditando já ter visto todo o horror que há no mundo. Ângelo caminhava confiante pelas ruas sombrias. Levava seu velho 38 na cintura (o mesmo revólver com que eliminara seis vidas) e sabia muito bem que seu velho revólver não lhe faltaria no caso de alguém que cruzasse seu caminho. Ninguém que tenha cruzado seu caminho sobreviveu, assim Ângelo pensava, e isto lhe dava orgulho e confiança para seguir em frente.</p>
<p>Entretanto, ao dobrar uma esquina peculiarmente sinistra, sua coragem vacilou. <em>Aquela coisa</em> estava a treze passos de distância, semi-oculta na sombra de uma árvore. O assassino fora pego de surpresa e por alguns instantes não soube o que fazer. No entanto a <em>coisa</em> não se movera e Ângelo recuperou-se do susto. Mais atentos agora, os olhos sanguinários do pistoleiro perscrutam a sombra e aquilo que se refugiava nela. Todavia, mesmo aqueles olhos acostumados ao terrível não suportaram ver <em>aquela coisa</em> semi-oculta na sombra. Como descrever o que Ângelo viu? Como descrever o indizível? <em>Aquela coisa</em> não deveria existir. Era um sonho lovecraftiano a perambular pelo mundo. Era algo <em>inominável</em>; era uma criatura de algum abismo insondável situado além dos limites da realidade. E agora ela estava ali, com suas asas grotescas, com seus chifres diabólicos e com todos os outros detalhes medonhos. Porém, o que mais chamava a atenção de Ângelo eram os olhos do ser a treze passos de si. Um brilho vermelho-hediondo emanava de cada um daqueles abismos, e aqueles abismos olhavam para o assassino, com uma profundidade que não era humana e com uma brandura que estava além de maternal. Desesperado, Ângelo da Cruz apontou seu revólver para <em>aquela coisa</em> semi-oculta na sombra&#8230;</p>
<p>Não adiantaria nada! Seria completamente inútil! Por mais que disparasse, <em>aquela coisa</em> nada sofreria. Ângelo, ao perceber que mesmo que descarregasse seu revolver no ser a sua frente este de forma alguma se machucaria, decidiu abaixar sua arma, e ao contemplar mais uma vez aquela criatura terrível e de olhar maternal decidiu, enfim, desarmar-se por completo. Não havia mais nada a ser feito a não ser tomar uma resolução extrema. Voltando-se de costas para o ser, Ângelo retorna a caminhar, com a firme convicção de nunca mais matar ninguém.</p>
<p style="text-align: right;">Orestes Jayme Mega</p>
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